Saudados pela crítica como notáveis qualidades do primeiro volume da trilogia sobre Getúlio Vargas, a pesquisa rigorosa e o texto cativante de Lira Neto continuam nesta parte central da saga biográfica esmiuçando a trajetória do líder político responsável pelas mais profundas transformações do Brasil no século XX.
O livro reconstitui os mandatos de Getúlio no Palácio do Catete como chefe do Governo Provisório (1930-4), presidente constitucional (1934-7) e, por fim, ditador (1937-45), bem como os meandros de sua vida privada. A astúcia calculista do gaúcho de São Borja apresenta-se aqui em sua plenitude. Livre das amarras da carcomida Constituição de 1891, Getúlio procurou estabelecer uma agenda nacionalista e estatizante de desenvolvimento socioeconômico enquanto, no plano político, engendrava complicadas maquinações palacianas para manter opositores e apoiadores — entre comunistas e militares, camisas-verdes e sindicalistas — sob a égide de sua autoridade pessoal. A Revolução Constitucionalista de 1932, a “intentona” comunista de 35 e o putsch integralista em maio de 38, fragorosamente derrotados pelo governo, foram os mais sérios desafios à perpetuação de Vargas no Executivo federal. Por outro lado, a eleição indireta e a Constituição de 1934, além do golpe de mão do Estado Novo, simbolizaram os momentos de triunfo inconteste do poder getulista.
No plano externo, a eclosão da Segunda Guerra Mundial marcou a reaproximação do ditador com as potências aliadas e, internamente, a decadência do regime estadonovista. Pressionado pela diplomacia norte-americana e por ataques alemães a embarcações brasileiras, Vargas envolveu o país no conflito europeu motivado por interesses econômicos. Mas a contradição entre lutar pela democracia na Europa e exercer o poder ditatorial no Brasil acabaria minando sua sustentação nos quartéis.
Lira Neto, jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti na categoria biografia, nasceu em Fortaleza em 1963. Radicado em São Paulo, escreveu, entre outros livros, Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (Companhia das Letras, 2009); Maysa: Só numa Multidão de Amores (Globo, 2007), O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar (Globo, 2006) e Castello: A Marcha para a Ditadura (Contexto, 2004).
Lira Neto mantém o vigor e o fôlego da pesquisa feita para o primeiro volume, que, no entanto, exigiu mais dele como pesquisador, já que o período coberto por este segundo volume é bem mais documentado do que a infância de Getúlio no interior do Rio Grande do Sul no século 19.
O centro é Getúlio, claro, mas a cada capítulo fica mais evidente que o autor busca contar uma História dos Motivos do Estado Novo. O que movia e moveu cada personagem que entra em cena. Quem o colocou ali, por que o colocou, o que resultou de sua entrada na História - ou que outro papel teve antes ou viria a ter depois na História.
Uma História de Motivos é muito mais rica do que um encadeamento de fatos. E exige mais do pesquisador, porque motivos - em especial entre políticos - não são evidentes.
A série de Lira Neto deixa, no entanto, de mostrar como se dava o processo de decisão política na gestação dos avanços do Estado Novo. Tampouco mostra o papel de Getúlio na construção dos marcos legais e institucionais que mudaram o perfil econômico, demográfico e social do país. Mostra o Getúlio dos arranjos, de novo, de correlação de forças, mas não aponta como mudou e como se deram as mudanças sob seu governo.
Isto não é uma crítica ao trabalho de Lira Neto. É apenas uma provocação: ainda há o que dizer sobre o Estado Novo.
Segundo livro da biografia de Getúlio Vargas, escrito de modo excepcional e imparcial por Lira Neto. Passamos a conhecer a história por todas as suas nuances, para podermos entender o que realmente aconteceu. E entender o passado nos faz entender melhor a história atual de nosso país. Getúlio surge com suas ambiguidades, melindres e pensamentos de forma real, sem mistificações. Recomendo vivamente a leitura do livro anterior e deste também.
