Novo romance de Dulce Maria Cardoso, sete anos depois do estrondoso sucesso de O Retorno, o livro que pôs Portugal a falar pela primeira vez sobre os retornados, o maior tabu da sua história recente.
Eliete é um romance construído em torno da protagonista homónima, e é o seu mundo que Dulce Maria Cardoso apresenta agora aos leitores. Estar a meio da vida é como estar a meio de uma ponte suspensa, qualquer brisa a balança. A vida da Eliete vai a meio e, como se isso não bastasse, aproxima-se um vendaval.
Mas este é ainda o tempo que será recordado como sendo já terrivelmente estranho, apesar de ninguém dar conta disso. Porque tudo parece normal. Deus está ausente ou em trabalhos clandestinos. De tempos a tempos, a Pátria acorda em erupções festivas, mas lá se vai diluindo. E a Família?
"O tempo era tanto mais lento quanto eu vivesse dentro dele e não no futuro ou no passado. Quanto mais presa ao presente, mais lento o tempo passava, mais feliz eu era. A tarde quente lá fora, nós os quatro, o Jorge, as miúdas e eu, quase nus sobre a cama desfeita, os corpos em ninhada sonolenta, pela janela entreaberta a aragem trazia arrepios e farrapos sonoros de coisas aladas, pássaros, vozes, insetos, músicas. Nesse tempo, nessa casa, houve alturas em que o tempo parou, parou mesmo, alturas em que fui imortal, eu cheguei a ser imortal. Ser feliz de forma plena era a maneira de experimentar a imortalidade. Mas sendo a felicidade provisória, era mortal, a imortalidade. […] Todas as famílias, as felizes e as infelizes, tinham segredos, todas as famílias sabiam que a verdade devia ser desprezada como qualquer outra minudência que amesquinhe a vida."
Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.
Aquele já está mais para lá do que para cá, disse a mamã (...). Mais para lá. Lá, como se a morte fosse um continente onde estavam os dinossauros e os mamutes.
Uma mulher banal, frustrada, mal-amada, desajustada, acomodada, infeliz, quase patética em certos momentos, mas que brilha e cativa nas mãos hábeis de Dulce Maria Cardoso, que lhe dá uma vida interior desconcertante e uma lucidez perturbadora. Desde as referências temporais e culturais de Eliete, que são também as minhas, até aos pontos em que as nossas vidas se tocam ainda que em circunstâncias diferentes, impressiona-me a forma como a autora vai quase longe de mais na sua crueza, parando mesmo no limite, sem resvalar para a gratuitidade e o mau gosto. Tal como em “A Carne” de Rosa Montero, há certas partes que me causam algum desconforto, mas acho importante e necessário que se fale do desejo feminino, sobretudo em mulheres mais maduras, sem pudor nem falsos moralismos. Dulce Maria Cardoso continua no meu pódio.
Eder, o patinho feio marcou, Ederzito, natural de Bissau e trazido para Portugal aos três anos, criado num orfanato de Braga e noutro de Coimbra,(...) um entre os milhões dos deixados para trás aquando do desmantelamento do grandioso império dos livros de História.
1/3 inicial de pura rendição 1/3 intermédio de isto que me desinteressa, está a estragar a Eliete e é excessivo, deve durar pouco até voltar a ser como no início 1/3 final de eu agora já estou incapaz de me privar de saber o que acontece à Eliete mas aquele 1/3 inicial é que foi mesmo
Que livro! Adorei a Eliete! Nunca tinha lido nada desta escritora mas agora quero ler outros livros, além da continuação deste. O que acontecerá a Eliete e à sua vida normal?
Dulce Maria Cardoso sabe mesmo como contar uma história. Prende-nos do princípio ao fim, usando uma linguagem do dia a dia, sem pudores, e falando de temas tão atuais como a sexualidade, a maternidade, a amizade, a demência e até o futebol. Eliete é um espelho dos tempos modernos e dos problemas que ele encerra.
