Para começar, não se trata de uma biografia daquela que possui, na minha opinião, não a voz mais potente ou mais técnica, mas a que melhor traduz o jazz. Trata-se de uma espécie de elegia a Lady Day, isso sim. A história, escrita por Carlos Sampayo, se passa em 1989, como um flashback ensejado por um jornalista que necessita escrever uma nota sobre os 30 anos da morte da cantora. Por essa razão, o foco da narrativa se situa sobre o imenso sofrimento e incontáveis violências pelas quais Billie Holiday passou. Somente entendendo essa dimensão de sua vida é que somos capazes de nos extasiar com a beleza e o horror, a alegria e a tristeza, a paixão e a solidão… que ela era capaz de insuflar em suas canções.
O traço preto & branco, bastante chapado, de José Muñoz exige atenção do leitor a cada detalhe de cada quadro. Sem isso, não é possível reconhecer outros músicos famosos (como Benny Goodman, Lester Young, Louis Armstrong, Gerry Mulligan, Coleman Hawkins…) ou outras pistas visuais (como os álbuns da cantora). Além disso, algumas canções são citadas no texto, e espera-se que o leitor as conheça para compreender a história.
Em suma: essa graphic novel não é para iniciantes. Iniciantes em graphic novels, iniciantes em jazz, em Billie Holiday. Iniciantes na vida.