O historiador Leandro Karnal, um dos intelectuais brasileiros que, através de seus livros, palestras e vídeos, nos ajuda a pensar o mundo contemporâneo, discute uma questão presente na vida de todos: a solidão. A partir de referências de filósofos e da própria Bíblia, de fatos históricos e de romances, ele faz uma reflexão sobre a natureza de viver só - por pouco ou muito tempo, estando ou não acompanhado.
Apresentando como a solidão é encarada no cinema, na literatura, na música, nas artes, ele mostra que ela pode ser iluminadora e como Deus se revela aos solitários. O mesmo Deus que, segundo Gêneses, teria dito: "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e corresponda." E expõe como se desenvolveu a tradição judaico-cristã da solidão. Neste O dilema do porco-espinho, Karnal viaja pela modernidade líquida e analisa a solidão no mundo virtual e o isolamento. Discute dos amigos imaginários criados pelas crianças aos pensamentos de alguns filósofos, como Aristóteles, que dizia que a solidão criava deuses e bestas. Como a solidão é um tema que sempre o acompanhou e, segundo revela o próprio Karnal, tem crescido na maturidade, o autor escreve este livro como um ensaio pessoal. Ao dividir suas meditações, o autor convida o leitor, durante o ato da leitura, a deixar a solidão de lado e compartilhar seus pensamentos também.
Leandro Karnal (São Leopoldo, RS, 1963) é um historiador brasileiro, atualmente professor da UNICAMP na área de História da América. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração curatorial de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo,1 Karnal tem publicações sobre ensino de História, bem como sobre História da América e Religiões.
1.5* Bem diferente do que eu imaginava. Pouco pude aproveitar das reflexões viagens do autor (grande parte das vezes sobre passagens religiosas) Dica: Pulem o Capítulo 3 se não quiserem saber detalhes e desfechos de vários livros. Sinceramente não entendo autores que fazem isso. Não é porque uma história é famosa que todo mundo tem obrigação de conhecê-la por completo ou ter o mesmo repertório de quem você está lendo. Isso realmente pode estragar a experiência do leitor caso ele pretenda pegar algum dos livros mencionados para ler futuramente. Não só pulei metade desse capítulo, quando tava perto do final fui fazendo uma leitura ultra mega dinâmica.
3,5 Neste livro Karnal fala da forma que a sociedade, o cinema, a literatura mostram a pessoa solitaria ou sozinha. Os termos pejorativos para falar da "solteirona", a mulher que opta em nao casar. Os filmes como Psicose, O Iluminado que mostram individuos solitarios com sérios problemas mentais ou de comportamento. Como se ser/estar sozinho fosse sinônimo de transtornos. Também fala de outros tipos de solitarios inseridos em uma outra cultura, onde me enquadro perfeitamente, como "Lost in Translation", da Sofia Coppola. O autor menciona a solidao de artistas, escritores, cientistas, presos, algo que ja tinha lido em Solitude: A Return to the Self. Ele inclui a solidao do ponto de vista feminino: Virginia Woolf, irmas Bronte, Kate Chopin, Charlotte Perkins Gilman, Olivia Laing, entre outras. Explica a relaçao da solidao nas religioes budista e nas monoteistas, os grandes lideres, Moises, Jesus, Maomé, Buda, profetas, monges, santos que precisaram se retirar, estarem sozinhos para receberem 'iluminaçao' ou passarem por uma provaçao no deserto e sairem fortalecidos. Aponta também nossa relaçao com a Internet e rede sociais, a falsa ilusao que as pessoas que a gente adiciona sao amigos, os algoritmos decidindo por nos, nosso poder de controlar e nos afastar de pessoas que nao tem a mesma opiniao com um simples unfollow ou block, etc. Recomendo para quem tem interesse no tema, é uma introduçao ao assunto e lê-se rapido.
Atençao: Quem nao gosta de spoilers de livros e filmes, melhor nao ler ou ler com cuidado saltando as partes.
Adoro o Karnal mas esse livro acabou sendo bem diferente do que eu esperava. Não queria saber tanto sobre a Bíblia, me senti quase que sendo catequizado. Então, a nota reflete apenas MINHA expectativa.
O livro tem boas idéias e argumentos, mas os capítulos 3, 4 e 5 (ou seja, metade do livro) são extremamente cansativos e repetitivos. Ele poderia ter enxugado bem mais esses capítulos e manter a qualidade do livro, já que o principal das idéias dele são expostas nos capítulos 1, 2 e 6.
Um livro super curto e que traz varias reflexões sobre a solidão. Durante nossa concepção de vida sempre tivemos a ideia de solidão como uma forma de punição e nunca queremos presenciar isso. Porem, é extremamente importante estar sozinha pra se conhecer e poder diferenciar quais defeitos ou qualidades temos incorporados a partir do meio externo e muitas vezes isso prejudica o verdadeiro eu. A diferença que o livro traz sobre solidão e solitude é importante para compreender que a solitude é o ato de estar bem consigo sozinha e amar sua propria companhia. A solidão esta presente em tudo na arte, leitura, musica e se repararmos a gente não consegue ficar mais de 4h em silencio total só com os seus pensamentos. Enfim, livro que contextualizou varias obras de arte como a expressão da solidão do artista e foi incrivel parar pra pensar nisso tudo.