É engraçado como esperamos sempre que os personagens dos livros sejam pessoas especiais de alguma forma. Que tenham algo muito bom ou muito mau, ou características marcantes que os tornam merecedores de uma história. O que achei interessante na Eliete foi o facto de ser uma pessoa completamente banal, arrisco-me até a dizer desinteressante. Isso faz com que tudo o que vai acontecedo ao longo da segunda parte do livro seja ainda mais inesperado.
Hoje foi o dia em que terminei a Eliete e o dia em que conheci a Dulce Maria Cardoso.
Há dias que parecem que foram criados para fazer poesia, com melodias ritmadas que nos trazem conforto. Ouvi, hoje mesmo, a Dulce dizer que vive constantemente no futuro, a viver dias muito felizes já atormentada pela nostalgia que não tardará a chegar ao reviver aqueles momentos. Revejo-me nestas palavras e sei que este dia fará parte dessas recordações felizes e nostálgicas.
Ler a Eliete foi uma espécie de batalha que travei comigo própria, levantou o véu de vários temas que me atormentam, desde envelhecer a sentir que não quero uma vida mediana para a sociedade, quero viver uma vida feliz para mim. Quero muito não ser vítima do conforto e da monotonia e preocupa-me que tudo isso chegue, e nem dê conta.
A escrita da Dulce é arrebatadora, traz-nos clareza, lucidez e apresenta-nos as trivialidades da vida de uma forma harmoniosa. É um livro que vive dos preconceitos da sociedade, das amarras que nos prendem ao que devemos pensar e ser, do paradoxo de uma vida normal, é um livro que nos traz mais para nós, para dentro, e ao mesmo tempo nos leva para fora, para quem nos rodeia.
Não sei o que a minha vida normal me reserva, mas tenho a certeza que quero minha biblioteca pessoal recheada de todos os livros da Dulce Maria Cardoso.
Este é o segundo livro da Dulce Mª Cardoso que leio, e apesar de ter gostado bastante mais d'O Retorno, é impossível não reconhecer o enorme talento desta autora, que consegue pegar numa personagem banal, com uma vida igual a tantas outras, e construir uma história tão boa.
Neste livro fala-se de temas tão diversos como as redes sociais e a maneira como podem influir nas nossas vidas, a solidão, o envelhecimento e a sexualidade, sem quaisquer rodeios, por vezes de forma bastante crua, mas sem cair na vulgaridade.
Soube-me bem ler sobre sítios por onde andei em tempos que já lá vão, músicas, séries, e todo um ambiente que me soou familiar, pelo facto de a juventude desta Eliete coincidir temporalmente, mais coisa menos coisa, com a minha. Só não gostei muito do fim, um tanto previsível e um pouco forçado.
Atrevo-me a dizer que há muito tempo que não lia um livro tão bom. É o primeiro livro que leio da autora e fiquei presa às páginas desde o primeiro momento. Dulce Maria Cardoso é uma hábil contadora de histórias e afinal a vida normal tem muito que se lhe diga. Aguardo com grande expectativa a parte 2.
A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".
O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.
Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.
É o primeiro livro que leio da autora e que ótimo começo! A Eliete parece uma mulher na casa dos 40 igual a tantas outras. Acredito que existam mulheres em situações semelhantes mas Dulce Maria Cardoso não deixa que a Eliete seja uma mulher comum. A forma como descreve o seu dia-a-dia, a vida familiar e profissional dá-lhe um toque especial. A Eliete pode ser qualquer uma de nós e eu já adoro a Eliete. Quero muito continuar a seguir a sua história.
Para quase todos nós, a vida cingir-se-á quase sempre a um rol de banalidades mais ou menos esperadas, numa vida sem grande coisa que a distinga das restantes que se lhe assemelham. Mas será alguma vez possível contentarmo-nos, a longo prazo, com uma vida vulgar? Com um trabalho que nos dê satisfação mediana e no qual não vejamos grande valor para a sociedade? Com um casamento mediano com alguém que, como nós, possui uma série de defeitos? Com um dia-a-dia mediano, em recorrentes trajectos de casa para o trabalho, para fazer compras e cuidar dos filhos?
