"Por que mulheres têm tantas queixas na esfera do amor? De se sentirem não amadas, de não receberem tanto afeto quanto gostariam ou sentem que oferecem e, um fato que sempre me encucou, simplesmente por estarem sozinhas? Por que quando não têm alguém se sentem ?encalhadas?? Porque mulheres que são mães carregam tanta culpa? E as que não são, por que se sentem na obrigação de estarem disponíveis a cuidar dos demais? E, de outro lado, por que os homens, diferentemente das mulheres, se preocupam-se tanto com o seu desempenho no trabalho e na vida sexual? Por que certas experiências, como, por exemplo, o desemprego, a aposentadoria ou a impotência, são tão ameaçadoras para eles enquanto homens?" Essas são as questões que, nas palavras da Prof .a Dr.a Valeska Zanello, nortearam a escrita deste livro. Como ela mesma ressalta: ""Um ponto então se delineou claramente para mim: o sofrimento apresenta-se de forma gendrada. Em culturas sexistas, como o Brasil, tornar-se pessoa é tornar-se homem ou mulher, em um binarismo que ainda estamos longe de desconstruir. Assim, como conceber categorias analíticas que nos amparem a pensar, a escutar e a intervir clinicamente levando em consideração as especificidades de gênero? Quais são os mecanismos que moldam esses processos de subjetivação? E que pedagogias afetivas são utilizadas?".
Se eu tivesse que indicar um livro contemporâneo sobre gênero hoje é este que eu indicaria. Trabalhamos ele no grupo de leitura feminista do qual participo nos últimos dois meses. Tremendo trabalho de pesquisa condensado em 300 páginas de puro deleite. Deleite para o masoquista porque sobra tapa na cara para todo mundo. Rá! Zanello vai fundo nas relações de gênero e, para mim, foi particularmente revelador entender os dispositivos que regem as mulheres que amam o amor, quer dizer, passei a vida inteira não entendo minhas amigas sendo subjugadas por homens que não valiam nada e agora entendo que essas mulheres tem o amor como fator identitário e são subjetivadas nisso a partir de performance de gênero. Como não binária e arromantica não me identifico particularmente com o gendramento da performance feminina colocada no livro, mas sei muito bem que a maioria das mulheres ao meu redor cabe nessa caixinha de viver em função de um relacionamento amoroso ou maternal e é muito bom aprender sobre como esses dispositivos funcionam para essas mulheres e como os homens subjetivam de forma diferente. Freud já cantava essa bola, mas nunca escreveu de forma tão clara e precisa quanto Zanello, para não dizer que Freud errou feio e rude nos pingos dos is. O que fica é que homens ou mulheres, interessados ou não em psicologia e gênero: LEIAM ESSE LIVRO.
Não consigo expressar a relevância desse conteúdo! Como estudante de psicologia termino essa leitura com a certeza de que deveria ser bibliografia obrigatória para todos aqueles que almejam trabalhar com cuidado e saude mental.
Um dos livros mais interessantes que li recentemente. Amei como ela articula a ideia de dispositivos de Foucault ao processo de subjetivação gendrada. Me fez refletir sobre tantas experiências minhas, assim como me ajudou a compreender melhor a vivência dos (indivíduos subjetivados como) homens, desmistificando-os de alguma forma. Acredito que esse livro contribua enormemente para a construção de um debate político feminista sério e espero que ele seja cada vez mais divulgado. Fico feliz que algo tão relevante e interessante tenha sido produzido no Instituto de Psicologia da UnB e que eu possa fazer parte disso como discente :)
Em “Saúde Mental, gênero e dispositivos”, a doutora em Psicologia Valeska Zanello (professora adjunta do Departamento de Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília) faz análises extremamente didáticas sobre como questões de gênero impactam os processos de subjetivação. Assim, a pesquisadora discute questões culturais, sociais e históricas que se relacionam a esse processo. É um livro riquíssimo que versa sobre os mais diversos estereótipos ligados a questões de feminilidade e masculinidade, também articulando com questões étnico-raciais e de classe. E mesmo que você não seja da área da Psicologia ou da Psicanálise, ele é de fácil leitura. Eu adoro e recomendo. Já li umas 3 vezes, sendo que sempre volto nele para utilizar como fonte nas minhas produções. Atual, interessantíssimo e extremamente necessário.