Uma leitura interessante sobre os diversos aspectos da solidão. A solidão-solitude, a solidão-solitária, solidões desejadas ou involuntárias… Gostei da abordagem e das nuances sobre encontrar o outro eu dentro de mim mesma…
Inicialmente, o livro é muito interessante justamente porque o autor é um homem de muito conteúdo, que mescla várias referências (religiosas, literárias, cinematográficas, etc) para tentar moldar um panorama de como a solidão se constrói diferentemente em cada um. A questão é que alguns capítulos são muito mais interessantes do que outros. Isto é natural e esperado, porém eu acho que faltou ao autor construir melhor algumas linhas de raciocínio em alguns pontos. Em alguns momentos, ele sai escrevendo, e escreve, escreve e o fio da meada vai loooonge... Eu precisei várias vezes voltar para tentar lembrar de onde ele tinha partido.
Justamente por ser um homem de tanto conteúdo e referências, me parece que o Karnal se embaralhou um pouco com tudo que ele queria dizer e acabou não conseguindo conectar algumas das informações de forma muito coerente.
Apesar destes pontos, ainda acho que o restante do livro é bastante interessante. Ele levanta alguns questionamentos já muito debatidos (redes sociais e solidão na terceira idade, para citar dois), mas também propõe a visão de solitude por uma nova ótica. Mesmo para mim, que sou muito acostumada às dores e prazeres da solidão e me interesso pelo tema, acompanhar a jornada de pensamento dele e suas conclusões foi interessante, e provavelmente irei reler este livro no futuro.
Esperava um pouco mais (justamente em virtude da dimensão do autor), mas ainda assim recebi uma boa obra. Boa o suficiente para ver que a solidão é um problema universal, e isto me fez sentir um pouco menos sozinha. Se isto não é um motivo para ler, eu não sei qual outro seria.
Ao ler um livro do Karnal, vc quase consegue escutar a sua voz narrando as histórias, conexões e reflexões. Este livro vai falar sobre a solidão, sobre os anseios e a necessidade que temos dela. O livro fará um passeio pela história, pelos relatos bíblicos, pelas artes plásticas, cinema e livros, pelos castigos e degredos, narrando como os personagens ou autores lidam com a solidão e o que levam dela. Certamente este livro te fará boa companhia ;)
"Talvez não seja a solidão que nos cause horror, mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado."
"Toda a trajetória da espécie humana no passado e hoje é uma tentativa de criar ou barrar a comunicação com a solidão. Fazemos arte, criamos família, escrevemos e lemos, votamos e falamos em redes sociais a partir da experiência absoluta da solidão sentida de forma consciente ou não. Nós nos casamos e separamos por causa da solidão sentida individualmente ou a dois. A humanidade é formada de porcos-espinhos, de corpos e de almas, de frio e de agulhas sempre dizendo venham/saiam, aproximem-se/vão embora, sístole-diástole pendular de tudo que somos e nos cerca, de tudo que tememos e amamos."
"Desconfie de quem se isola sempre. Desconfie ainda mais de quem nunca se isola. Confie pouco em quem vive conectado. Tenha compaixão pelas pessoas que estão tão desesperadas para evitar a solidão que vivem de festa em festa, de post em post, de bar em bar levando seu desespero para beber. Solidão bêbada não ilumina, apenas tropeça e amanhece mais triste na calçada."
A solidão, o bem ou o mal que nos acompanha pela vida, a depender da forma como é vista e interpretada, é o objeto do livro de Leandro Karnal. Digo o bem ou o mal, pois o próprio autor, no terceiro capítulo, já faz esse esclarecimento, trazendo a acepção em sua forma negativa, ou seja, em solidão, que se tornou tema constante ultimamente. Mas também, trata de sua forma positiva, a solitude, esse estado de reclusão ou isolamento voluntário o qual também muitas vezes precisamos dele.
É também a partir do terceiro capítulo que Karnal entre em outros domínios, além da solidão primordial, a de Adão, e também em relação ao mundo virtual, tratados respectivamente no primeiro e no segundo capítulos. Fala-nos então da solidão na literatura, nas religiões, nas artes e no cinema.
Karnal sabe seduzir com sua escrita em razão de seu imenso conhecimento, praticamente enciclopédico, ao tecer o seu texto com tantas referências e tantas formas de ver o mundo, que é difícil dizer que não procura atingir o objetivo daquilo que visa a falar a respeito. Não se trata, porém, como alguns podem esperar ou desejar, de um grande aprofundamento em cada tema, mas desperta a curiosidade para a procura de outros conhecimentos por meio de outras fontes sobre o tema tratado.
Para os que já conhecem a dor da solidão e que procuram a solitude criativa e de auto-conhecimento, esse livro é como uma troca de notas com o autor, um diálogo singular. De um lado, uma exposição histórica-cultural em torno do tema, salpicada aqui e ali do sentimento de um autor tão requerido pelo público (portanto, alguém com raros momentos de solitude, e que provavelmente é sozinho em meio às multidões que enchem suas palestras). De outro, o leitor em recepção de um texto bem escrito, e a chance de uma crítica pessoal sobre o tema. Para quem abafa a solidão e desconhece o prazer da solitude, talvez leia esse texto com uma certa curiosidade, ou com certo receio. Ou talvez apenas assimile a exposição histórico-cultural e tente se esquecer da realidade incessante da solidão depois que fechar o livro. Seja qual for o tipo de leitor, trata-se de mais um ótimo livro de um dos poucos pensadores e expositores atuais do nosso país. Nota 4.5/5.