Depois do enorme sucesso literário de O Retorno, romance de 2011 sobre um jovem retornado que regressava de Luanda à metrópole, Dulce Maria Cardoso regressa agora (após um livro infanto-juvenil e outro de contos), com a sua nova ficção, "Eliete – A Vida Normal", ainda pelas mãos da Tinta-da-China.
"Eliete" é precisamente sobre aquilo que o título e subtítulo indicam: uma mulher de 42 anos, de nome Eliete, que leva uma vida vagamente normal, sem grandes ambições. É agente imobiliária, casada e com duas filhas, e vive nos arredores de Cascais. Não interessa que as suas relações familiares se vão deteriorando, Eliete vê os anos a avançar e vai aceitando a vida que leva sem grandes entraves, nunca se questionando mais que o indispensável.
É quando Portugal joga a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016 contra a França e Éder marca o golo da vitória, no entanto, que Eliete se apercebe verdadeiramente da sua condição de solidão. Mesmo perante a euforia generalizada, nada sente, incapaz de se conectar com aqueles que, à sua volta, se excedem nos festejos: com o seu marido Jorge que se embebeda e adormece no chão da sala, com a sua avó cuja demência aumenta a passos largos, com a sua melhor amiga Milena que só falava no seu mais recente parceiro amoroso, ou com as filhas, uma de Erasmus em Itália e a outra reservada nos seus problemas adolescentes.
A percepção dessa solidão e do descontentamento que tem com a vida levam-na, então, a tomar todo um rol de decisões: a principal das quais é aderir ao Tinder e, sobre o perfil falso de uma tal de Mónica, com fotos que Eliete rouba ao perfil de uma australiana que encontra no Facebook e acha vagamente parecida consigo, começar a aumentar a sua auto-estima com aquilo que lhe vai sendo dito pelos homens com quem vai estabelecendo, primeiro, conversas virtuais e, mais tarde, encontros.
A narrativa vai, então, sendo subjugada àquele que é, afinal, o grande foco de Dulce Maria Cardoso neste livro – o mundo da Internet – e, quanto mais o livro avança, mais o gás e a frescura se perdem, e sucedendo-se as páginas em que discorre sobre o modo como este está a condicionar a vida actual.
Se, por um lado, é refrescante falar de problemas não tão abordados na ficção contemporânea quanto prevalentes na sociedade, as reflexões que a autora faz não são capazes de acrescentar muito mais ao já expectável. O constante olhar para o telemóvel, que faz ignorar o que está à volta, a constante vigia das contas de Instagram da filha e do Facebook do marido, que vai trocando em comentários em público com outras mulheres, mas sobretudo o Tinder, sobre o qual páginas e páginas discorrem, numa descrição exaustiva da utilização de Eliete desta aplicação de encontros românticos, nunca vão além das conclusões relativamente fáceis de tirar acerca dos mesmos. O Tinder é como um jogo, e o carácter dissimulador que nele se tem serve para ilustrar a solidão e a forma como se esconde entre as aparências que se dão aos outros, desde as fotografias da vida perfeita que não se tem, às personagens que se criam, mas acaba por não servir para muito mais. Eliete quer romper com a sua vida normal, mas a forma como o faz acaba também ela por ser perfeitamente normal.