Segundo volume da trilogia de Lira Neto que cobre toda a vida de Getúlio Vargas. Dada a própria natureza dos acontecimentos e do governo, o segundo livro possui um foco mais esparso que o primeiro, mas o trabalho de pesquisa de Neto e de sua equipe continua primoroso.
Nos primeiros meses do governo provisório a desenvoltura de Getúlio em deixar opções políticas em aberto passou a ser confundida com incompetência para tomar decisões. Concordava com os tenentistas no sentido de que constitucionalizar a nação novamente tão rápido seria um retrocesso, pois arriscaria voltar aos moldes incompletos e oligárquicos da primeira república. Os liberais-democráticos da aliança, por sua vez, pressionavam que se realizasse uma nova constituinte o mais rápido possível. Getúlio defendia a constituinte, mas dizendo que só se associaria um estado que fosse condizente com as necessidades do povo brasileiro. Apesar das demoras, os decretos iniciais (como o eleitoral, feito sob pressão pública), já mostravam um foco em prol do povo, uma coisa inédita na república velha, recém-saída da escravatura.
Porém, sua postergação em decidir os rumos não vinha agradando nem os militares, propensos a ditadura, nem os liberais democratas, que começaram a abandonar seus postos do governo desapontados. Tais divergências internas dominaram o período, com atos de violência especialmente em São Paulo, onde mostrou-se impossível agradar os setores insatisfeitos, fossem eles parciais ao governo ou não.
Getúlio defendia uma ditadura social, com maior intervenção estatal em prol de implementar melhorias econômicas e sociais sem ser limitado pelo funcionalismo, resultando numa redução do liberalismo. A intervenção do governo provisório não chegou ao autoritarismo de outros governos mais extremos da época, sendo uma versão mais capitalista, que misturava a propriedade privada com a ideia de uma administração econômica mais robusta. Daí nasceram diversos órgãos federais que buscavam administrar e incentivar diferente tipos de produção. Também pode se observar a criação de cursos técnicos e profissionalizantes, focando em modernização pratica da mão de obra, e a redução do federalismo da primeira republica, trocado pela centralização do poder. Segundo Getúlio, novas eleições atrapalhariam esse processo de saneamento da nação e arriscariam um retrocesso.
Na revolta armada constitucionalista de São Paulo em 1932, Getúlio já tinha escrito um bilhete de suicídio como alternativa para uma situação sem solução, mas com a repressão da revolta, não foi necessário utilizá-lo. Getúlio atribuía a revolta aos oligarcas de antigamente que estavam sedentos por poder, visto que ele já tinha acatado com suas exigências. São Paulo atribuía a revolta ao fervor democrático de estudantes, jornalistas, literários e do povo. Foram 87 dias de conflito pautados por mudanças de lado político onde antigos aliados viraram inimigos e vice-versa. Tudo em menos de dois anos desde a revolução anterior.
A fama de Getúlio vai se recuperando com o fim do conflito (chamado ou de revolução constituinte ou de contrarrevolução, dependendo de que lado se estava). Vemos a elaboração de diversas leis trabalhistas, como organização sindical e limitação da jornada de trabalho em oito horas. A eleição da constituinte se aproxima e Getúlio (discretamente como sempre) planeja se tornar o presidente eleito constitucionalmente. Realiza então uma viagem pelo país para consolidar as forças, e com o pretexto de conhecer o norte Getúlio é apresentado para as deficiências do povo de lá. Até então, sua política de trabalho ficava no operariado urbano, sem atentar ao trabalhador rural. Após diversas manipulações realizadas em torno dos possíveis candidatos à presidência e aprovado o texto da nova constituição, Getúlio se torna o presidente legal com o fim do governo provisório.
Ocorre nova luta violenta armada em manifestação de fascistas (integralistas) e contramanifestação de comunistas (sindicalistas), em São Paulo, e problemas de sindicalistas com a polícia também acontecem no Rio de Janeiro. Getúlio começa a se preocupar com o crescimento dos comunistas, passando a buscar formas mais agressivas de reprimir tais movimentos. Com isso a polícia chega a abandonar as formalidades na repressão, e a censura se fortalece. Getúlio também estreita as relações com a igreja e considera fazer o mesmo com os integralistas para suprimir o fantasma do comunismo, apesar de não confiar no alto escalão integralista e de não ser um homem religioso. Porém, seu pragmatismo sempre impera nas relações.