Eu comprei esse livro por R$3,00 no Prime Day e ele valeu esse valor mesmo. Ele teria dado certo se não tivesse tanta divagação e citação da bíblia. É basicamente o briefing de um podcast de um homem branco de meia idade sobre a solidão do homem branco de meia idade.
La soledad, entre mi busqueda de libros que me ayudaran a entender un vacio que no aclaraba en mí, google libros sobre la soledad y sorpresa aparecio este. Lo compre solamente por el titulo pensando que era como una novela o cuentos sobre la soledad, vaya error fortituo, Karnal nos plasma la soledad a travez de los años, una sinfonia de datos tipo ensayo donde nos muestra la cara de la soledad y la solitud, en la pandemia nos aislamos pero con la tegnologia nos acercamos, el autor abarca muchos rasgos actuales, religiosos y culturales desde una perspectiva objetiva, el libro te ayuda a encontrar una soledad solitud.
Além do capítulo 3, que contém spoilers de livros clássicos (como a Juliana mencionou), fujam do capítulo 5 e o final do 6, pois tem spoilers dos seguintes filmes : Na Natureza Selvagem (2007); Motorista de táxi (1976); Encontros e Desencontros (2003); Ela (2013); A Liberdade é Azul (1993) e O Segredo dos seus Olhos (2009).
Lamentável a atitude do ator, isso estragou o livro todo.
"Quando se queima o navio, impede-se o retorno. Só existe o caminho pela frente. Se fosse, apenas um gesto de coragem, de determinação, todo relacionamento seria um sucesso reservado a ousados. Gente corajosa também enfrenta a separação, bem como quem jamais queimou nada, e sempre manteve intactos os navios da sua individualidade... Se você não se aguenta, quem irá fazê-lo?"
Gosto muito de ouvir o Sr. Leandro Karnal falar. Sempre aprendo com a simplicidade, leveza e humor caraterísticos de suas palestras e vídeos no Youtube. Em minha humilde opinião, ele é um dos melhores pensadores do nosso tempo.
Este é o primeiro livro dele que leio até o final (havia iniciado “Pecar e Perdoar” mas ainda não consegui terminar). O livro é muito interessante e aborda um assunto que toca todos nós: a solidão. O sentimento de desconexão que todos, vez ou outra, sentimos. Além de explorar este sentimento ao longo da história passando por livros sagrados, filmes e etc, ele também apresenta conclusões interessantes sobre a importância de aprender a lidar com esse sentimento/estado de espírito.
Foi uma leitura agradável e profunda sem ser maçante ou muito técnica. Obviamente há vários momentos em que precisamos nos esforçar, pois há incrível complexidade em certos conceitos simples, quiça óbvios, que insistimos em ignorar.
Eu recomendo a leitura para todos aqueles que estão no caminho do auto-descobrimento e todos aqueles que compreendem que só vamos evoluir mais quando começarmos a olhar para dentro primeiro, sem perder a noção de que este olhar introspectivo é essential para que o mundo ao nossa redor possa ser transformado em um lugar mais pacífico, agradável e gentil.
Seguem abaixo trechos que achei interessantes:
“A metáfora do filósofo alemão trata do dilema humano : solitários , somos livres , porém passamos frio . A dois ou em grupo as diferenças causam dores . Teríamos de achar uma distância segura , que trouxesse o calor necessário e evitasse o ataque.”
“A mensagem é quase permanente : somos gregários e , para as telas , contrariar nossa alma de bando elimina a estabilidade.”
“O poeta Rainer Maria Rilke definiu que o amor era apenas duas solidões protegendo - se uma à outra . Quase podemos ver a ligeira ironia contida na afirmação : amor é solidão compartilhada.”
“Tudo de bom e de ruim vem do jogo de contrastes entre companhia e solidão . Não existe solução ideal , apenas consciência . Não existe vacina , apenas clareza dos males . Não existe cura , pois solidão se encerra com a morte , que , aliás , será vivida de forma absolutamente solitária . Antes , porém , caminhe comigo . De todos os antídotos contra a solidão , a leitura é um dos mais criativos.”
“A percepção de que falta algo é de Deus , e não do homem.”
“Estar só , não ter filhos , não se casar , não colaborar para a permanência do nome é um ato que contraria o cerne do plano de Deus.”
“O Judaísmo nunca viu efetivo valor no celibato ou na castidade.”
“Quero estar sozinho e quero companhia e gostaria de controlar esses dois momentos de acordo com minha vontade . Não é possível . A busca do equilíbrio tem sido um desafio constante para estimular casamentos e divórcios . Síndrome de lobo errante : a alcateia fornece proteção e companhia , porém impõe o ritmo da marcha . Como uivar feliz e solitário para a Lua e receber o calor de um grupo ou de uma companhia?”
“A pergunta central do filósofo alemão era a qual distância eu teria o suficiente calor associado a uma zona de conforto sem espinhos . De muitas formas , o mundo digital tem sido a resposta encontrada para equilibrar as pessoas entre a dor da solidão e a dor do contato com outras pessoas.”
