"Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.
Mesmo a beijar-me, a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Poisa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...
Mas que me importa a mim que não me queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo,
Do teu frio desamor, dos teus desdéns,
É, na tua vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?"
O Maior Bem
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"No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..."
Volúpia
***
Regressar à poesia de Florbela Espanca depois de tantos anos foi uma experiência interessante: regra geral não fixo versos, posso recordar títulos, passagens, mas aquilo que fica em mim são as imagens que se formam, as sensações — tal como as impressões que as pessoas deixam em nós, há algo de orgânico na poesia, nos poemas; funcionam mesmo como corpos, matéria — e essas sensações, por sinal, estavam intactas. Ao reler alguns destes poemas soube que a informação que estava a receber se encaixava harmoniosamente nas impressões anteriormente criadas: o erotismo, a intensidade (que ela tão bem sabia passar pelas palavras, mas que se agudiza com o uso da pontuação: a abundância de pontos de exclamação acentua a urgência das palavras, chega a ser violento — o tom é quase sempre pulsante, exaltado, como quem ameaça permanentemente saltar, cair), a experiência da dor...
Na poesia a obra e poeta estão perto de se fundir (talvez sejam quase sempre um só) e, no caso de Florbela Espanca, sinto que toda essa intensidade, exaltação e uma certa teatralidade (no sentido de quem dramatiza a dor, de quem procura apropriar-se dela e criar significado, sentido) ficarão, para sempre, cronologicamente inscritas: 8 de Dezembro é a abertura e o fecho de um ciclo, nascimento - casamento - morte. Há algo de irremediavelmente belo nisso (digo eu que, para o bem e para o mal, sempre simpatizei demasiado com os suicidas).