Entrementes, os militares ficam desagradados com a demora para resolver a questão do reajuste dos vencimentos das forças armadas. Getúlio consegue manipular os envolvidos, acabando por afastar do governo os representantes do movimento de 30, que vinham se tornando inconvenientes por conta de indícios de insubordinação.
No período de 35 dá-se uma insurgência militar fracassada de alguns regimentos. Aumenta a vontade de Getúlio e de alguns generais de aprovar leis contra insurgências, indo contra a constituição com medidas enérgicas para evitar levantes comunistas. Havia, de fato, espiões soviéticos no país, mas a repressão ia além disso, censurando e perseguindo jornalistas, escritores, professores e intelectuais. Órgãos e emendas justificavam a prisão de qualquer pessoa de atividade “potencialmente subversiva”. Foram praticados atos de tortura, com milhares de prisioneiros feitos sem julgamento apropriado.
São impetradas diversas artimanhas políticas por parte do governo para atrasar e cancelar novas candidaturas à presidência, em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e outros estados. Getúlio ou queria se lançar ao poder de novo, ou inserir um candidato de sua escolha, mas ambas as opções por vias ditatoriais, alegando que o momento do país não permitia uma eleição democrática, pois as instituições estavam turbulentas e sob ameaça do comunismo. A política fica mergulhada numa polarização ideológica, e a circulação de um documento falso de um suposto plano comunista de tomada do estado brasileiro (o Plano Cohen) alimenta as chamas para que os militares e Getúlio resolvam restabelecer o estado de guerra no país.
Em 37, Getúlio dá o golpe ditatorial, mas negando internacionalmente que teria aspirações totalitárias. Argumenta que uma ditadura aceleraria o processo evolutivo do Brasil, sem ficar atrelado às falhas da burocracia anterior. Apesar de ter prometido o integralismo fascista como o único partido nacional, Getúlio acaba por extinguir a ação integralista brasileira junto dos outros partidos políticos. O principal argumento era que os males do país advinham das lutas eleitorais da politicagem profissional, e que a nação seria capaz de avançar ao eliminar os intermediários políticos. Em 38 há uma tentativa malsucedida de levante militar integralista no palácio Guanabara. Um reflexo da instabilidade das forças armadas, que continuavam em ameaça de golpe diante do estado que se instalou graças à elas.
No âmbito internacional, o governo busca apoiar os Estados Unidos e o Eixo Fascista simultaneamente durante o período que antecede a guerra. Quando a Alemanha começa sua expansão, Getúlio apoia o fascismo em discurso, e pode-se observar antissemitismo nas políticas nacionais de imigração. O que segue é uma tentativa de apoiar tanto os EUA quanto o Eixo, até que os Estados Unidos declaram guerra depois de Peal Harbor. Relutante e graças à favores americanos, o Brasil então abandona qualquer apoio ao Eixo.
Em 42 Getúlio sofre um acidente de carro, e a comoção popular que se sucede é aproveitada pela máquina de propaganda do Estado Novo. O presidente fica acamado por um longo período, no qual aumentam as tensões da nação com a Alemanha, que derrubava cargueiros brasileiros vindos dos EUA com torpedos de submarino. O Brasil eventualmente declara guerra contra o Eixo, e o estado de guerra permite o prolongamento de Getúlio no poder.