“O mundo contemporâneo , a partir do século XIX , foi trazendo o reforço da ideia de opção pessoal , logo a escolha mais adequada à felicidade . Os casamentos arranjados foram sendo substituídos pela necessidade de amor genuíno . Surge a ideia , estranha por séculos , de que a junção de um homem com uma mulher não era um contrato formal para gerar filhos legítimos e herança , mas uma busca de felicidade familiar . Imagine como era exótico , no seio da milenar monarquia inglesa , a ideia de que a rainha Vitória fosse inteiramente apaixonada pelo marido , o príncipe Albert . Não era apenas uma novidade na monarquia , e , sim , uma tendência crescente : o casamento e a família poderiam trazer felicidade.”
“Agora , imaginem o salto em direção à nossa época : eu escolho com quem devo me casar e qual a função que desejo exercer . Aparentemente , assumo o risco da felicidade a partir da minha vontade . Com o individualismo crescente , tudo é válido desde que eu queira , desde que eu deseje como opção.”
“Sem sorriso , não existe a chance de imagem . Aparecer em redes é exibir felicidade.”
“O novo imperativo não é case , tenha filhos e siga uma carreira estável . O imperativo absoluto é “ seja feliz ” e , se não for , ao menos pareça nas fotos de redes sociais.”
“Só consegue dizer que a causa central era “ porque era ele , porque era eu ” . O autor dos Ensaios reconhece que , na especificidade absoluta do outro , estava a chave da fusão elevada a que chamava amizade . Tal afirmação de Montaigne mostra que a amizade encontra o mistério da afinidade afetiva porque , diante do amigo , torno - me , de fato , quem sou . Não existe uma racionalidade que abarque isso.”
“Lembremos o conselho sábio dado por um tolo . Polônio prescreve ao filho Laertes , na peça Hamlet : “ Os amigos que tens por verdadeiros , agarra - os a tu’alma em fios de aço ; mas não procures distração ou festa com qualquer camarada sem critério ” .
“A diferença central não está contida em virtual ou real , porém na percepção do que venha a ser real . Sempre é preciso insistir : a ideia de realidade varia de geração a geração . Todas as gerações sempre consideraram que a sua atitude era a mais sensata . Descartes advertiu que bom senso seria a virtude mais bem distribuída do mundo , pois todos acham sua dose pessoal justa e equilibrada.”
“A definição mais clássica de um chato é a que diz que se trata de um sujeito que lhe retira da solidão sem oferecer companhia.”
“O terceiro poder é o mais sutil : a diluição da responsabilidade.”
“A internet possibilita a inimputabilidade em grau maior do que o que conhecíamos até aqui.”
“A internet encontrou as duas coisas para nós : a magia ilusionista de Próspero e a droga da felicidade de Huxley . Aí está um admirável mundo novo que poderia eliminar toda solidão . Será?”
“Talvez não seja a solidão que nos cause horror , mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado.”
“Então , parece que a chave de tudo não é solidão ou companhia , porém controle.”
“Um clássico da sociologia , publicado em 1950 , já alertava os pais de baby boomers sobre o efeito que estou descrevendo . David Riesman , em A multidão solitária , argumentava que a sociedade estava em transição de um estágio “ orientado para dentro ” para um estágio “ orientado para o outro ” . Até a geração da guerra , as pessoas eram profundamente influenciadas por pais e autoridades mais velhas e de sua comunidade , tendendo a reproduzir seus padrões de vida . No pós - guerra , Riesman detectava a diminuição da importância da vida familiar e comunitária e a ascensão dos meios de comunicação de massas . Nesse novo padrão , os indivíduos passavam a depender cada vez mais da aprovação de seus pares para tocarem a vida : “ As pessoas perdem a liberdade social e a autonomia individual tentando ser como as outras ”.”
“Ou seja , tenho a ilusão de liberdade de navegação , mas trafego em trilhos que construí inadvertidamente . Se tentar sair deles , descarrilho a composição.”
“Profundamente conectados , vivemos isolados . Ele chama essa nova forma de solidão de iSolamento , brincando os nomes de produtos da Apple.” “O que nos atrairia para esse “ vício ” seriam a descoberta do novo , a sensação de liberdade ( que não seria real ) , a negação do Eu real ( que viria de mãos dadas à criação de uma nova e poderosa identidade virtual ) , o anonimato e a facilidade de se relacionar e encerrar relacionamentos.”
“Conviver com a diferença e administrar o atrito inevitável é um ato de maturidade . Ser contrariado , questionado , posto em suspeição , rejeitado , desde que não sejam as únicas experiências que conheça , criam resiliência , moldam personalidade , caráter . O filtro bolha impede tudo isso.”
“Como numa relação de vício , o que me mata também é minha única fonte de prazer.”
“Conviver com a diferença em qualquer campo é um salto na sua própria consciência.”
“Recapitulo : a solidão pode ser um exercício contemplativo muito bom e um ponto de crescimento . O convívio também pode ser rico pela diferença e pelo atrito em si . As redes sociais não oferecem o isolamento necessário para o crescimento nem a intimidade densa e até conflituosa da relação humana . Não ganho a paz nem enfrento a diferença.”
“Os livros poderiam ser agrupados em duas grandes famílias : aqueles que falam sobre encontros e aqueles sobre desencontros , ou seja , estar só ou estar acompanhado . De alguma forma , a literatura é a história da solidão.”
É tão difícil para o homem permanecer solitário , em silêncio , que ao fazer orações , por exemplo , sente urgência em proferi - las de forma audível . Só a mente mais preparada e treinada consegue meditar ou orar introspectivamente , sem se deixar embotar pelo sono.”
