"Delfina é uma mulher bonita, «uma negra daquelas que os brancos gostam». A história de vida desta Delfina, «dos contrates, dos conflitos, das confusões e contradições», é a história da mulher africana, a história da apocalíptica perda do sonho. Esta mulher debate-se entre «escolher o caminho do sofrimento», o amor que sente por José dos Montes, e «eliminar a sua raça para ganhar a liberdade», procurando o homem branco que lhe dará o alimento e o conforto que deseja. Mas o que é o amor para a mulher negra?"
Apesar de ter sido a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Paulina Chiziane considera-se uma contadora de estórias e não romancista. Como ela própria diz "escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.”
E foi isso mesmo que eu senti em grande parte do livro, parecia que a escritora estava ali ao meu lado a contar-me as histórias de Maria das Dores, Delfina e José dos Montes. A cadência e o ritmo das histórias contadas e da tradição oral estão muito presentes nos livros da moçambicana.
O Alegre Canto da Perdiz narra a história de três gerações e fala-nos de temas impactantes que colocam o dedo na ferida, como a escravatura, o racismo, o colonialismo português, a miscigenação, o ser-se ou querer ser-se assimilado, a poligamia, o corpo como moeda de troca, a prostituição infantil, o sofrimento, a ambição e o poder. Fala sobre o colonialismo do pensamento e da cultura, sobre a ideia do “melhoramento da raça”, que levava mulheres negras a buscarem ter filhos com brancos como meio de ascensão social. Fala-nos também de amor, maternidade e sentimento de pertença, ensinando-nos que "a beleza do mundo é a diversidade, todas as raças, de todo o mundo, porque somos todos filhos do sol".
Paulina Chiziane escreve maravilhosamente bem, conseguindo transportar-nos para África através do poder da palavra. Conta histórias dentro de histórias num universo cheio de personagens que se cruzam e que estão interligadas. A escrita é envolvente, muito bonita, poética, íntima e doce, recorrendo frequentemente ao misticismo e à imaginação e a leitura fluiu naturalmente.
Apesar de ter gostado do livro, não gostei do desfecho. Acho que houve demasiadas coincidências improváveis, com uma resolução mágica para todo o sofrimento, o que torna o final da história inverossímil. Pareceu-me um final algo preguiçoso, como se quisesse dar esperança, mas não soubesse como chegar lá, tendo optado pelo lado mais fácil.
"Ah, minha mãe, eis-me aqui à beira do caminho. Ao lado do vento amigo. Na margem de um rio desconhecido. Perseguida por mulheres tristes. Naqueles gritos ouvi também o teu grito, minha mãe. Mãe, estavas naquele grupo? Por que será que não te vi? Eras tu, sim, naquele grupo de fantasmas, lançavam zumbidos nos meus ouvidos como um enxame de vespas. Eras tu e o teu grupo de fantasmas, querendo atingir-me, magoar-me, escondidas para desferiram sobre mim os seus golpes de raiva, mas não conseguiram, eu fui protegida pelas águas. Porque sou filha da água. Será que estou nua, mãe? A nudez que elas viam não é minha, é a delas. Dizem que não vejo nada e enganam-se. Cegas são elas. Gritam sobre mim a sua própria desgraça e me chamam louca. Mas loucas são elas, prisioneiras, cobertas de mil peças de roupa como cascas de uma cebola. Com o calor que faz."
"Quem sou eu? Uma estátua de barro, no meio da chuva. Odeio as roupas que me limitam o voo. Odeio as paredes das casas que não me deixam escutar a música do vento. Eu sou a Maria das Dores. Aquela que desafia a vida e a morte a busca do seu tesouro. Eu sou a Maria das Dores, e sei que o choro de uma mulher tem a força de uma nascente. Sei com quantos passos de mulher se percorre o perímetro do mundo. Com quantas dores se faz uma vida, com quantos espinhos se faz uma ferida. Mas não tenho nome. Nem sombra. Nem existência. Sou uma borboleta incolor, disforme. Das palavras conheço as injúrias, e dos gestos, as agressões. Tenho o coração quebrado. O silêncio e a solidão me habitam. Eu sou a Maria das Dores, aquela que ninguém vê."
"O jovem médico recorda. No passado, os empregos obedeciam às hierarquias raciais. A memória da mulher encalhou como uma nau na areia do tempo. Não sabe que a guerra acabou, os brancos partiram e se mudou a bandeira."
"A escultura mais bela pode trazer no peito um ninho de vespas. O melhor seio nem sempre é o mais belo, mas o que produz bom leite."