Não sendo para todos os gostos, na minha opinião este livro apresenta como ponto de interesse a provável profundidade de possíveis interpretações e sensações com que nos termina porque acho que nós terminamos exatamente com o personagem principal: o que realmente isto significa? Pois bem, com a duplacidade de um personagem que se desdobra em dois ghost-writers, trilhamos com interesse a existência de uma pessoa entre o Brasil e a Hungria.
Sem uma estrutura cronologicamente organizada, este livro é todo ele uma sucessão de ideias e de recordações de um escritor que parece nunca se encontrar a si mesmo. No entanto, sem mostras de procurar atribuir-se um significado existencial, este ghost-writer apresenta uma capacidade absoluta de explorar literariamente a beleza existencial a partir da pele de outras pessoas. Fazendo uma adequação a um excerto da obra podemos dizer que para a duplacidade do personagem escritor, “Não me aborrecia caminhar assim num mapa, talvez porque sempre tive a vaga sensação de ser eu também o mapa de uma pessoa.”.
Da minha parte fica a impressão que com a dupla faceta de ghost-writer, no Brasil identificamos a prosa de um personagem afeto à vida real, isto é, de um escritor competente e criativo mas não sonhador que, como ghost-writter, escreve teses, discursos políticos, autobiografias, etc., procurando assim alcançar mais daqueles sobre quem escreve do que de si próprio enquanto escritor; já na Hungria, a outra faceta do ghost-writer revela-se à descoberta de novas habilidades onde o seu ímpeto criador é autêntico e parece realmente se realizar como escritor através da poesia, ou seja, nesta faceta o ghost-writer vive uma vida mais sonhada e, embora “vítima” do seu próprio ofício na reta final da obra, sente o que ao longo da narrativa deste livro desde sempre pareceu desejar sentir como pessoa que é um escritor: o reconhecimento sentimental e artístico da sua obra por parte da mulher amada. Por esta mesma razão, recorrendo a outro excerto da obra, para este escritor fica a ideia de que, de facto, “Fora da Hungria não há vida” pois é neste país que, embora assente numa mentira, se sente realmente considerado.
Não achando um desassossêgo literário, na minha opinião este é um livro suficientemente justificado para ser lido.