“Diante de um livro aberto , colocamo-nos como viajantes prestes a embarcar em um porto de possibilidades , sem nunca sermos assaltados pela solidão durante a viagem , mesmo que o livro narre a solidão do personagem . Afinal , a sensação de participação na história estabelece intimidade , e intimidade só é sentida em companhia . A abertura do coração do personagem provoca abertura de nosso próprio coração , transformamo-nos em espelhos de suas emoções , que reverberam tão profundamente em nós que perdemos a noção de espaço e tempo reais e somos levados , em virtude do processo de identificação com o personagem , à catarse de aspectos de nosso eu mais secreto . A literatura possibilita a chamada experiência vicária , pois , ao entrarmos em contato com as experiências dos personagens , atravessamos fronteiras desconhecidas de nós mesmos . O outro , o estranho , o “ estrangeiro ” do livro , deflagra o estranho , o “ estrangeiro ” em nós , e ao reconhecer sua presença passamos a conhecer o que estava velado em nós e constatamos que somos todos estrangeiros em um processo contínuo de autoconhecimento , processo esse que se prolonga até a morte.”
“Ver os próprios defeitos com exatidão , tomar ciência de cada problema que temos , seria o primeiro passo para erradicá - los . Os seres humanos não são perfeitos , mas são perfectíveis . A busca pela melhora de si começa com a solidão do deserto no raciocínio religioso.”
“Não cometi o erro , minha vitória se deu porque induzi o erro . Sendo mais direto , esse é o poder da sugestão . Nosso cérebro é sugestionável , e isso é explorado das mais diversas formas por tentações mais contemporâneas.”
“O texto bíblico quer que conheçamos a firmeza do propósito de Jesus , confirmando que ele é o Messias . O Diabo simboliza a areia movediça , o instável , o mutável , a ocasião ( que faz o ladrão ) . Jesus é sua antítese : o sólido , o escrito , o imperturbável , a essência que , mesmo diante de quaisquer circunstâncias , não se modifica.”
“Jesus não escolheu anjos , mas seres humanos . Conhece seus discípulos e , curiosamente , ama - os do mesmo jeito . Amar conhecendo é um dom único e uma generosidade épica.”
“Talvez por isso seja vedado aos homens o conhecimento do futuro . Não aguentaríamos a dor da verdade pela frente.”
“Somos todos canalhas e , invariavelmente , covardes . E Ele amou os homens apesar do que via.”
“A língua , a próxima a ser dominada , é por onde se disparam as más palavras . Mantenha a língua quieta e você diminui a chance de pecar.”
“A solidão era a regra , e o improviso grassava.”
“Heidegger , em Ser e tempo , nos lembra que tememos o que nos ameaça , aquilo com o que não temos familiaridade . Aproximando - se daquilo que nos aflige , não necessariamente tocamos a fonte do receio . O terrível da experiência da solidão contemplativa , da solidão mística , religiosa ( mas talvez de toda solidão ) é que essa “ fonte do mal ” pode não se apresentar.”
“A solidão fundou as maiores religiões e práticas religiosas . Buda encontrou a iluminação solitário , debaixo de uma figueira . Jesus passou quarenta dias no deserto . Maomé estava sozinho numa caverna quando Gabriel falou com ele pela primeira vez . Moisés , só , recebeu os Dez Mandamentos.”
“Deus parece amar os solitários . Suprema contradição , bela em si : o único Ser que representa o fim do abandono , o Ser que dissolve qualquer isolamento e que sempre está ao meu lado , ao final , ama o isolamento dos fiéis.”
“O preço da liberdade é a solidão com essência . Logo , a solidão é positiva , pois a liberdade é a única forma de existência em seu sentido mais pleno.”
“Ao longo dos séculos seguintes , especialmente no movimento romântico , tanto na Europa quanto nas Américas , solidão se transformou de algo físico , uma condição de vulnerabilidade advinda do isolamento , em um sentimento , uma condição da mente . Poetas , escritores e artistas de toda espécie passaram a criar em função da solidão . A nova concepção de estar só era sinônimo de escapismo , uma escolha pessoal para que o indivíduo pudesse , conscientemente , fugir das angústias da vida em sociedade . A sociedade , especialmente a vida urbana , passa a ser vista como fútil e plena de relações pessoais superficiais . Lord Byron , descrevendo como poucos esse pessimismo , essa insatisfação com a vida , escreveu que “ é na solidão que estamos menos sós ” . Não se elimina a ideia de que estar só envolve perigo , vulnerabilidade , mas esse é o preço da liberdade.”
“Alain de Botton tem uma frase muito feliz , quando raciocina sobre como o contato com a arte faz com que as pessoas se sintam menos solitárias : “ Pessoas que vivessem o tempo todo felizes jamais iriam a uma livraria ou ouviriam música ” . Ou seja , a tristeza e a melancolia de nossos dias , a raiva e as explosões que temos , a desumanização de nossos dias líquidos podem ser diminuídas pela arte . A arte e a capacidade de amenizar a solidão , de nos fazer pensar , de nos aproximar e sentir.”