O Estado Novo é marcado por um governo desestabilizado por suas próprias contradições e pela resistência à censura. Trata-se de país que, por exemplo, apoia países democráticos, mas é uma ditadura política em suas ações contra a imprensa. Também observa-se a criação da CLT, que foi um avanço realizado junto da repressão do movimento operário independente e do sindicalismo livre. Em meio a tensões internas e externas, Getúlio buscou limpar o terreno para não lidar com possíveis opositores no processo de abertura democrática do país. Na véspera das eleições, a nomeação de Bejo Vargas para chefe de polícia do Distrito Federal é o estopim que inicia um golpe militar que retira Getúlio do poder. A caserna, sempre um elemento curinga nas revoluções nacionais, trai Getúlio e usurpa o poder. O ex-presidente, no entanto, sai com a promessa de retorno. No vôo para o Rio Grande do Sul, já deposto, diz ao sobrinho Serafim Dornelles:
“Deves ter ouvido dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. Indiscutivelmente, em alguns pontos se assemelham. Por exemplo: eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer aonde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo — e com todas as pedras de volta ao tabuleiro.”
Excelente biografia, mantém o rigor de pesquisa do volume anterior e torna-se uma leitura até mais fluida, pois a quantidade de fatos relevantes é muito maior. Fundamental pra quem quer conhecer mais sobre o líder político mais importante da história do país.
Excelente livro. Fiel aos fatos, imparcial e muito bem escrito. Lira Neto sabe preparar bem o terreno para que, entre histórias alegóricas, aparentemente fúteis, da vida de Getúlio e fatos diretamente ligados a suas ações como presidente, o interesse do leitor cresça exponencialmente.
“Não há amigos tão fortes que não possam se tornar inimigos, nem inimigos tão fortes que não possam se tornar amigos"
A frase acima sintetiza muito bem o tema central da segunda parte da biografia de Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto: como, uma vez alçado ao poder, Getúlio manobrou entre os diversos protagonistas políticos e a opinião pública para se manter a frente do país, ora se apresentando como candidato liberal e democrata, ora como ditador indisfarçado. A narrativa, sempre muito engajante, se estende entre 1930 – 1945 e foca em alguns momentos chave da história nacional: a Revolta Constitucionalista de 1932; a nova Constituição e eleição de 1934; a Intentona Comunista de 1935 e subsequente recrudescimento com decretação do Estado Novo; o putsch Integralista de 1937; a negociação do Brasil com Estados Unidos e o Eixo nas vizinhanças da Segunda Guerra, que confirmaria a participação do Brasil ao lado do primeiro e; a tentativa de redemocratização, controlada por Getúlio, que culminou em sua derrubada do poder em 1945 pelos militares.
O grande destaque do livro para mim foi a narrativa clara de como Getúlio Vargas se aproveitou das circunstâncias para se manter no poder durante um período longo, mas ao mesmo tempo, cheio de mudanças relevantes: aproveitando-se da opinião pública ou da mera evolução dos eventos, se tornou o “sol” ao redor do qual todos as figuras políticas do país gravitavam. Meros três anos após o golpe de 1930 ele já havia substituído ou isolado praticamente todos os seus apoiadores de peso da Aliança Liberal, passando a constituir uma rede de apoio própria baseada nos interventores por ele indicados e no Exército. Essa aproximação das forças armadas coincide com o recrudescimento do regime, fortemente baseado em repressão, censura, tortura e outros tipos de violência. Se por um lado a censura cerceava a opinião de boa parte da mídia, esse período também assiste o crescente uso de sofisticadas e inovadoras formas de propaganda, que evoluem para quase um culto de personalidade do biografado e ajudam a motivar a opinião pública a favor do governo. Se aproveitando das circunstâncias criadas pelos comunistas e integralistas, Getúlio vagarosamente vai aumentando seus próprios poderes, primeiro de forma legal e depois através de uma simples promulgação de uma nova constituição, amparado no exército. Na sequência, ele manobra entre as potencias do Eixo e o Estados Unidos: sempre evitando se comprometer, buscava o acordo que acalmasse as diferentes preferencias dos atores políticos que sustentavam seu governo e extraísse o maior número de benefícios para as agendas desses grupos. Derrotado os governos totalitários na Segunda Guerra e com o zeitgeist político mudando para democratização, Getúlio novamente tenta continuar sendo protagonista do processo, liderando um processo de abertura que não consegue concluir: dessa vez, as Forças Armadas que o haviam sustentado em um regime ditatorial atuam para derrubá-lo.