No entanto, o capítulo inicial é realmente bom, e é isso que torna tudo agridoce. Tudo parece encadeado para um grande romance quando tomamos contacto com esta personagem que nos vai discorrendo sobre a sua infância, a sua relação com a mãe e a avó, a forma como morreu o seu pai, o incidente da avó que sai de casa em direcção ao centro de Cascais para lá cair, aquilo que tanto mãe como filha sentem no hospital perante a nova realidade do estado da avó. Mas tanto a urgência como a pungência desse capítulo inicial se vão perdendo ao longo dos restantes, e a preocupação do livro em ser contemporâneo fá-lo simplesmente ceder perante as expectativas criadas nesse início. Talvez mais interessante que a relação de Eliete com o marido, as filhas e as redes sociais, seria sobretudo a relação dela com as duas mulheres duras da sua família – mãe e avó, que se odeiam mutuamente -, com quem Eliete sempre teve dificuldades de conexão. Talvez, mais do que os novos problemas de conexão provenientes das redes sociais, o interesse se mantenha naqueles que sempre cá estiveram e, afinal, estes novos obstáculos à conexão (que existem) sejam apenas uma forma de arranjarmos um álibi para a nossa incapacidade de resolver os outros, aqueles que por cá se vão arrastando.
Desiludido. Ouvi falar muito da autora, mas todo o livro me pareceu um pouco forçado. Não sei se todos os escritores escrevem a pensar num público ou em alguém, se para se agradarem. Talvez dependa de fazerem isso profissão ou não. Pareceu-me sempre que a autora estava a escrever exclusivamente a pensar em agradar a um público. Também é verdade que, como alguém disse, não vivemos nua época muito interessante para a literatura. Telemóveis, internet, redes sociais, nada disso tem o glamour intemporal das cartas, dos telefones fixos, dos telegramas. Mas há boas narrativas actuais. Parece-me que a autora se fixou muito numa certa dimensão da internet, que até existe, claro, mas que não me interessa muito ver em livro, porque para isso basta-me abrir a internet. E aquela coisa do Éder... nem sei descrever.
Nota-se que a autora tem alguns dotes, é por isso que lhe dou 3 estrelas (e porque ainda usei pouco o GoodReads e não acho isto das estrelas tão importante, é mais uma referência pessoal na lista). Foi a primeira abordagem a Dulce Maria Cardoso e não digo que não a leia novamente, mas vou deixar passar bastante tempo antes de tentar.
Primeiro romance da escritora Dulce Maria Cardoso e confesso que me surpreendeu pela escrita e também pela história.
O romance centra-se na personagem Eliete, uma mulher na casa dos quarenta, casada, com dois filhos, que releva a sua vida banal desde o seu passado até aos dias atuais. Desde a sua difícil relação com a sua mãe, relacionamentos amorosos e a sua adaptação num país lusófono. O livro revela certas questões sobre a sociedade portuguesa, a que identidade nacional pertence…como também preconceitos que é vista pelas duas sociedades (Portuguesa e Brasileira), a solidão que enfrenta e o verdadeiro significado da palavra felicidade.
A escrita foi o ponto alto deste livro, foi uma leitura fluída, sem pudores e sem filtros, que mostra uma grande capacidade tornando a vida de Eliete algo interessante de ler.para quem tem uma vida tão banal. Estou certa que irei ler livros desta autora portuguesa em breve.
P.S. - Muito Obrigada pelo autógrafo que me ofereceu neste livro.
"Eliete, A Vida Normal" é um livro que faz muito jus ao seu subtítulo e que nos apresenta a vida normal e banal de Eliete, uma mulher na casa dos quarenta anos, casada e com duas filhas. Gostei muito do início, das relações filha-mãe-avó-sogra que se vão delineando, e fiquei prontamente rendida, no entanto, senti que algo se foi perdendo com o desenrolar da história... Creio que me iria identificar e gostar mais se o lesse daqui a uns anos! Apesar disso, o final foi surpreendente, de uma forma que não estava à espera e que me despertou curiosidade em ler o próximo volume, que espero que não tarde a ser publicada.
4 * e meia; não 5 por causa de um compasso intermédio, de transição, que menos me impressionou. No conjunto, não desapontou - não sendo demais enfatizar que a fasquia está sempre muito elevada no que respeita a esta escritora-, e é sempre um prazer ler o que Dulce Maria Cardoso faz o favor de partilhar connosco, numa forma sublime e de enganadora simplicidade, com um conteúdo substantivo, profundo, revelador da exímia observadora da vida, perspicaz conhecedora das emoções humanas e da dotadíssima narradora que a autora manifestamente é. Aguardo a segunda parte desta ou outra qualquer história que queira apresentar ao mundo. O importante é que a autora não pare de partilhar connosco o seu enorme talento.
