Em sua primeira obra inédita depois do sucesso de A elite do atraso, de 2017, Jessé Souza se dedica a compreender a classe média brasileira. Com o mesmo estilo claro e acessível, mas sem fazer concessões à superficialidade, ele agora apresenta uma visão original e inovadora dessa classe fundamental da sociedade.
Em A classe média no espelho, ele desconstrói os maiores mitos que procuram perpetuar o desconhecimento da classe média sobre si mesma. O primeiro é o de que sua definição é determinada exclusivamente pela renda. Jessé vai além das teorias sociais que se baseiam apenas na esfera do dinheiro e do poder em direção a uma análise mais profunda das ideias e dos valores morais dessa parcela da população.
O segundo mito é a concepção cultural do brasileiro "vira-lata", inferior, emotivo e corrupto por natureza – mentiras que a elite e seus intelectuais inventaram para melhor doutrinar e manipular a classe média.
Jessé reconstrói a história dessa classe no mundo e no Brasil, e reflete sobre a posição que ela assume na relação com a elite e as classes populares no país. Assim, ele mostra como é possível compreender as fontes de seu comportamento prático e as origens de seus princípios.
O livro conta com um imenso e rico material, resultado de centenas de entrevistas realizadas com pessoas das mais variadas frações da classe média entre 2015 e 2018, em diversas cidades brasileiras.
O objetivo é criar um espelho no qual as visões de mundo mais características dessa classe social possam ser vistas de um modo novo e desafiador. Não se pede do leitor qualquer conhecimento prévio, apenas coragem para olhar para si mesmo despido de preconceitos – o verdadeiro pressuposto de qualquer aprendizado real.
Jessé José Freire de Souza is a sociologist, university professor and Brazilian researcher who works in the areas of Social Theory, Brazilian Social Thought and theoretical / empirical studies on inequality and social classes in contemporary Brazil. He is the author of the books 'A Ralé Brasileira', A Radiografia do Golpe', 'A Elite do Atraso' and 'A Classe Média no Espelho'.
Graduated in Law from the University of Brasília (1981), he completed his Master's degree in Sociology from the same institution in 1986. In 1991, he obtained a PhD in Sociology from the Karl Ruprecht Universität Heidelberg (Germany), where he obtained free teaching and PhD in the same discipline at the Universität Flensburg in 2006. He also did postdoctoral studies in Sociology at the New School for Social Research, New York, (1994/1995).
From 2009, Souza undertook sociological research across the country to confront the thesis that a "new middle class" had emerged in the country. The result was the configuration of new nomenclature, namely, "ralé", "batalhadores", "classe média" and "elite", the latter two having privileges that the first two do not have.
He wrote and organized 22 books in Portuguese, English and German on political sociology, peripheral modernization theory, and inequality in contemporary Brazil. He is currently a full professor of political science at the Fluminense Federal University, in Niterói, Rio de Janeiro.
On April 2, 2015, he was appointed by the Presidency of the Republic to the position of president of the Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea (Institute of Applied Economic Research), formerly occupied by Sergei Suarez Dillon Soares, but resigned in 2016 shortly after Vice President Michel Temer temporarily took over presidency.
The importance of the scientific production of Jessé de Souza to different fields of study in Brazil, mainly to sociology, is important in the discussion of expensive subjects, both for the political, social, economic and cultural spheres, and for the academy that produces knowledge who aspire to disclose content not given to them.
He is currently writing articles for Carta Capital magazine.
O livro fica melhor do meio pro final. Comecei a ler o livro esperando imparcialidade e preto no branco. Jessé explica os processos de formação da classe média e faz entrevistas (que acredito que foi o que mais achei de legal no livro), porém, página ou outra sinto ironia nas palavras dele e nuances caricatas nas opiniões dele sobre determinados segmentos da classe média. Como não tenho costume de ler esse tipo de leitura, não sei se é bem isso que acontece em livros de análise sociológica ou se ele deixou as opiniões dele bem claras e tendenciosas com toques irônicos e muitas alfinetadas. A leitura é interessante em algumas partes, me abriu os olhos e as portas pra um novo mundo de leitura e visão de mundos. vale conhecê-la, apesar de eu não ter caído de amores.
Provavelmente o livro mais direto e que mais nos incita a uma reflexão a respeito da sociedade brasileiras dos que eu li do Jessé.
Penso se deveria indicá-lo como o primeiro a ser lido do autor, contudo conhecer a base do trabalho de Jessé com A Ralé Brasileira e Batalhadores do Brasil é de suma importância, ainda que essas duas obras sejam mais "densas".
Seja como for, não deixem de conhecer os trabalhos do autor, na ordem que achar mais adequada!
É duro ver que, para a desgraça do próprio país, temos que contar com a classe média para vislumbrar uma possível mudança estrutural em todos os setores da nossa república. É duro ver e entender que a história do Brasil é moldada pela desunião, maldade e opressão em uma escala vertiginosa.
