No início deste terceiro volume da Tetralogia Lusitana assistimos ao rapto dos jovens Marta e João Carlos, seguido pelos não menos surpreendentes acontecimentos que revolucionaram a sociedade portuguesa desde o domingo de Páscoa de mil novecentos e setenta e quatro ao domingo de Páscoa do ano seguinte. Ao longo desse ano eufórico para muitos, assustador para alguns, as personagens de A Paixão e Cortes dispersam-se dentro e fora do país e, antes da existência de telemóveis e e-mails, comunicam sobretudo por cartas entre si. O que dá a esta agitada narrativa, ora dramática ora divertida, um tom de paródia a certos romances do século XVIII, epistolares e libertinos.
ALMEIDA FARIA nasceu em Montemor-o-Novo, a 6 de Maio de 1943. Em Lisboa frequentou as Faculdades de Direito e de Letras, sendo licenciado em Filosofia, e é actualmente professor de Estética na Universidade Nova de Lisboa. Viveu como escritor residente (1968-69) nos Estados Unidos (International Writing Program, Iowa City) e em Berlim, onde fez parte do Berliner Künstlerprogram no qual participaram, entre outros, Gombrowicz, Michel Butor, Peter Handke e Mario Vargas Llosa. Tem colaborado em diversas publicações colectivas, nomeadamente em revistas alemãs, brasileiras, francesas, holandesas, italianas, suecas e norte-americanas. Os seus romances foram objecto de várias teses universitárias em Itália, Holanda, Brasil, França e, mais recentemente, também em Portugal. Em 1979 seleccionou e traduziu Poemas Políticos de Hans Magnus Enzensberger.
Ficcionista e ensaísta, Almeida Faria obteve o Prémio Revelação de Romance da Sociedade Portuguesa de Escritores com o livro Rumor Branco (1962), confirmando depois a sua maturidade literária com A Paixão (1965), primeiro romance de uma «Tetralogia Lusitana» de que fazem parte Cortes (1978) – Prémio Aquilino Ribeiro da Academia das Ciências de Lisboa, Lusitânia (1980) – Prémio Dom Dinis da Fundação da Casa de Mateus, e Cavaleiro Andante (1983) Prémio Originais de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas.
Almeida Faria publicou ainda o conto Os Passeios do Sonhador Solitário (1982) e o ensaio Do Poeta-Pintor ao Pintor-Poeta (1988). O seu último romance, O Conquistador, foi dado à estampa em 1990. Em 1997 adaptou ao teatro o romance A Paixão, sob o título Vozes da Paixão (1998), peça que não pretende ser subsidiária do romance, até por ter sido escrita em verso livre. Nesse mesmo ano, foi estreada em Lisboa no Centro Cultural de Belém. Em 1999, na colecção "Caminho de Abril", publicou a peça intitulada A Reviravolta.
“Lusitânia” (1980) é terceiro volume da Tetralogia Lusitana - A Paixão (1965), Cortes (1978), Lusitânia (1980) e Cavaleiro Andante (1983) – sendo por isso um romance que continua a saga familiar de uma família burguesa, proprietária de um latifúndio, no Alentejo. Neste volume assistimos ao “rapto” dos jovens Marta e João Carlos, seguido pelos não menos surpreendentes acontecimentos que revolucionaram a sociedade portuguesa desde o domingo de Páscoa de 1974 ao domingo de Páscoa do ano seguinte. Neste pequeno, mas intenso livro, assistimos ao quotidiano desta família, neste momento histórico, numa prosa cuidada com rico cunho poético. Entre a “euforia” e o “susto”, as diferentes personagens desta família comunicam entre si através de cartas. Estamos perante um romance epistolar que nos apresenta uma narrativa agitada, por vezes divertida, outras vezes dramática, em que as personagens evocam o seu estado de espírito, os seus pensamentos sobre a “revolução”, mas sobretudo as suas dúvidas e angústias perante o processo político e as suas consequências. Um dos elementos fundamentais da reflexão que o livro nos vai dando é a tensa relação de Portugal com o seu passado, mas também com o seu futuro. Esta reflexão é muitas vezes construída num modelo algo ensaístico da escrita de Almeida Faria, outras vezes numa tentativa de paródia que vai arrancando alguns sorrisos ao leitor. Pessoalmente, considero este livro, e a tetralogia de que faz parte, das mais inventivas e questionadoras obras da literatura portuguesa entre o final do Estado Novo e o início do Portugal democrático. É, por isso mesmo, uma obra que aconselho aos amantes da literatura portuguesa. PJV
O terceiro livro da Tetralogia Lusitana, publicado em 1980, continua a narrar a saga da mesma família latifundiária alentejana.
A família está dispersa e a comunicação faz-se através de cartas, fazendo desta narrativa uma espécie de romance epistolar. A acção decorre entre 14 de Abril de 1974 e o final de Março de 1975.
Temos então o ambiente estimulante e enebriado da revolução e do 1° de Maio de 1974, mas também o ambiente incerto e inconstante que se seguiu. Há neste livro um certo tom crítico e de um leve gozo relativamente a esta época, um sentimento de desilusão e de algum cepticismo quanto à capacidade de evolução do país.
Uma escrita muito rica em simbolismos e uma história em que as personagens de ficção surgem muito bem integradas nestes ainda recentes acontecimentos da História de Portugal.
Seguirei em breve para a leitura do quarto livro da tetralogia.