“Por vezes , confundimos , por insegurança ou carência , a delícia de estar junto , do companheirismo , com a necessidade de só haver vida em casal e no casal . Fora dele , nada . Tudo a dois pode parecer lógico na paixão , que , naturalmente , é desequilíbrio . Uma vida apaixonada é uma existência ensandecida , impossível . Quando passa o efeito neuroquímico dessa primeira fase de um relacionamento , sobra o real de nós mesmos . Passamos a ter defeitos aos olhos do outro . Manias podem virar vícios ; vícios podem erigir barreiras ; barreiras criam celas solitárias . Como cantou Chico Buarque , se “ rompi com o mundo , queimei meus navios ” , para onde podemos ir quando uma situação assim chega ? Lidar com a autonomia do outro pode ser difícil ao ciumento , mas enclausurar alguém numa masmorra interna de medos e receios é certamente pior.”
“No começo de uma relação , dizer que a alma gêmea não precisa falar nada porque te conhece com um simples olhar pode parecer virtude . Com o tempo , as não palavras podem virar silêncios que duram dias . O enfado previsível do outro . Sei o que ele vai dizer , sei o que ela fará antes mesmo que diga ou faça . Monotonia e previsibilidade são sintomas dessa solidão a dois . Outro é o amor apenas na distância . Amar intensamente a pessoa , desde que ela esteja longe . Por mensagens de celular , demonstrações públicas de carinho , o amor é impávido colosso . Tão logo a campainha toca , tudo o que era sólido se desmancha no ar . O único desejo é que nossa cara - metade suma , pois vivemos melhor sem ela . Se dedicação e entrega viram exigência e obrigação , podemos estar acompanhados , mas nossa condição é de solidão profunda . Abrir a boca para que , se isso gerará briga e ( mais ) rancor ? Se estar sozinho pode ser bom , a solidão a dois é terrível , uma prisão autoimposta . Paradoxos da vida conjugal , vivemos numa solitária em companhia indesejável.” “Trocando em miúdos , o problema não é estarem sozinhos ou o silêncio : é a falta de comunicação , a distância de almas .
“Logo , alguém velho é um espelho do que não quero encarar , da finitude , da morte.”
“O idoso torna - se aquilo que não quero de forma alguma : o indício de seu próprio fim.”
“No relacionamento , criamos jaulas de silêncio e , por vezes , vivemos lá por toda a existência.”
“Deixamos de querer castigar pelo crime para adotarmos uma lógica de salvar a consciência de cada indivíduo por meio do recondicionamento do corpo e da solidão da reclusão . Ou seja , prender alguém , privando - o de sua liberdade e da interação com outras pessoas , como forma de punir é algo razoavelmente recente em nossa história.”
“A humanidade é formada de porcos - espinhos , de corpos e de almas , de frio e de agulhas sempre dizendo venham / saiam , aproximem - se / vão embora , sístole - diástole pendular de tudo que somos e nos cerca , de tudo que tememos e amamos . A história do ser humano é a história da solidão registrada nas paredes das cavernas de Lascaux ou nas redes sociais.”
“Se eu tivesse que resumir as muitas boas ideias de Cristian Dunker , encerraria a paráfrase do seu texto com a frase da página 31 : “ Cultivo da solidão é o cultivo do Outro que nos habita ” . Estranhar - se , despir - se de retóricas e máscaras que os outros perceberam em você e que você incorporou ou desenvolveu , afastar - se da cena que o mundo e cada um de nós demanda : eis a fórmula da boa , libertadora e criativa solidão - solitude.”
“A solidão deve ser uma vitória , uma conquista , um esforço pessoal para evitar o excesso de barulho interno e externo . A solidão é distinta da afirmação de que sou autônomo e independente . Ninguém é completamente autônomo e independente . Somos gregários , tribais , sociais e vivemos em grupos maiores . A percepção da diferença , da chamada alteridade , do contato desafiador com as pessoas é uma chave essencial de crescimento . Apenas na solidão tornada solitude eu consigo um período de mínimo distanciamento para redescobrir quem eu sou e , acima de tudo , quem eu não sou . A advertência psicanalítica com a qual comecei a conclusão deve estar sempre diante de nós : não se trata de achar - se , mas de perder - se.”
“Desconfie de quem se isola sempre . Desconfie ainda mais de quem nunca se isola . Confie pouco em quem vive conectado . Tenha compaixão pelas pessoas que estão tão desesperadas para evitar a solidão que vivem de festa em festa , de post em post , de bar em bar levando seu desespero para beber . Solidão bêbada não ilumina , apenas tropeça e amanhece mais triste na calçada. Solidão ranheta azeda e avessa ao mundo é derrota , e não conquista.”
“quando ligar para alguém e a pessoa em um sábado à noite disser com serenidade : “ Eu estava aqui pensando e lendo tranquilo ” , não se esqueça de lhe dar os parabéns . Aquela pessoa já descobriu a faceta libertadora da solidão tornada amiga e está apta para voltar ao convívio dos outros porque já convive consigo . Se você não se suporta , quem conseguirá fazê - lo?”
