Vencedor do Prêmio Jabuti 2018 - Livro do Ano Com elementos geográficos, históricos, sociológicos, políticos, físicos, metafísicos, folcloristas, genealógicos, à cidade é um poema que vem apresentar de forma contemporânea uma visão de uma cidade do sertão, com plano de fundo para aquelas banhadas ou mudadas indiretamente pelo caminhar do Rio Acaraú na Zona Norte do estado cearense. O poema mistura a vida do autor e suas gerações à vida construída por um povo migrante há mais de três séculos. Nele a cidade se constrói, se destrói, se remonta, se inventa e reinventa e ganha inúmeras significações do que pode ser. O poema apresenta uma estética com influências de vários movimentos modernos e pós-modernos do século o concretismo, neoconcretismo, rimas incertas, além da ausência de pontuação gráfica, influência vinda da poesia oriental. Os versos misturam a influência científica adquirida pelo autor em livros e bancos universitários e a sua influência coloquial, cabocla, conquistada por ser parte agricultor, parte pescador e por inteiro residente do sertão inventado pelo Acaraú. à cidade vem instigar o leitor à pesquisa, ao conhecer, ao buscar termos, citações sobre o ambiente que tomou por base, o sertão Norte do Ceará, entre o litoral extremo-oeste, a serra da Ibiapaba, a Meruoca e das Matas. à cidade vem assim, apresentar uma faceta do que é ser cearense, aquele/este do interior da cidade.
Como diz o título, este é um breve livro de poemas onde Mailson Furtado tenta render loas à sua terra natal e seus ancestrais, e o faz, a partir de um pastiche francamente risível de tudo aquilo que Drummond, Quintana e sobretudo Gullar já fizeram antes. Porque precisamos de alguém que se parece muito com Ferreira Gullar se a obra do próprio está aí para ser lida? É muito fácil ler essa aversão ao livro de Mailson como uma retaliação à sua inexplicável vitória dos Jabutis de Poesia e Livro do Ano, mas a verdade é que se trata de poesia muito pouco inspirada, quase adolescente em suas imagens e ladainhas sobre o que é a rua, no que consiste uma cidade, a importância de fincar raízes e tantos outros lugares comuns. Não me parece possível nem pensar o livro a partir de um ângulo regionalista, já que esse espaço também não é ocupado de fato pelo texto, travado no meio do caminho entre o mais contemporâneo "verso livre" e algo de musical, vaga memória de glosa sertaneja. Ruim.
Acabei de ler o livro À cidade, de Maílson Furtado, que ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano de 2018. A cidade de Maílson é um ser vivo, é orgânica como uma planta, orgânica como um habitat no qual as ruas são rios, e o poeta vive em simbiose com esse ser, com esta cidade-sertão (ser-tão mais rico do que nossa imaginação o concebe, desenvolvendo-se entre tempos cronológicos e verbais (o poema se divide em quatro partes: Presente; Pretérito; Pretérito Mais-que-perfeito e Futuro do Pretérito). O projeto gráfico está integrado ao livro, com os desenhos do próprio autor e a letra, de cor vermelha, como sangue, revela o fluxo imóvel da própria vida (duvido que esse livro possa ser lido em um e-reader, já que a disposição gráfica das palavras parece ser tão importante para o autor). Isso é tudo o que tenho a elogiar no livro, que se revelou uma grande decepção para mim. É nítida a influência de Ferreira Gullar sobre o autor; em alguns trechos, chega mesmo a parecer Ferreira Gullar. Mas por que alguém quereria ler um autor que parece Ferreira Gullar em um universo em que existe um Ferreira Gullar? O poema é ingênuo e imaturo (sem que isso seja, no caso, uma qualidade), o artesanato da língua é pueril, parecendo um poemeto de um adolescente no início do ensino médio. Como se não bastasse, há muitos erros de português (“é sobre o sol / aquele mesmo do qual Copérnico localizou / o mesmo / pelo qual Galileu quase morreu, na p. 22, “estrupo” na p. 57, ou “e as mulheres que me apaixonei”, na página 53). E o que a editora cobra pela remessa do livro (quase R$ 30,00) é um absurdo. Como pode ter o livro ganhado o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, em 2017, e o Prêmio Jabuti de Poesia em 2018 e, pasmem, o Jabuti Dourado, de livro do ano, nesse mesmo certame? Uma hipótese é que a Câmara Brasileira do Livro quis dar uma lição de moral nos autores brasileiros e sobretudo nas editoras brasileiras (Já que o livro foi editado pelo próprio autor). Outra, é que 2018 foi um ano sofrível para a literatura brasileira. Sinto muito, Maílson: ainda falta muito para você virar um poeta. Ou, talvez, simplesmente, eu não tenha entendido a profundidade e nem visto a beleza do poema...
Vencedor do prêmio Jabuti de 2018, como Livro do Ano, À Cidade é um triunfo do autor independente nacional. É o reconhecimento mais importante já recebido por um escritor autopublicado, em 60 anos do prêmio. Neste novo cenário editorial em que o autor independente é uma realidade, vemos a consagração de um livro modesto, bancado do próprio bolso e com uma pequena tiragem. Trata-se de um longo poema, em homenagem à cidade natal do autor, no interior do Ceará. São versos simples, ora mais elaborados, ora menos, evocativos da realidade do sertão, com suas belezas e mazelas. Não há nada de novo. Mas isso não significa que o livro seja irrelevante. Mostra, com muito vigor, em seus melhores momentos, que o que deveria ser passado ainda é presente, motivo de alegria e de tristeza de quem vive um cotidiano sofrido. Houve muita polêmica quanto à qualidade de obra e ao merecimento do Jabuti. Bobagem. Má-fé. Tanto livro ruim de gente importante já ganhou nossos prêmios literários.
Poesia muito interessante sobre a cidade no sertão nordestino em que o autor vive. Ganhou o prêmio jabuti 2018, mas não sei se era para tanto, principalmente com outros títulos concorrentes, de Pondé, etc. É uma visão bairrista de um canto onde se vive. É uma visão especial, claro, como todo bairrista. Gostei do artigo ao final das poesias.