Marcelino da Gama, o Coca-Cola Killer, o filho do "Monstro do Dafundo" é o exemplo perfeito da inutilidade. Imbecil por natureza, possui, no entanto, a arte para se aproveitar do meio em que se movimenta e, acima de tudo, sabe transformar as derrotas em vitórias para, tal como tantos ilustres do Portugal de ontem e de hoje, se elevar nos píncaros da glória e da fama. Coca-Cola Killer é uma sátira divertida e inteligente sobre a hipocrisia e o cinismo, personificados num personagem fascisóide, que se aproveita do 25 de Abril para ascender na sua prezada carreira de diplomata.
António Victorino Goulart de Medeiros e Almeida é um compositor, maestro, pianista e escritor português. Dedica-se esporadicamente a outras actividades, como a realização de programas de televisão sobre música.
É pai das actrizes Maria de Medeiros e Inês de Medeiros e da violinista e compositora Anne Vitorino de Almeida.
O livro é hilariante e ao mesmo tempo sério, por ser tão irónico. O autor tem uma imaginação delirante, a tocar as raias da loucura. A linguagem é propositadamente rebuscada e divertida, mas por vezes torna-se um pouco cansativa de tão assoberbante.
Que António Victorino D´Almeida era músico e compositor já se sabia. Descobrir que sabia fazer música com as palavras foi uma revelação. O seu léxico parece um acordeão com uma pauta colossal. Assim, o que seria um simples livro a preto e branco, torna-se um autêntico “arraial circense” com tamanhas acrobacias das suas engenhosas personagens - pena que a sua música erudita não seja a minha preferida.
A trama é narrada na primeira pessoa por Marcelo da Gama, uma figura com uma auto-estima bem acima da realidade, que se considera um homem “imodesto” e “prestigiado desde a sola dos sapatos à ponta dos cabelos” e retrata a vida de vários "salafrários" na época da revolução dos cravos.
Em suma, um livro excessivamente "sórdido" e "verborreico".
Termino com uma citação exemplificativa: “E quando a megera desceu ao destemperado arrojo de deslizar a movediça mão de acordeonista sob o meu guardanapo, enquanto o Dr. Catita das Neves fazia uma curiosíssima dissertação sobre direito internacional público, a minha indignação atingiu o cume: vomitei…”
Já lá vão mais de vinte e cinco anos que li este livro e ainda é o mais hilariante da minha vida. Nunca tinha rido sonoramente a ler e aqui... parava de ler com dores de abdominais. O maestro António Victorino de Almeida é genial, não escreve de forma fácil e entendo que revire alguns olhos, com os seus delírios. Nunca esquecerei o aquário de lagostas em mayonaise! Comprei-o há dias, de novo, desta vez para oferecer. Sendo hilariante, não é leitura típica de entretenimento e sim um livro que provoca reflexão sobre os absurdos da vida que, todos os dias, aceitamos como normal.
"Mas a confiança fora atingida, órgão vital irrecuperável... O coração cansado vacilava, subitamente esgarçado, como um farrapo que se rasga em dois; o corpo dobrava-se sobre si próprio, rolava, pesado e inerte, no empedrado da rua, as faces engelhadas e pálidas como a alvura dos cabelos finos que lhe caíram sobre os olhos semiabertos..."