Simplesmente não atendeu às minhas expectativas. Acho que o autor se prendeu muito a exemplos e teorias da maior erudição possível, fazendo do livro, na minha opinião, extremamente impessoal e até mesmo chato. 🤷
Resenha do livro: O dilema do porco-espinho: Como encarar a solidão
Para começar, é importante afirmar que não se trata de um livro de autoajuda. Leandro Karnal, autor da obra, professor e historiador de formação, ao perceber a própria e evidente solidão (ou solitude?), decide escrever este livro, com a intenção de ‘conversar’ com o interlocutor sobre como esse sentimento vem se modificando e como é interpretado por diversos momentos históricos. Karnal também alega que, a todo momento, grande parte da sociedade humana possui necessidade de estar ao lado de alguém, mas depois de um certo tempo (variando de segundos a anos), a ânsia por uma certa privação social, desabrocha. Daí vem o título do livro: o dilema do porco-espinho. Tal animal precisa de calor em estações mais frias, porém, ao manter contato com seus similares, se machuca por conta dos espinhos e se afasta para não se espetar novamente. Todavia continua necessitado do calor dos outros. O livro conta com seis capítulos que tratam dos mais diversos temas, apresentando, obviamente, a solidão como protagonista. O autor se esforça, utilizando muitas referências, para que o interlocutor tenha a percepção que existem inúmeras formas de solidão, variando de solidões obrigatórias (castigos religiosos e punições por meio de leis) até prazerosas (ler um livro, descansar e meditar). Em muitos momentos do livro, Karnal se direciona ao leitor, evidentemente com o objetivo de transformar a experiência literária em uma conversa leve, mas inteligente. Com isso, presencia-se vários temas em que certamente quaisquer que ler tal livro se identificará. Comparações com o mundo contemporâneo, utilizando as redes sociais, filmes e séries são bem presentes no livro. Mas não deixa de lado o tom erudito, sempre se referenciando a obras como pinturas e até mesmo esculturas. A provocação de certas atitudes humanas é constante. Críticas ao passado, no qual as mulheres raramente tinham voz para qualquer tipo de atividade: percebemos como a relação solidão-mulher era tratado como tabu na antiguidade, tendo que estar casada logo cedo para ser considerada ‘feliz e realizada’. Outras análises são feitas, como a solidão de idosos no mundo todo nos dias atuais e o aumento da depressão por causa das redes sociais. Karnal viaja pelo tema, apresentando diversas histórias e curiosidades no livro, como a de Santo Antão e sua necessidade de se tornar solitário. Muitas dessas histórias incentivam o leitor a desenvolver uma bagagem cultural. O livro não segue uma ordem cronológica de eventos históricos, por conta disso, alguns temas aparecem e reaparecem durante a leitura. Cabe de cada leitor decidir se isso é bom ou ruim. Muitas são as referências utilizadas, criando uma sensação de repetição em alguns capítulos. Em contrapartida, o conhecimento ganho com tal experiência literária é magnífico. Em vários momentos, o interlocutor se sentirá provocado (de uma forma boa) pelo autor, e, dessa maneira, pode-se rever certos conceitos além da solidão.
Avaliação pessoal: 3.5/5.0 Bom. Recomendo a leitura.
Eu tive sentimentos mistos (dá pra falar isso em português?) a respeito desse. O subtítulo diz ‘como lidar com a solidão’ mas não é muito prático nesse sentido, talvez seja meramente comercial, mesmo. Tá mais pra um ensaio sobre a solidão através da história humana.
O livro, de menos de 200 páginas, parte da metáfora de Schopenhauer, que o intitula, a respeito do assunto, e segue mostrando como inúmeras obras das religiões, literatura e das artes plásticas representaram e estruturaram suas concepções a respeito dela.
Linguagem bem acessível, mas senti que em alguns momentos o Karnal divagou excessivamente, apesar de não se perder de fato. Além disso, se o livro traz formas de se lidar com a solidão, isso acaba sendo muito mais mérito do leitor do que do autor em si, já que este se deu mais ao trabalho de resumir outras obras do que as reflexões que o subtítulo propõe. Porém as divagações são uma viagem muito interessante (com spoilers de muitos clássicos) a obras que marcaram a Humanidade.
No fim, é uma leitura riquíssima mas não indispensável. O famoso “bom, mas não memorável”.
A nota do livro nao reflete o que acho do trabalho do Carnal, que eh excelente, diga-se de passagem. Simplesmente achei que o livro deixou a desejar porque a maior parte dele se passa analizando como a solidao se manifesta historias religiosas e\ou na arte.
Nao acho que ficar paginas e paginas discutindo sobre o fato de que “os maiores profetas estavam sozinho no deserto quando encontraram seus respectivos Deuses”, seja muito relevante pra minha vida. O primeiro e o ultimo capitulo sao razoaveis, mas o resto, nao muito…
Eu gostei. Tem muitas referências de artes, filmes, fatos históricos oriundos de sentimentos de solidão.
Alguns spoilers de o velho e o mar, moby dick, conde de monte cristo, dom quixote, lord jim, robinson crusoé, cem anos de solidão, hamlet e macbeth pode ser incômodos para quem se incomoda.
Legal ter uma visão atual de como a humanidade tem enfrentado a solidão. Estudo vasto, pesquisa precisa, trabalho bem feito. No entanto, o tema é forte. Recomendo preparo para quem for ler. Tem uns “tapas na cara” bem dados em relação ao comportamento humano. Deixa claro a solidão de si.
Leandro Karnal é muito bom e escreve muito bem, mas eu não acho que o livro entrega o que promete. O autor passa o livro todo analisando a solidão na história, dedicando um capítulo inteiro à Jesus, por exemplo, e analisando a solidão na arte. Porém, o tópico "como encarar a solidão" do título só é abordado no capítulo final. Para quem realmente está interessado sobre como de fato encarar a solidão, eu não recomendo. Como livro que analisa a solidão na literatura, pintura e bíblia, sim.