Tal como na primeira parte, o livro também se destaca pelo uso extensivo do arquivo pessoal do biografado, agora com auxílio do seu diário pessoal, mantido durante boa parte do período que o livro trata. O uso do diário ganha outra dimensão, inclusive, uma vez que passagens e menções sutis da vida pessoal de Getúlio são contextualizadas pelo autor. Lira Neto também adiciona uma camada extra ao entendimento da figura do biografado com algumas digressões para explicar o contexto político e ideológico em que cada episódio se deu. A única limitação deste livro, na minha percepção, é a falta de detalhe dos bastidores de alguns eventos, apesar de ser um calhamaço de 700 páginas. Em especial, senti que a necessidade de mais detalhes sobre como Getúlio gradualmente foi convencendo o Congresso a aumentar-lhe os poderes e recrudescer o regime.
Lira Neto produziu uma biografia de Getúlio Vargas em três volumes cronologicamente divididos entre acontecimentos pré 1930, de 1930 até o exílio e de 1945 até o suicídio. Pareceu-me perfeita a escolha da divisão da Era Vargas nesses três períodos.
O trabalho é minucioso e fartamente documentado com todas as citações e fatos suportados pelas inúmeras fontes e cadernos de imagens apresentadas ao longo dos três volumes. Um trabalho de historiador como deve ser toda biografia.
No primeiro volume Lira Neto nos apresenta o desenvolvimento e a formação de Getúlio desde sua infância e adolescência na pequena São Borja, que nos ajuda a entender muitos de seus atos na vida adulta e política. É sempre muito importante que o biógrafo apresente não só a vida pública que conduziu o biografado a ser de interesse de seus concidadãos, como também a sua formação de personalidade, desde a infância. Nesse volume acompanhamos o despertar de Getúlio para a política, inicialmente no âmbito da conturbada política local, sob as asas de Borges de Medeiros, o líder político do PRR. Acompanhamos sua participação no movimento federalista gaúcho de 1923, seu crescimento como político local até alcançar expressão nacional no governo Washington Luis culminando com a sua participação como líder civil da revolução de 30, a partir de sua posição como presidente do Rio Grande do Sul.
O segundo volume se inicia com Getúlio Vargas como presidente do Governo Provisório instalado pela revolução de 30, passando por todas as crises políticas pelos quais se equilibrou no poder como fruto do seu maestral malabarismo político. Desfilam aos nossos olhos de leitor os constantes conflitos com o tenentismo, que exigiam uma governo ditatorial sem influência dos políticos, exatamente contra os quais se fizera a revolução, a crise da Guerra Paulista em 32, a Constituinte e a Constituição de 34, A lei de segurança editada para contornar os controles de poder que a nova Constituição estabelecera ao presidente, os problemas com o comunismo em 35, o integralismo, o Estado Novo e a constituição polaca em 37, os problemas com a 2ª Guerra Mundial, a agonia do Estado Novo e a finalmente a deposição e consequente exílio de Vargas.
O terceiro volume se inicia com Getúlio, em São Borja, no exílio. Nesta fase aumenta o papel de sua filha Alzira Vargas que já começara a trabalhar ao lado de Getúlio desde 1932. Muitas cartas entre pai e filha ilustram os acontecimentos e o pensamento de Vargas, nesta fase em que Getúlio fingia-se de morto, mas estava muito vivo esperando a oportunidade de emergir. Vemos o crescimento de sua candidatura presidencial para 1950 e as artimanhas de seu aliados nas escaramuças para levá-lo novamente ao Catete pelo voto, o que finalmente acontece. Dai chegamos aos problemas com a UDN e Carlos Lacerda, o assassinato do Major Vaz e a crise grave com o subsequente suicídio.
Uma obra magistral, que apesar de mais de 1.600 páginas, devorei em vinte dias.
