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"This short but profoundly moving novel by the young Brazilian writer is one of the finest explorations of love you will find anywhere this year."—John Freeman, The Boston Globe
After a falling out, Cora and Julia reunite for a long-planned road trip through Brazil. As they drive from town to town, the complications of their friendship resurface. By the end of the trip, they must decide what the future holds, in a queer, coming-of-age debut novel that has been celebrated in Brazil.
196 pages, Kindle Edition
First published October 7, 2013
[…] o que você quer é rodar pelas pistas livres da madrugada sem jamais chegar a um ponto B. Ou melhor, seu ponto B é um álbum a ser escutado na íntegra, seu ponto B é o lago que você olha enquanto fuma, com todos os amigos que puderam caber no banco de trás. O estranho é que conservar esses hábitos depois do prazo de validade fará com que eles pareçam, aos olhos dos outros, um mero rastro de excentricidade de alguém que não soube crescer.
Fomos interrompidas por uma série de três batidas na minha janela. Olhei e reconheci o cara das bombachas. Ele era a única pessoa que havia sobrado de todo aquele burburinho do início, além de dois funcionários usando quepes típicos de quem manobra carros, mas que sem dúvida pareciam remeter a outra coisa, talvez a dois garotos fantasiados para um baile de Carnaval da Sociedade Amigos de Tramandaí. Baixei o vidro.
“Essas tuas botas são de homem”, ele disse, apontando para dentro do carro, o dedo indo e voltando duas vezes. Pela sua expressão, minhas botas pareciam ter acabado com o seu dia.
Um tanto chocada, olhei para meus próprios pés a fim de conferir o que era mesmo que eu usava, e eram meus coturnos Doc Martens, pelos quais eu havia pagado uma pequena fortuna em uma loja da marca em Paris. Aquele par de sapatos tinha um pequeno altar reservado em quase todos os movimentos da contracultura, mas era demais esperar que tal carga simbólica penetrasse na carcaça cansada de quem no máximo tinha visto coturnos protegendo os pés dos policiais militares que atiram balas de borracha em tendas do MST. Este é o problema da moda: você depende dos outros. Se eles não entenderem a mensagem, todos os seus esforços vão por água abaixo.
O que mais me incomodava, na verdade, era não saber exatamente o que Julia pensava a respeito. Está certo que ela tinha descarregado sua raiva depois de o carro partir (“Não acredito que ele bateu na janela só pra dar uma opinião sobre as tuas botas!”). Está certo que tinha deixado claro que eu não devia ligar para as palavras de um desconhecido (“Que sotaque era aquele, meu Deus!”) e que, além disso, ela pensava muito diferente (“Eu adorei as tuas botas”). Mas aquele excesso de manifestações acabava surtindo o efeito contrário, o de aumentar minha desconfiança.
Dois cavaletes cravados no cascalho (“Experimente!”) não deixavam dúvidas de que ali eles também serviam almoço, lanches, e que para levar havia queijo, salame, mel, cartões telefônicos, pilhas. “Simpático”, Julia falou. Eu pessoalmente acreditava que estabelecimentos comerciais que têm de tudo um pouco estão sempre passando um atestado de que não conseguiram prosperar em nenhum ramo específico, mas, ainda assim, tive que concordar.
Julia começou a preencher o cadastro com uma letra cuidadosa. De vez em quando, ela levantava a cabeça e sorria para a senhorinha. A velha, por sua vez, ia seguindo com os olhos as minhas andanças pela sala, como se as coisas estivessem ali não para ser vistas de muito perto, mas apenas em uma panorâmica apressada.
Parece que a desvantagem de crescer no interior é que todo mundo pode estar conversando sobre você ou sobre seus pais em todas as salas de jantar iluminadas em um raio de três quilômetros.