Jessé explora aqui um pouco do que foi visto em A Elite do Atraso, apenas para nos situar. Em seguida, volta arrasador ( como sempre ) indo de forma cirúrgica em pontos nevrálgicos da sociedade pós escravista. A escravidão, aliás, se torna um ponto que o Brasil não superou e talvez demore muito para suplantar esse estigma onipresente em nossa vida. O Brasil vive do mito do “homem cordial “ mesclado com a subjugação do outro como uma forma inconsciente ( ou não, como visto em alguns casos ) de auto afirmação de poder sobre o outro — uma característica vista em adolescentes e talvez seja esta uma analogia indireta da nossa imaturidade como nação. Depois de uma rápido panorama Jessé explora ( partir da metade do livro ) a classe média atual, nua e crua, com entrevistas que nos dão uma ideia (não tão velha, mas ainda assim chocante) daquilo que temos de dominante: uma parcela grande da população que se mostra mesquinha e rancorosa para com as classes inferiores.
Na mão de poucos — são estes os detentores conhecimento — o Brasil historicamente depende da classe média; mas a mesma, desde o movimento tenentista até o impeachment de 2016 ( este usada descaradamente como massa de manobra ) só busca uma revolução para manutenção de poder e perpetração dos estigmas da Casa Grande.
Há diversas formas de se identificar/categorizar a classe média. Jessé Souza recusa a ideia que identifica a classe média a partir da renda. Sustenta que deve ser identificada a partir da “...reprodução de privilégios, sejam eles positivos ou negativos. O problema - prossegue o Autor - é que muitos privilégios positivos, como a posse de conhecimento valorizado - precisamente o tipo de capital monopolizado pela classe média real - são literalmente invisíveis”. A partir de uma análise da gênese da classe média brasileira, Jessé Souza procura compreender as opções políticas que adota (as ideias que dominam seu imaginário). Trata-se de livro em que o Autor expõe de forma sistemática a sua compreensão sobre parcela da sociedade brasileira que funciona como “fiel da balança” no embate travado por diversos projetos nacionais. A parte final da obra, intitulada “Trajetórias de Vida”, contém depoimentos/entrevistas de integrantes de diversos setores da classe média, acompanhados da análise/interpretação do Autor. Uma leitura agradável e instigante, que ajuda a compreender melhor o período em que estamos.
Esse livro apresenta um panorama da complexa totalidade em que o entendemos por classe média se desenvolve. Jessé de Souza utiliza-se de referenciais sociológicos, perpassando pelas questões de classe que tem referência no marxismo e na sociologia da ação simbólica em Weber e Bourdieu. O que, em minha leitura, é possível trazer como se constrói simbólica e materialmente as classes médias, especialmente considerando as particularidades do desenvolvimento do capitalismo num país dependente como o Brasil. Para mim, os exemplos empíricos que ele traz ao fim do livro são de uma riqueza ímpar, ao mostrar essa diversidade desse grupo, mas que apresentam características em comum para além dos referenciais de renda. Ele articula, a meu ver, o histórico, o simbólico e o material, trazendo à tona questões que se desenvolveram no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e na eleição de Jair Bolsonaro. Uma boa leitura para entendermos, para além do que se chama hoje de pós-verdade, os referenciais materiais desse momento do desenvolvimento do capitalismo no Brasil.
Eu não tenho palavras pra descrever, sabe? A construção do conceito de classe média como aquela que detém o conhecimento valioso é real incrível - embora, pareça óbvio.
A questão dos depoimentos também é muito interessante e as críticas sociais dele às vezes são precisas e nos fazem questionar alguns preconceitos que, francamente, vêm impregnados da educação do brasileiro.
Toda essa questão da construção da moralidade da classe média e, posteriormente, da construção do conceito de classe média no Brasil é realmente bem interessante. Assim, como ele explorar a construção de mitos nacionais que suportam essas nossas pré-concepções. De certo modo, abriu muito meus olhos para algumas coisas e, mais especificamente, qual a mecânica que constrói e define a classe média brasileira contemporânea.
E a importância lógica, por sua vez, de conhecer a classe média é que ela se comporta como a fiel da balança: é ela quem elege Haddad ou Bolsonaro. Compreendê-la é essencial para compreender os processos que o Brasil passa hoje.
Bom livro, esmiúça e faz uma bela análise sociológica da classe média desde a sua origem até os dias atuais, passando pelas motivações, tendências, influências. Em certos momentos a opinião pessoal do autor acaba sobressaindo, meio que se intrometendo na análise geral. É um ponto que tira um pouco o brilho, porém os destaques jogam o livro pro alto.
Achei o livro com análises sociológicas pertinentes, mas em muitos trechos o texto é contaminado por uma visão ideológica de esquerda que chega a ser desastrosa, repetindo clichês marxistas sem uma abordagem sensata.