Lira Neto como todo bom historiador não adota uma linha ou ideologia. Se vale da documentação e das fontes da época para fazer um relato dos acontecimentos. Não adotou nenhuma posição pró ou a favor Getúlio limitou-se, na medida do possível e das fontes a que teve acesso, a analisar os documentos e depoimentos da época. Não procurou analisar se Getúlio foi bom ou ruim de uma forma absoluta e sim registrar um momento histórico. Certamente, Getúlio teve ações boas e más e julgar todo o seu período no governo não é tarefa das mais fáceis e sempre devemos ter em mente que a leitura de uma biografia não indica aprovação ou condenação de atos do biografado, mas simplesmente uma intenção de conhecê-lo.
As décadas de 30 e 40 do século XX foram super complicadas em todas as partes do mundo. No Brasil, não foi diferente.
E pior, além de suas próprias fontes primárias de complexidade, como o próprio Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, militares com ambições ditatoriais, empresários industriais e do café e imprensa (como Assis Chateaubriand), houve grande influência internacional de nações e ideias, como o grande conflito entre o capitalismo x fascismo x comunismo, que influenciaram os movimentos nacionais do tenentismo, do comunismo (Luis Carlos Prestes), dos operários/sindicatos e os integralistas. Uma confusão enorme.
Se o leitor não tiver uma base sólida, ficará 'boiando', pois são muitos os movimentos, indivíduos e fatos paralelos que 'pipocaram' nesses 15 anos do livro.
Adotei a estratégia de ler outros livros junto com este, como: 'O ano vermelho', de Luiz Alberto Moniz Bandeira; 'Asas Da Loucuras', de Paul Hoffman; 'Lenin: vida e obra', de Luiz Alberto Moniz Bandeira; 'World War One: History in an Hour', de Rupert Colley; '1932 - São Paulo em Armas!', de João Paulo Martino; e 'Coronelismo Enxada e Voto', de Victor Nunes Leal.
Achou muito? Não acabou. Comecei a ler e ainda não acabei: 'Chatô: O rei do Brasil', de Fernando Morais; e 'O Integralismo e sua história - Memória, fontes, historiografia', de João Fabio Bertonha. Tenho guardado também a biografia de Luis Carlos Prestes ('Luis Carlos Prestes - Um revolucionário entre dois mundos', de Daniel Aarão Reis).
E com base nessas leituras, comecei uma série de leituras focando na Itália e no Fascismo de Mussolini, como 'Os Italianos', de Joao Fabio Bertonha; e 'Mussolini's Italy: Life Under the Fascist Dictatorship, 1915-1945', de R. J. B. Bosworth.
Enfim, o livro em si é excelente, mas sem um conhecimento mínimo dos diversos personagens e choques de ideias da ápoca, não dá pra acompanhar a narrativa na sua plenitude.
Acho que a maior virtude de Getúlio (até 1945) foi conseguir manter a estabilidade política nacional. No meio de tantos ideários radicais e influências externas e internas de todo o tipo, os 15 anos de uma ditadura 'a brasileira' (meio fascista e meio liberal capitalista) teve um saldo razoavelmente positivo.
Houve mortes, torturas, injustiças e escolhas institucionais equivocadas que nos atormentam até hoje. Mas poderia ter sido bem pior caso o governo central não segurasse diversos movimentos logo no início, como a intentona comunista, revoltas tenentistas e levante integralista. Fora os boicotes dos empresários e militares nos bastidores.
Não estou defendendo o governo getulista, só avaliando que não foi talvez um mau resultado quando levamos em consideração o que se sabia que iria acontecer no mundo, e havia disponível de capital financeiro, técnico e intelectual no Brasil.
É fácil julgar hoje o que deveria ter sido feito na época. Mas aqueles foram tempos muito conturbados em que havia pouca convergência de ideias e valores entre os diversos grupos de interesse.
Se pudesse recomendar um só livro extra, seria o 'Chatô: O rei do Brasil' que é um 'livraço' também. Este conta algumas anedotas interessantes que não são consideradas por Lira Neto.
