Nenhuma imagem de capa, de entre aquelas que conheço, consegue reflectir a densidade e o negrume deste texto. Li-o depois de ver Raiva, filme de Sérgio Tréfaut que adapta livremente o livro de Manuel da Fonseca e se, ao início, o filme ocupava todo o meu espaço de representação mental, um e outro começaram lentamente a mesclar-se. Não obstante, imaginei o resto do livro naquele sublime preto-e-branco a lembrar O cavalo de Turim, de Béla Tarr. Libertei-me com isso do exercício de comparar o que tinha passado para o grande ecrã com o que ficara no texto. São corpos independentes, claro está, e talvez Raiva fosse até um melhor título para o livro. A exploração que fazem das personagens e dos ambientes é praticamente a mesma e as questões que levantam também. A dada altura apenas notei que o livro me fazia sentir de forma mais aguda a sensação de perda e de desesperança em que Palma (representado no filme por um serpense a quem tiro o chapéu, Hugo Bentes) se encerra. Mas deixemos o filme, que me parece bastante bom (mesmo se a crítica o penalizou por certos planos mais desgarrados), e um momento alto da cinematografia recente sobre o Alentejo e não só. Esta é a história de muita gente pobre, apesar do trabalho que lhes ocupava a maior parte dos dias, e que suportou o conluio de ricos e autoridades civis para os manter quedos e calados. É inevitavelmente a história de gentes da minha família, pese embora as diferenças no lado mais extremo deste caso, onde a raiva de tantos irrompe no seio de uma família a quem o acaso e maldade de alguns levaram à miséria. Não há aqui um Alentejo imaginado, idílico, que muitos acreditam existir ainda hoje. Também não é um rol de lamentações ou uma apologia das agruras desta terra. É, sim, a denúncia das desigualdades e do abuso de uma forma mesquinha de ser, de uma certa mentalidade que vigorou até pelo menos 1974 e que alguns querem ainda hoje fazer ressurgir. Para quem pense que um romance passado por estas bandas tem sempre de descrever belas e acolhedoras paisagens, homens cantando no trabalho e mulheres ceifando, bem se pode enganar. Seara de Vento não é nada disso. É um romance perfeito.