Ao redor da praça, algumas edificações não estavam ajudando em nada na vaga sensação de início do século XX que outras, tombadas, restauradas, tentavam inutilmente criar. Por exemplo, uma lotérica, ou três andares de vidro espelhado ou a cena bíblica e brilhante ao lado da igreja matriz. De maneira geral, eu tinha a impressão de que, tão logo a situação econômica permitia, as famílias de Antônio Prado, supostamente orgulhosas das suas origens, colocavam tudo abaixo e corriam para a loja mais próxima de materiais de construção, selecionando os piores tipos de revestimento sob a crença de que eles eram muito mais modernos e práticos.
Chamavam-se Campos de Cima da Serra, por onde haviam andado no século XVIII os tropeiros e suas mulas contrabandeadas do Uruguai. Depois de passar um trabalho daqueles por meses e meses em um país que mal tinha nascido, ataque de índios, fome, doença, tempestade, eles chegavam ao centro do Brasil e vendiam mulas a preço de ouro. Mula era o quê, mesmo? O cruzamento entre um burro e uma égua. Uma dessas, naquele tempo, podia valer algo próximo de quarenta vacas, porque elas eram peça essencial na mineração, lá nos cantos de Minas Gerais. Tudo isso o peão tinha contado a Julia enquanto eu estava ocupada com alguma coisa.
O curioso era que eu não tinha conhecido um mísero membro da família dela. Embora seu pai fosse com frequência a Porto Alegre, supostamente a negócios, nós jamais havíamos sido apresentados um ao outro. Em algumas dessas ocasiões, tive certeza inclusive de que Julia fazia o possível para evitar esse encontro, como quem manda um embora pela porta de trás para receber outro pela da frente.
Às vezes era preciso convencê-las de que elas queriam ficar comigo. Estou dizendo isso porque não era incomum que eu me apaixonasse por uma garota heterossexual. Talvez tenha sido este o meu maior erro: eu nunca me conformei com o fato de não poder desejar qualquer uma, mas sim preferencialmente as que se encontravam entre as quatro paredes de um lugar dito gay. Pelo amor de Deus, eu queria me apaixonar na rua e poder contar com um pingo de chance. Não ter medo de me envolver com alguém que, no dia seguinte, pudesse acordar arrependido. Mas acabei sendo o lapso de muitas pessoas. A fase superada de outras tantas. Minha atração pelo sexo feminino era uma doce aventura e, ao mesmo tempo, uma condenação ao mais claustrofóbico dos universos.
Eu me lembro, era maio. Como sempre em maio, o inverno tinha se apropriado das noites para ensaiar um pouco.
[…] com o salário de vigia ele criava dois meninos, cujas fotografias saíam da carteira quando as conversas ficavam compridas.
Eu via no meu pai um rebelde, um lutador, alguém que não se acomodava, não senhor, e aquilo me protegeu, durante anos e anos, de um baque muito maior. Então vieram suas namoradas. Mas isso não era um problema, porque elas não duravam nadinha. A palavra namorada já continha em si, aliás, a transitoriedade de todas aquelas mulheres. A primeira. A segunda. A terceira. Você vai se acostumando. A quarta. Para que decorar nomes? Escolha um e acrescente números romanos. A quinta. A sexta. Nada mau para um homem de quarenta e seis. A sétima. Puxa, você foi rápido com essa. A oitava. A oitava. A oitava.
A porta da casa de tijolos rangeu.
“Boa tarde”, alguém disse.
Olhei. Havia um homem parado ali. Ele deu um passo para fora, como se se deixasse examinar. Era um desses carecas que preferem raspar a cabeça a parecer de algum modo incompletos, cerca de quarenta anos, pele bastante queimada de sol.
Fazendo contorcionismos para que a cinza comprida do seu cigarro não caísse no chão, Fany, a gerente do hotel, nos guiou por salas enormes ornadas com um mobiliário pesado e orgulhoso […]
Não era um daqueles dias que começam atravessados. Visitamos o museu Dom Diogo de Souza, que até o fim dos anos 90 havia abrigado um fragmento da Lua, presente de Nixon para Médici.