A minha paixão pela escrita de Dulce era tal que este Eliete foi comprado em pré-venda sem pensar duas vezes. O "Retorno" e sua obra máxima "Os meus sentimentos" estão presentes na minha memória, escritos fulgurantes, brilhantes e originais na forma.
E de repente estou nesta telenovela mexicana, com muito Facebook, Tinder, e o memorável título europeu de futebol, com muito Éder profusamente citado.
Mais de uma vez fui ver se não me tinha enganado e se a autora era a Dulce Maria Cardoso.
Foi a minha estreia com a DMC e adorei a escrita. O livro descreve a história de Eliete e da sua vida normal. Não é uma heroína e não é uma vilã. É uma pessoa normal, com uma vida normal e uma família normal. Durante a leitura fiquei espantado com as voltas que o enredo foi acabar por dar e as múltiplas chapadas para a realidade que a DMC nos vai dando.
Vou só deixar aqui um exemplo: "Quando estávamos juntos, passara a ser habitual que as miúdas e o Jorge consultassem o telemóvel, a Internet, o Facebook, o Instagram, que trocassem mensagens enquanto eu estava a falar com eles. A repetida pergunta que lhes fazia no início, Quem é?, teve a maior parte das vezes como resposta, Não conheces, ou expressões de contrariedade que me avisavam de que estava a invadir-lhes a privacidade. Acabei por me calar, e a nossa vivência familiar passou a incluir os fantasmas a que cada um deles tinha acesso e com quem muitas vezes pareciam dar-se melhor ou entreter-se melhor do que comigo.".
Esta foi uma leitura muito mista. Coisas muito desagradáveis ou só aborrecidas intercaladas por coisas bonitas e momentos interessantes. Há muita coisa que me faz comichão por ter sido abordada de uma forma irresponsável, na minha óptica. 2,5 estrelas, na verdade.
A vida normal - a minha, a tua, e provavelmente a de toda uma geração. Uma escrita envolvente que a cada passo nos enreda em reconhecimento e familiaridade.
Gostei. Está muito bem escrito, é inteligente e perspicaz. É um bom retrato da felicidadezinha ou vida medianazinha, como diz DMC. Aborreceram-me algumas descrições que me pareceram demasiado longas, alguns floreados que me soaram excessivos. Vou para a segunda parte a torcer pela Eliete.
Primeiro livro que li da Dulce Maria Cardoso e fiquei rendida. Ouvi-a falar sobre este livro, editado em 2018, numa conversa a que assisti, em que explicou como a incomodava que a literatura contemporânea não acompanhasse a realidade, e um exemplo disso é o facto de que nunca ter lido um livro que referisse os telemóveis e a forma como fazem parte da nossa vida e rotinas. No fundo, acha que a literatura neste aspeto é mais lenta que outras artes como o cinema. Então, neste livro quis explorar como nos relacionamos com as tecnologias e a infelicidade e o tédio que podem causar em nós. E fê-lo com base na sua teoria de que os telemóveis são outro cérebro portátil que nós temos. Acho que conseguiu captar muito bem as múltiplas influências que os telemóveis e as redes sociais (como o Instagram e o Tinder) têm nas nossas relações e isso foi uma das coisas de que mais gostei.
Para além disto, gostei bastante da história, achei que a construção da Eliete é super completa, e identifiquei-me com comportamentos dela e de outras duas personagens femininas. Gostei também que fossem relatados acontecimentos muito atuais que marcaram Portugal. E o que gostei mais foi da escrita, que consegue apanhar muito bem e realisticamente pequenos pormenores do dia a dia e atitudes humanas, e explora bem os pensamentos e emoções. No fundo, facilita muito a nossa compreensão das personagem e a visualização da ação, não sendo uma descrição óbvia, sendo antes certeira, engraçada e bonita.
