"Camaradas, enredada com a vida do Macaco e a do Jumento, a vida do Homem só pode estar alienada de si mesma. Em seus primeiros vinte anos, o Homem vive a vida de um macaco. Pula, corre, sobe em árvores e muros, faz o que tem vontade de fazer. Esse período, o mais feliz de sua vida, passa rapidamente. Depois vêm os vinte anos em que o Homem leva a vida de um jumento. Trabalha duro, todos os dias, para alimentar e vestir a família. É frequente sentir-se exausto como um jumento após uma longa e árdua viagem, mas precisa permanecer firme, porque o fardo da família repousa em seus ombros, e ele tem de continuar. Depois desse período, o homem atinge os quarenta anos, e tem início a vida humana. A essa altura seu corpo está desgastado, seus ombros fracos e pesados, e ele tem de contar com o cérebro, que também já começou a deteriorar, não sendo mais tão rápido e capaz quanto imaginava. Às vezes sente vontade de chorar, mas o cérebro o impede: 'Não faça isso! Precisa se controlar. Você ainda tem muitos anos pela frente'. Todo dia empurra mais pensamentos e emoções para dentro do cérebro, no qual já se encontram armazenadas muitas coisas, mas não deixa nenhuma delas sair para poder acomodar outras novas. Assim, dia após dia, enfia mais alguma coisa lá dentro, até que um dia o cérebro fica tão cheio que só lhe resta explodir. É como uma panela de pressão cuja válvula de segurança ficasse bloqueada por estar cheia demais, com a agravante de o fogo continuar a aquecê-la por baixo. Como resultado, a única saída é explodir."
Esse é o final da primeira "aula" que Jian assiste o professor Yang conceder no hospital. Nesse momento, ainda é difícil para Jian decifrar o que seu debilitado professor quer dizer com essa narrativa que ele diz se tratar da verdadeira história do Gênesis. Talvez, algo que poderia ocorrer na mente de Jian, um aspirante a doutoramento no departamento de literatura da Universidade de Pequim - tirando a confusão inicial e constrangimento com a narrativa tão banal e simplista para explicar o sentido e o curso das coisas -, é que, se aquilo contém alguma verdade e a vida do ser humano em geral realmente se dá dessa forma, ele próprio poderia se considerar um privilegiado. Afinal, de acordo com esses termos, a vida do acadêmico poderia ser a vida ideal: os primeiros quarenta anos seriam vividos, efetivamente, tendo o uso primordial do cérebro para todas as suas principais atividades, incluindo sustentar a si mesmo e a família. O que Jian começa a entender ao longo da narrativa, porém, o leva a uma concepção bastante distinta. À medida em que assiste a outras aulas de Yang no hospital, Jian cada vez mais é convencido de que a vida de um intelectual na China não se distingue de qualquer outra função burocrática, visto que não há a possibilidade de se exercer um pensamento de fato independente e original. Segundo o próprio professor, ser um intelectual de ciências humanas na China não é nada além do que ser um escriturário.
Se essa crítica sobre o excesso de burocracia e a falta de autonomia na China não é uma novidade, tampouco um argumento original, a grande questão levantada pelo livro de Ha jin poderia ser a própria antítese que tende a surgir na mente de qualquer ocidental ao fim do livro: será que, de fato, ser um acadêmico no ocidente é assim tão distinto de como é na China? Essa questão, de certa forma, pode surgir também na mente de qualquer chinês que idealize uma vida acadêmica no ocidente. O professor Yang demonstra uma grande idealização sobre as universidades canadenses e americanas, mas também grande frustração por jamais ter conseguido lecionar ou sequer participar de uma conferência em alguma delas. O máximo que pode atingir foi uma visita rápida, desajeitada, sem conseguir realmente compreender o funcionamento de uma universidade ocidental. Será que o controle da secretária do partido e as picuinhas entre os diretores de departamentos, as mágoas sobre as concessões de cargos e aceite de publicações em periódicos universitários que vemos no livro, são assim tão diferentes dos atritos nos departamentos de pós graduação em ciências humanas das universidades ocidentais?
Essa é uma questão que Jian simplesmente não poderia se fazer, pois seu raciocínio é jogado para o lado oposto: não tendo a possibilidade de estudar no exterior, o melhor a se fazer seria entrar em um cargo explicitamente burocrático, ser literalmente um escriturário em algum departamento do Partido. O motivo central dessa decisão - e esse é um ponto crucial no argumento do livro - não foi apenas esse medo de não ter autonomia e apenas atuar como um intelectual, mas sim a vontade de fazer algo com implicações concretas na sociedade, em especial à sociedade em situação de miséria. Após a visita a uma aldeia em condições lamentáveis, Jian toma para si a vontade de tentar ajudar aquelas pessoas, e evidentemente, o trabalho acadêmico que ele poderia realizar em um departamento de literatura jamais lhe propiciaria a possibilidade de mudar a realidade daquelas pessoas.
A vontade de querer fazer algo ‘’útil’’ para a sociedade, assim como não considerar o trabalho acadêmico como algo útil, principalmente se pensar em uma sociedade sem qualquer acesso à cultura, quanto menos à trabalhos acadêmicos, coloca em pauta muito mais do que os resquícios do anti-intelectualismo presente na China, sintomas dos anos da Revolução Cultural. O Ensandecido reflete também a própria mentalidade do acadêmico, que, seja por atritos profissionais, frustração existencial ou idealismo, estará sujeito sempre, em qualquer sociedade, a levantar a si mesmo esses questionamentos, que poderiam ser resumidos em um “vale a pena?”. Para o professor Yang, e mais adiante para o próprio Jian, não vale. Ao chegar no final da vida, quando poderia finalmente desfrutar da vida humana, o acadêmico não só continua frustrado profissionalmente, como já tem coisas demais sobrecarregando sua panela de pressão. A tendência de ela explodir mais cedo, de maneira ainda mais implacável, e manter-se perturbadora para seu dono até o final da vida, é ainda maior.