A ideia principal é curiosa, principalmente em tempos de quarentena. O 1o capítulo e interessante e instigante, o suficiente pra chegar ao final do livro e tentar ir mais profundo na ideia. No entanto, do 2o capítulo em diante o tempo passa apenas com exemplos superficiais que comprovam um ponto que nunca chegou a ser 100% desenvolvido.
O livro aborda de forma profunda e multifacetada a experiência da solidão na vida humana, usando a metáfora do porco-espinho proposta por Arthur Schopenhauer para refletir sobre o paradoxo entre o desejo de proximidade e a dor do afastamento. Karnal explora como esse dilema se manifesta na sociedade contemporânea, destacando a crescente preocupação social com a solidão, considerada uma epidemia, especialmente entre idosos e pessoas isoladas nas grandes cidades.
Para Karnal, a solidão vai além da ausência de companhia; ela é uma condição que permeia a vida moderna, muitas vezes superficial, que pode ser tanto um fardo quanto uma oportunidade de introspecção. Ele traz exemplos de obras literárias, como as de Clarice Lispector e Robinson Crusoé, que veem a solidão como espaço de reflexão, criatividade e autoconhecimento, contrapondo-se à sua representação negativa na cultura popular, como em filmes que retratam personagens perigosos ou psicologicamente deteriorados.
O autor revisita a narrativa bíblica do Gênesis, destacando que Deus criou Eva para acompanhar Adão, sugerindo que a solidão não é uma condição natural ou desejável para o ser humano. Ele também cita Charles Darwin, que ponderou sobre o casamento como uma resposta à solidão, refletindo sobre a tensão entre liberdade individual e necessidade de conexão. A tradição monástica, com figuras como Santo Antão e São Jerônimo, é apresentada como exemplo de busca por Deus através do retiro e do isolamento, que podem ser tanto uma via de purificação quanto de autoconfronto.
Karnal analisa o impacto das tecnologias e das redes sociais na experiência da solidão. Apesar da hiperconectividade, muitos se sentem mais solitários, pois as relações virtuais tendem a ser superficiais e efêmeras. Ele destaca o paradoxo de que, mesmo com a possibilidade de contato instantâneo, a sensação de pertencimento genuíno diminui. Gerações mais jovens, que cresceram na internet, muitas vezes não diferenciam amizades virtuais de reais, aumentando a profundidade do sentimento de isolamento. Referências a pensadores como Zygmunt Bauman reforçam a ideia de que as relações atuais se tornaram mais fluidas, muitas vezes efêmeras, e que a superficialidade das interações prejudica a formação de vínculos profundos.
Karnal sugere que a solidão, quando bem aproveitada, é uma oportunidade de autoconhecimento, criatividade e resistência. Ele cita exemplos de figuras históricas e religiosas — como Moisés, Jesus e Maomé — que encontraram na solitude um momento de reflexão, revelando que o isolamento pode ser uma fonte de propósito e clareza. A prática de momentos de silêncio e introspecção, além de atividades como leitura e meditação, são apresentadas como meios de cultivar uma relação saudável com a solidão.
A obra enfatiza que a literatura e as artes retratam a solidão em suas múltiplas facetas, desde personagens como Hamlet, Ulisses, Emily Dickinson e Van Gogh, até obras cinematográficas como *Na Natureza Selvagem* ou *Ela*. Essas narrativas revelam a solidão como espaço de criação, mas também de dor e sofrimento. A arte, segundo Karnal, muitas vezes nasce do isolamento, sendo um reflexo das emoções mais profundas que emergem na solitude.
O autor destaca a preocupação crescente com o isolamento dos idosos, que, muitas vezes, vivem em condições de solidão profunda, agravada pela desconexão familiar e social. Ele aborda como a sociedade contemporânea, ao tratar a morte e o envelhecimento com silêncio ou negligência, acentua o sentimento de abandono. A Organização Mundial da Saúde já aponta a solidão como fator de risco à saúde, superando até problemas tradicionais, como tabagismo e obesidade. Nesse contexto, Karnal sugere a importância de relações autênticas e de políticas sociais que promovam inclusão e cuidado aos mais velhos.
O livro também analisa a solidão imposta por sistemas de punição, como a prisão solitária, que causa danos psicológicos severos. O exílio social — seja em contextos históricos ou atuais — é considerado uma forma de marginalização que reforça a dor da solidão, destacando a necessidade de reconhecer a experiência do outro com empatia. Karnal aponta que a sociedade muitas vezes responde à solidão com isolamento, ao invés de buscar conexões humanas reais que possam promover cura e crescimento.
Por fim, o autor reflete sobre como a solidão, quando encarada com consciência, pode ser uma oportunidade de autoconhecimento, de fortalecimento emocional e de maior compreensão do outro. Ele cita exemplos de líderes religiosos, filósofos e artistas que encontraram na solitude uma fonte de sabedoria. Para Karnal, é fundamental aprender a administrar a diferença, o silêncio e a reflexão, resistindo às tentações do consumo e das distrações vazias que a cultura moderna oferece. Assim, a solidão saudável se torna um espaço de liberdade, criatividade e autenticidade, capaz de contribuir para uma vida mais plena e equilibrada.
O Dilema do Porco-Espinho nos convida a repensar o significado da solidão, reconhecendo-a não apenas como fonte de dor, mas também como uma oportunidade de autodescoberta, crescimento espiritual e resistência. Karnal reforça a importância de equilibrar momentos de isolamento com as relações humanas autênticas, promovendo uma visão mais madura e compassiva sobre essa condição universal.