"Como é que eu podia explicar à mamã que o problema não era dela, mas a deformação que o tempo sofria na casa dela? Eu entrava na casa da mamã e o tempo tornava-se um mecanismo tosco, como se alguém o esculpisse em fisga, eu à mercê dessa fisga, eu munição contra mim mesma, a ser puxada para trás no tempo e depois atirada, desprotegida contra o presente, onde via todos os meus erros e fracassos."
"(...) não importava que o filme tivesse sido sobre um caçador de crocodilos australiano ou sobre uma criatura que vivia numa nave espacial, no regresso a casa a mamã já acreditava novamente no seu sonho, os filmes eram a prova de que a vida se vergava sempre aos sonhos, quando menos se esperava, coisas de nada faziam-nos acontecer. Mais do que os sermões do padre Raul no púlpito da missa de domingo, a mamã reconhecia e fortalecia a sua fé nos sonhos."
"E se podia decidir o que pensar, o que já me parecia duvidoso, era impossível decidir o que sentir, senão sentir não seria sentir, a razão não é um sentido."
"Quando estava com os outros eu nunca era bem eu, por mais próxima que fosse, quando estava com os outros era eu a desempenhar o papel que tacitamente negociara com eles, e os outros quando estavam comigo também não eram bem eles, eram eles no desempenho do papel que tacitamente tinham negociado comigo (...)"
Depois de ter lido "O Retorno", e da euforia da crítica em torno deste novo romance de Dulce Maria Cardoso, foi com expectativa que comecei "Eliete".
Senhora de um poder de observação notável, a autora construiu um enredo muito simples em torno de Eliete, uma mulher nos seus quarentas, e senhora de "uma vida normal", com um casamento e emprego fastidiosos, e medianos problemas e alegrias. Mas há a normalidade ou banalidade, e há a normalidade vista por Dulce Maria Cardoso: é ótimo quando alguém sabe usar as palavras com destreza, e melhor ainda quando o faz inspirada por uma observação atenta do que é isto de viver, e de viver no Portugal democrático.
Assim, a trama em torno da vida de uma desinspirada agente imobiliária leva-nos sem pré-aviso a desconstruir emoções e modos de estar:
"Quando estava com os outros eu nunca era bem eu por mais próxima que fosse, quando estava com os outros era eu a desempenhar o papel que tacitamente negociara com eles (...) e uma vez os papéis definidos as relações passavam a funcionar com senha e contra-senha" (página 277)
E, pelo meio, nada é esquecido: as secretárias a imitar pinho da Moviflor, as rotinas de férias no Algarve, as redes sociais. O ambiente que serve de habitat às personagens está tão bem recriado que se torna difícil não reconhecer pelo menos um pouco de Eliete em todos nós.
Mas porquê as cinco estrelas?
Bom, a bem dizer, já estava a escrever estas linhas quando aumentei a pontuação das quatro para as cinco estrelas. Sim, já o referi: a autora escreve com mestria, e tal como a sua Eliete vive mergulhada na mediania, a escrita de Dulce flutua num patamar de altíssimo nível. No entanto, devo admitir que a parte central do livro, com os seus devaneios em torno do Tinder, não me pareceu brilhante e tão fluida como o resto do livro. A ser justo, a pontuação estará ligeiramente abaixo das minhas 5 estrelas habituais; será um 4,5/5.
Ainda assim, o mundo está cheio de livros "fáceis", em que tudo é ou fica bonito. E depois há quem olhe para um lar de idosos e transforme a pena numa espada: "(...) tanto fazia se se chamavam unidades de equipamentos e serviços de apoio, residências de seniores, casas de repouso geriátricas, pardieiros, lugares onde os velhos ficavam à espera de morrer, sítios que estragavam a palavra lar porque as palavras também se estragavam." (páginas 203 e 204)
Porquê as cinco estrelas? Porque ainda é muito bom haver livros que nos esmurrem!
