Antes de mais nada, este é um livro DIVERTIDO. É Jô Soares, um sujeito com mais de meio século de carreira, contando os bastidores e os causos da sua fase de maior sucesso na carreira: o seu período desde a entrada na TV Globo. E ele tem história pra contar, dele e (muitas vezes) dos outros. Não li o primeiro volume; a fase de Jô Soares que me interessa é a de líder de audiência.
Algumas das melhores histórias são dos outros, aliás. Passei quase uma hora dando risada da história do locutor que pediu dicas aos ouvintes sobre onde devia passar as férias. A maneira como o médico e comediante Max Nunes diagnosticava cálculo renal também já entrou para o meu repertório. Jô reserva comentários carinhosos a seus colegas de trabalho de todos os tempos, do mestre Otto Lara Resende ao garçom e à assistente doméstica tristemente morta num acidente.
Ocorre que Jô vai e volta no tempo, conforme os causos relacionados aparecem em seu fluxo de consciência. Há capítulos que começam nos anos 60 e saltam para os anos 80. Os causos são bons, mas às vezes esse fluxo da consciência parece perder o foco. Senti falta de mais detalhes do "business" dos bastidores, mas tudo bem - o livro foi feito para um público mais geral, e para esse público esses detalhes possivelmente soam enfadonhos. As tretas de camarim são boas.
No tocante ao seu programa de entrevistas, apresentado primeiro no SBT e depois na Globo, também senti falta de algo mais robusto, com o perdão do trocadilho. O programa tem uma importante história a contar. Foi o maior vendedor de livros e discos do Brasil. Ouviu os principais personagens da história recente do Brasil - fora muitos anônimos interessantes e alguns micos. O livro conta alguns causos e estatísticas sobre o programa, mas ainda assim falta um pouco mais de bastidor. Imagino a complexa costura para trazer muitos dos entrevistados, por exemplo. O processo de dizer não a tantos outros também devia ser curioso. Deve ficar para a autobiografia da Diléa Frate, suponho, se um dia for sair.
E, poxa, o Jô não revelou o que tinha na caneca.
Em vários trechos, ele se socorre de livros de memórias de amigos e ex-amigos seus, como as autobiografias de Walter Clark ("O Campeão de Audiência") e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho ("O Livro do Boni"). Claro, geralmente os trechos lhe são favoráveis, e com razão. Mas acho interessante. Minha crítica do parágrafo acima, aliás, se aplica ao livro de Walter Clark; o de Boni já comprei, mas não li.
O tom deste livro é de bate-papo no bar. As páginas passam voando. Nunca tive o prazer de tomar um uísque ou uma caneca de água com Jô Soares, mas pelo menos uma vez servi uma generosa taça de vinho para beber enquanto ouvia os causos.