Enquanto a 'Ascensão' é o momento mais misterioso, o 'Auge' é, de longe, o mais conhecido. É Júlio César e Pompeu, Cícero e Marco Antônio, Augusto e Nero. Enquanto o desafio no primeiro volume é vasculhar o pouco explorado, o desafio aqui é condensar aquilo que a maioria já sabe (ou pelo menos acha que sabe). A impressão que fica é que cada capítulo deste livro poderia ser um livro inteiro sozinho: Revolução de 32, Intentona Comunista, Estado Novo, leis trabalhistas, 2ª Guerra Mundial, todos esses com detalhes demais para contar em algumas páginas.
Mas no final, Lira Neto apresenta novamente um excelente trabalho que dá continuidade ao apresentado na primeira parte da trilogia. Ele próprio comenta desse desafio de sintetizar todos esses eventos em um único livro nos seus comentários finais. Pra quem leu o primeiro, este segundo livro segue como a sua continuação natural: o mesmo estilo, a mesma forma envolvente de contar os acontecimentos, os detalhes de se sentir lá nos momentos chave com a enxurrada de referências e muitas fotos para acompanhar.
Como comentado, muitas das histórias narradas são conhecidas, mas isso não quer dizer que o livro não tenha suas surpresas também: a Intentona Comunista é pouco comentada, enquanto a Intentona Integralista nunca é falada; a piada do Plano Cohen para o golpe de '37; o acordo brasileiro para entrar na guerra e o apoio de muitos no governo ao nazismo, como o próprio Dutra, quase nunca mencionado também; e principalmente o estopim que derrubou Getúlio em '45 quando ele já estava de saída.
Uma pena alguns desses acontecimentos serem pouco conhecidos, como Getúlio e sua família trocando tiros, barricados no Palácio, contra os insurgentes integralistas. Os detalhes íntimos também não ficam de fora: estão aqui também os amores extraconjugais de Getúlio, que não faz nenhuma questão de esconde-los nos seus diários. Inclusive, a maior decepção foi descobrir que, depois que algumas perdas pessoais, Getúlio deixou de escrever no seu diário. O mínimo seria o relato na sua queda em '45, queda essa que o próprio Getúlio talvez esperasse algo mais grandioso para talvez cumprir com uma promessa antiga de um final trágico. Final esse que já vem prometendo desde 30, prometeu em 32, 35, 37... mas que uma hora chegaria. Teve que se contentar com um avião de volta para São Borja.
Comecei o livro pouco depois de terminar o primeiro, mas a vida e outras leituras acabaram entrando no caminho e acabei demorando mais do que esperado para termina-lo. Por sorte, o hiato se deu justamente no golpe de '37, então o livro foi lido como dois: da posse em '30 até o golpe; do golpe até a queda de '45. A questão é que o mundo após o final da 2ª Guerra Mundial já não é o mesmo que aquele na quebra da bolsa em 1929, e o Brasil muito menos. O homem que guiou essas mudanças, as decisões tomadas e as tentativas de para-lo estão todas narradas de forma agradável e bem abreviada neste segundo volume.
What a fascinating biography very well written about an important period of my country. This is the level 2 of the trilogy , and I feel very encouraged to read the third one . I found out that I didn't know anything about this polemic man and his period , just those cold descriptions of our history books. The point that caught the most my attention was the participation of Brazil into the Second World War but all the maneuvers of Getulio when in power deserved my attention.
4.0⭐️ Neste segundo volume, o autor com a fluidez da escrita e a riqueza da informação mantém a atenção do leitor em todo livro. Contudo, o livro concentrou-se quase que exclusivamente no aspectos políticos de seu governo, falhando em não dar mais detalhes da gigante transformação econômica e social que mudou radicalmente o país e fez Getúlio ser considerado por muitos o melhor presidente brasileiro.
Excelente livro escrito por Lira, na qual demonstra sua veia técnica e jornalística para mostrar de forma objetiva o primeiro período do governo de Getúlio. Livro fundamental para aqueles que querem entender uma época tão importante da democracia brasileira.