O livro é muito interessante como divulgação científica sobre várias questões que permeiam os estudos de gênero no Brasil, como o conceito de "prateleira do amor" da autora, o desenvolvimento dos estudos sobre masculinidade no Brasil, entre outros temas. No entanto, eu senti falta de referências mais embasadas para trabalhar questões interseccionais de gênero, achei muito superficial como os temas são trabalhados quando queremos entender seu impacto entre mulheres negras, e fiquei preocupada da forma como a homossexualidade é situada. Também não há qualquer menção a mulheres trans e como elas são impactadas pelos dispositivos que a autora propõe a apresentar. Enfim, uma boa proposta, mas com uma metodologia bem questionável. Levei meses para ler porque, como pesquisadora, me acionou vários gatilhos sobre a invisibilidade que ainda cerca meu lugar como sujeito na Academia.
acho que pensei e falei tanto, mas tanto desse livro que esgotei e cansei de organizar minhas impressões, principalmente escrever sobre elas. enquanto lia, comecei a escrever uma resenha, que abandonei. então não tenho nada, só isso: é uma leitura esclarecedora. mulheres que se relacionam com mulheres não são o foco aqui, aparecem apenas como um parênteses, assim como mulheres não-brancas, embora a autora se esforce mais pra incluir a experiência desse segundo grupo. não acho que foi suficiente, e essas são minhas principais críticas. demais impressões vcs verão no meu projeto de mestrado hipotético .
Todas essas discussões são extremamente pertinentes. A análise que Valeska Zanello traz é uma excelente compreensão do universo binarista em que somos criados, e todo o sofrimento psíquico que essas expectativas de gênero trazem, especialmente quando há um esforço do indivíduo pra que sejam cumpridas. Uma coisa que me chama a atenção é de que esses processos de subjetivação não são trazidos como algo naturalizado, como muitas supostas feministas tentam distorcer quando falam de socialização, mas sim uma compreensão ampla de uma estrutura opressora, nas quais todos os seres humanos são subjugados.
Acredito que essa pesquisa é obrigatória para todo profissional de saúde mental, excelente ilustrução da construção de gênero no Brasil! Já tinha lido uma coisa ou outra da Valeska e ter aprofundado esse tema foi maravilhoso!
Minha clínica e vivência profissional/pessoal será outra daqui em diante!
Esse livro é essencial para quem busca se aprofundar em estudos de gênero. Através dele é possível perceber as necessidades de saúde específicas e mais, considero aqui o mais importante, como se dá os processos de subjetivação e os dispositivos que permeiam esse caminho.
É um livro muito informativo e esclarecedor das formas gendradas com que homens e mulheres são subjetivados. A linguagem acadêmica pode dificultar o entendimento e a fluidez do texto, mas é uma leitura que vale a pena ser feita e refeita.
Gostei bastante. Para uma leiga como eu foi um choque ver como somos totalmente pré programados. Vale a pena para refletir sobre se nossas motivações são realmente nossas.
Esse é um daquelas livros que você lê e resgata várias e várias experiências passadas, triste crescer e não saber quem você poderia ter sido sn tivesse sido tão sufocada.
5 estrelas pela ousadia! Só o 1o capítulo destoa um pouco do estilo do livro (é um tanto acadêmico demais, exatamente como a autora já avisa em algumas entrevistas). De resto, a leitura flui muito bem.
São expostos, de maneira muito didática, conceitos como os da “prateleira do amor” e dos “dispositivos” (ou vetores de identidade), que seriam, para mulheres o “amoroso” e o “materno” e, para homens, o da “eficácia” (sexual e laborativa). Um tema polêmico tratado de maneira interessante e (em várias cenas) muito divertida. Me fez pensar e rir sobre muitos aspectos da cultura brasileira. Adorei!!
3,5 acho uma leitura interessante para o atendimento de mulheres na clínica, mas como algumas já falaram, senti falta da interseccionalidade, especialmente com mulheres trans, que mal foram nomeadas no livro