Sónia Louro nasceu em 1976 em França. Desde cedo apaixonada pelas Ciências e pela Literatura, acabou por optar academicamente pela primeira, mas nunca abandonou a sua outra paixão. Licenciou-se em Biologia Marinha, mas não perdeu de vista a Literatura, à qual veio depois a aliar a um outro interesse: a História.
“Falhámos a vida, menino! -Creio que sim…Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela que se planeou com a imaginação. Diz-se: `vou ser assim, porque a beleza está em ser assim´. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado. Às vezes melhor, mas sempre diferente.” (in Os Maias)
Eça de Queirós é um dos grandes nomes da literatura portuguesa. Mas quem na verdade conhece o homem por trás dele, Fradique Mendes? O dândi, apreciador de Balzac, Hugo, Zola, com os melhores cortes de roupa da moda, capaz de se expressar de forma autónoma e semi-heterónimo de Eça. Já se dizia n´Os Maias, falhamos sempre a vida que imaginamos. Eça também falhou aquilo que tinha imaginado para si e vivia um pouco à margem de si mesmo.
Filho ilegítimo, resultado de uma união que só viria a ser reconhecida muito depois de ter nascido, cresceu longe dos pais, junto do seu avô (cujos traços se traduzem em Afonso da Maia) no Verdemilho, passou a infância no Colégio da Lapa onde conheceria os Resende e Ramalho Órtigão, estudaria Direito em Coimbra. É na capital do conhecimento que conhece muitos dos membros do que viria a ser o Cenáculo, sob a liderança do grande Mestre Antero de Quental, que escreveria a carta do Bom Senso na questão Coimbrã.
Este grupo estaria na vanguarda na nova literatura que surgiria em Portugal, o Realismo, e muitos dos seus membros seriam parte dos Vencidos da Vida, que pelo nome já dizem tudo. Vencidos não no que aparentam ( riqueza, estatuto ) mas em ter aquilo que imaginavam para si.
Eça, como todos os grandes escritores, era verde quando iniciou a escrita. Começou com contos estranhos, fantasistas, povoados de cadáveres. Batalha Reis, um dos seus maiores admiradores e amigos, viria sempre a apoiá-lo e promover a sua escrita, mas a escrita de José Maria não viria a ser bem recebida pelo público durante algum tempo.
Enveredou pelo jornalismo, em Évora, passou pela municipalidade, em Leiria, para obter o exame de cônsul. É nestas duas cidades que também retira ideias para “Capital” e “Crime do Padre Amaro”. O primeiro não viria a ser publicado, visto que Eça tanto retratou os seus amigos do Cenáculo e o seu lado mais defeituoso em Artur. O “Crime do Padre Amaro” seria o filho de Eça, o seu preferido, onde carrega as suas frustrações da sua legitimidade de nascimento. “Primo Basílio” viria a ser o favorito do público e o mais vendido.
Numa viagem ao canal do Suez, com Luís Resende, Eça começaria o seu estilo de escrita mais realista, passando a abraçar a realidade do que via. Enquanto cônsul, vai a Havana e, desesperado com a situação miserável dos colonos asiáticos, promove a causa dos seus direitos e escreve “O Mandarim”. Inicialmente uma ideia de crónicas de cenas românticas, demoraria 10 anos a escrever a sua obra mestre, “Os Maias” , depois de tantos atropelos de editoras, dinheiro e inspiração para escrever.
Na questão feminina, Eça foi um mulherengo toda a vida mas quis, um dia, assentar. Conheceu duas mulheres a quem viria a pedir casamento e foram inspiração do conto “Singularidades de uma Rapariga Loira”. Contudo, o destino esperava-lhe melhor. Viria a casar, depois dos 40 anos, com Emília Resende, e teria 4 filhos com ela. Viveria o seu sonho dissimulado de ter um consulado em Paris, mas a cidade já não era a menina dos olhos dele, que ele tão bem conhecia.
Os últimos anos pontuavam-se pela nostalgia, pelo medo de morrer, e já não poder ver os filhos crescer ☹ Escreveria “A ilustre Casa de Ramires” e não chegaria a terminar "Cidades e Serras”, de onde viria a buscar a inspiração de Jacinto a um amigo excêntrico seu e a Tormes, no vale do Douro, herança dos Resende.
Eça morreu em 16 de Agosto de 1900. O seu corpo será transladado para o Panteão em Setembro. Eça permanece vivo não só no seu legado literário, mas também nas personagens que criou e que deixou tantos traços seus… Artur, Carlos da Maia, Carlos Fradique Mendes.
Sónia Louro está de parabéns pela extensiva pesquisa e capacidade de prender o leitor pelo seu estilo, biografia romanceada. Ficou a faltar ter desenvolvido melhor a ideia do Fradique Mendes.
Li em 2015 o livro O Cônsul Desobediente (http://o-prazer-das-coisas.blogspot.c...) e adorei, sendo que quando vi esta novidade fiquei logo curiosa e com as expectativas em alta. No entanto, li alguns comentários ao livro que me deixaram de pé-atrás e me fizeram baixar as expectativas.
Fradique Mendes é uma das personagens criadas por Eça e que acaba quase por se tornar um heterónimo do escritor, e que nos vai contando a vida desse grande autor português. Não fazia ideia que Eça tinha tirado direito e chegou mesmo a exercer como advogado. E foi também cônsul em Havana, Inglaterra e até na França. Foi uma leitura interessante pois Eça teve uma vida muito interessante, no entanto, senti muitas dificuldades em envolver-me na leitura, sem ter a sensação de "entrar dentro do livro". Não foi por isso uma leitura tão fluída como eu gostaria.
Vejam a minha opinião mais detalhada em vídeo, AQUI.
Este foi o livro que menos gostei de ler da Sónia Louro. No entanto, gostei de saber mais sobre a vida deste génio da escrita que foi Eça de Queiroz. Não podia deixar de partilhar uma passagem dos Maias que me chamou à atenção para fechar esta review: “Falhámos a vida, menino! -Creio que sim…Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela que se planeou com a imaginação. Diz-se: `vou ser assim, porque a beleza está em ser assim´. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado. Às vezes melhor, mas sempre diferente.”
Uma arriscada incursão no mundo maravilhoso de Eça de Queiroz. Muito bem escrito, Sónia Louro tem aqui sem dúvida, para mim, o melhor livro da sua autoria. A ler com prazer.
Gostei muito deste livro. Seguindo as peripécias literárias de Eça de Queiroz, temos também um vislumbre da sua vida pessoal e das suas inquietações. Denso mas de leitura absorvente.