Eliete - A Vida Normal e há tanto de Eliete em cada uma de nós que vamos encontrar aqui um conforto, a certeza de que não estamos sozinhas nas nossas inseguranças, nas nossas dúvidas, no nosso rame-rame. e até nas nossas memórias. adoro a escrita da Dulce Maria Cardoso (já tinha adorado n’O Retorno) e anseio pela 2a parte, porque agora quero saber onde ela nos vai levar…
juntamente com a Isabel Allende, a Dulce Maria Cardoso é a minha melhor "descoberta" literária deste ano. é apenas o segundo livro dela que leio, mas tenho um pressentimento que gostarei igualmente dos restantes. leio sempre de lápis na mão e não me lembro da última vez em que lhe tinha dado uso.
o fascínio deste livro, pelo menos para mim, reconduz-se ao facto de se tratar do retrato de uma vida normal. acredito que a Eliete personifique muitos de nós, com os seus pensamentos, aqueles que temos vergonha de admitir por culpa.
"deve ter havido um tempo em que a mamã e eu conservávamos uma com a outra sem que a ironia nos entristecesse as palavras, as palavras que dizíamos significavam, então, apenas aquilo que estávamos a dizer, mas isso terá sido num tempo tão distante, que me parecia nunca ter acontecido. agora, eu já não conseguia identificar a origem deste ou daquele hábito que tínhamos criado, a discussão à custa da qual uma regra vingara, que princípios haviam sido revistos para que uma mudança pudesse acontecer, e mesmo que os conseguisse identificar, não conseguiria determinar a importância deles na argamassa de sentimentos que me uniam e desuniam da mamã."
"o meu relacionamento com as coisas era semelhante ao que tinha com as pessoas, um breve convívio despertava logo afeto ou pelo menos posse, e depois não era fácil desfazer-me do que tivesse considerado, ainda que por pouco tempo, meu. não tanto por achar que viria a ter utilidade, mas por não querer que aquilo a que tivera afeto, fora meu ou me servira viesse a estorvar-me o futuro, não queria lamentar perdas precipitadas que mais tarde me assombrassem. arrecadar para depois definitiva e desapaixonadamente arredar. era assim com as pessoas, talvez também assim fosse com as coisas."
“Que chata, mãe, diziam as miúdas quando lhes contava o que existira em determinado sítio antes de elas nascerem. Reviravam os olhos, como eu os revirara quando a mamã contava o que existira antes de eu nascer. Talvez tivesse de ser assim, talvez a sobrevivência da geração seguinte determinasse a necessidade de fazer tábua rasa da anterior e de nada servisse que as gerações passadas se pusessem a contar histórias com que, muito possivelmente, mais do que salvar almas antigas de sítios, queriam salvar-se a si mesmas, histórias que suplicavam, Não nos deixem morrer, nem mesmo quandos os nossos corpos já não existirem."
O relato de uma "vida normal", ou seja, de um quotidiano banal e morno, sem satisfações de maior (e circunstâncias em que muitas vezes me reconheci e calculo que outras mulheres também), é narrado numa linguagem de grande beleza e que denota ternura pela protagonista e suas fragilidades ou fortalezas. Este narrador encantatório é o maior encanto da história de uma Eliete cuja vida tem partes de todas as nossas vidas, mas cujas reações nem sempre são as mais "normais". Continua a fazer-me confusão a designação de "meia-idade" para alguém nos 40, creio que a minha meia-idade se fez mais tarde e de outras formas; ser mãe aos 37 contribuiu talvez para essa sensação, os 40 são os novos 25 e os 50 os 36e meio... Gostei muito do início e da narração da história da família; enfastiaram-me as aventuras inconsequentes de Eliete; gostei da parte final, mas achei o fim propriamente dito um bocado disparatado. Claro que quero ler o que se segue, mas achei aquela carta uma coisa mesmo tola...
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