Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.
- Maria Firmina dos Reis
De Maria Firmina dos Reis, aquela que é considerada a primeira romancista negra do Brasil, já tinha lido e apreciado bastante o conto “A Escrava”. Talvez por ser mais contido e por se centrar no tema do abolicionismo, achei-o mais bem conseguido do que “Úrsula”, que apesar de ser apelidado de primeiro romance abolicionista, é sobretudo um exemplo perfeito da literatura romântica no seu grau mais exacerbado, escrito com muitas interjeições, exclamações e repetições que testaram um pouco a minha paciência.
A vingança, filho, é um prazer amargo, e seu fruto, é o requeimar do remorso em toda a existência, e até o último extremo, até a sepultura! Fernando P. escutou-o; mas em suas veias agitava-se o sangue, que lhe queimava o coração. Rangia os dentes, e os lábios lívidos e trêmulos exprimiam a impaciência e o furor, até que por último prorrompeu irado:
– Mentes, padre maldito! A vossa doutrina não a escutarei nunca. A vingança, desejo-a com ardor, afago-a. Não sabes que é a única esperança que me resta? Amor! Ventura!... Tudo, tudo caiu no abismo... eles o quiseram... oh, não os hei de poupar. O inferno? Haverá pior de que o que trago no coração?! O inferno?! O inferno me restituirá Úrsula pura da nódoa do amor de outrem, porque será lavado no sangue do homem por quem desprezou-me.
O jovem Tadeu sofre um acidente de cavalo, é salvo por um escravo chamado Túlio, que o leva para se restabelecer na casa da moribunda Luísa B., mãe de uma encantadora donzela chamada Úrsula. O que acontece a seguir é fácil de deduzir, e nesta história de amor impossível surgem todos os chavões que se espera: vilões, paralíticas, desmaios, vinganças, fugas, amor à primeira vista e inúmeras mortes, mais do que me lembro de ler noutro livro deste período literário.
Quero que dobre hoje o serão destes marotos. Ah! Esta cáfila de negros, só surrados, e...
– Mas, senhor comendador – interrompeu o feitor com acento apesar seu repreensivo, e indignado –, é já meia-noite, os desgraçados ainda trabalham por cabar o serão, como pois é possível dobrar-se-lhes a tarefa?
– Oh, lá!... – bradou Fernando e sorriu-se com horrível sarcasmo. – Que tal? Quem manda nesta casa?
– Fartai-vos de atrocidades, já que sois um monstro – retrucou fora de si o feitor, fixando-o com um olhar de desprezo, que ele suportou –, banhai-vos no sangue dos vossos semelhantes, juntai crimes horrendos a crimes imperdoáveis; mas não conteis mais doravante comigo para instrumento dessas ações, que revoltam ainda a um coração viciado, e que só no vosso pode achar morada. Desde já contai-me despedido do vosso serviço.
– Miserável! – rugiu Fernando sufocado pela cólera.