Eu, como um representante da classe média, tive que ler verdades difíceis de engolir em alguns pontos. Li ao mesmo tempo em que fazia uma autocrítica e nesse sentido gostei da obra. Aprendi coisas novas, do ponto de vista da interpretação histórica sobre o desenvolvimento do mundo capitalista moderno.
Mas como disse anteriormente, o texto todo é permeado por essa visão mais radical da esquerda da qual eu não concordo. Tive a sensação de que o autor, ao desenvolver a obra, estava com raiva da classe média que abandonou o PT no segundo governo Dilma.
Apesar de críticas pertinentes ao mercado e ao sistema capitalista, mas minimizou a corrupção no Estado, a percepção de sociedade sobre si mesma e o sentimento de representantes da classe média.
Eu já li outro livro do Jessé Souza chamado 'A ralé brasileira', onde ele analisa as classes populares no país. Essa sim é um obra que achei fantástica. Também com tendências de uma cosmovisão socialista, mas sem a abordagem raivosa. 'A classe média no espelho' considero bem abaixo.
O livro desnuda o capitalismo financeiro e o acusa do parasita que ele é! Seu título remete à classe média, mas seu conteúdo expõe as fraudes atrás de fraudes que são perpetuadas pela elite rentista, estrangeira e nacional, com o ingênuo apoio da classe média, que age como a guardiã do privilégio imoral. Sua análise é capaz de fazer qualquer pessoa sensata se indignar, e é possível constatar a veracidade do que ele diz, tanto puxando os dados numéricos quanto observando nosso cotidiano e as atualidades.
Chamam o autor de esquerdista, e ele próprio acaba se perdendo em algumas partes do livro nessa dicotomia boba e irreal, mas o considero um nacionalista.
Sua maior falha, a meu ver, é a incapacidade de perceber que essa divisão da sociedade entre esquerda e direita é apenas mais um mecanismo eficaz em controlar e ludibriar o povo e sua soberania. Pegue os discursos dos grandes estadistas da primeira metade do século passado, e duvido que ouvirá eles proferiram essa baboseira de "esquerda" e "direita"! O mundo é muito mais complexo do que isso! Existem muitas cores entre o preto e o branco!
Análise interessantíssima da divisão de classes da sociedade brasileira e como isso influencia todos os aspectos da nossa vida. O autor vai direto ao ponto, desmontando diversos mitos que tomamos como verdade, como o "jeitinho brasileiro", a "democracia racial", entre outros, deixando às claras a natureza violenta, preconceituosa e disfuncional da nossa sociedade. A parte que mais me impressionou foram os depoimentos dos entrevistados com as análises subsequentes, depoimentos esses que não surpreendem pela novidade, mas pelo fato de escancarar os preconceitos e hipocrisia de vários setores da classe média, que no dia-a-dia social são "floreados" e mascarados por diversos mitos e justificativas estapafúrdias, com o intuito de manter seus integrantes "confortáveis" na manutenção da disfuncionalidade da sociedade brasileira.
A forma como o autor traz a teoria que ele construiu a partir de depoimentos, exemplificando cada um dos perfis identificados ao final do livro colocam você na frente do espelho mais incômodo que você já viu.
Ótimo estudo sociológico sobre a classe média brasileira. O surgimento, os pensamentos, as subdivisões, enfim, perfeito para entender o funcionamento deste setor da sociedade brasileira.
“O próprio mecanismo impessoal da valorização do capital financeiro cria as ilusões subjetivas da identificação pessoal e afetiva dos gestores com a lógica de acumulação do capital que representam.”
Um convite a reflexão. Para mim ficou especialmente interessante quando as teorias do autor se materializaram nas trajetórias de vida expostas como exemplo.
Livro fundamental e com analise precisa da classe média, e da sociedade brasileira como um todo. Texto primoroso em seu inicio com uma analise do surgimento da individualidade e a "busca" individuo.
A realidade nua e crua da sociedade brasileira, mostrando quem manda e desmanda, quem acredita que manda e na verdade é só massa de manobra na mão dos pouquíssimos donos do poder.
Um livro "cinco estrelas" não é necessariamente um livro perfeito do ponto de vista de que o leitor concorde e aprecie 100 % do que o autor escreveu. Antes, esse livro é uma leitura essencial e contemporânea que serve de parâmetro para refletirmos não somente sobre a classe média brasileira, mas sobre o Brasil passado e atual como um todo. Pode-se concordar ou discordar de Jessé em graus diferentes, porém com um livro tão bem escrito e afastado do comum hermetismo das classes acadêmicas que adoram adornar sua escrita com termos obscuros e erudição ostensiva para marcar uma posição de distinção e superioridade (algo que ele próprio diz condenar), quem lê o livro irá, pelo menos, respeitar as ideias do autor que são bem fundamentadas e pintam um quadro nítido sobre a classe média e suas variações internas.
A primeira parte do livro é extremamente repetitiva para quem já leu outros livros do autor como elite do atraso e a ralé, mas a segunda metade contendo as entrevistas e a análise crítica do autor são o que tornam essa leitura uma verdadeira joia.