Lições de abismo é o único romance do escritor brasileiro Gustavo Corção, considerado por muitos críticos literários como a sua obra-prima. Sobre ele, disse o poeta Menotti del Picchia: “Creio, sem temor de exagerar, ter lido o maior livro de ficção que já se escreveu no Brasil”. O romance também foi responsável pela seguinte declaração de Oswald de Andrade sobre Corção: “Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro”. O romance conta os últimos dias de vida do professor José Maria, diagnosticado com uma doença terminal que lhe deixou com cerca de três meses para, como ele mesmo diz, preparar a própria morte. Recluso em seu quarto, na companhia de poucos livros e alguns botões de rosa, José Maria recapitula a vida e elabora sérias reflexões sobre a morte e o porvir.
Gustavo Corção foi um escritor e pensador católico brasileiro, autor de diversos livros sobre política e conduta, além de um romance. Foi membro da antiga União Democrática Nacional (UDN) e um expoente do pensamento conservador no Brasil. Sua obra é influenciada pelo Distributismo, a apologia católica do escritor inglês G.K. Chesterton, influência extensamente explicada no seu ensaio Três Alqueires e uma Vaca. Entretanto, uma outra influência sobre o seu pensamento veio do filósofo Jacques Maritain. Formado engenheiro, Corção só obteve notoriedade no campo das idéias aos 48 anos, ao publicar o livro A Descoberta do Outro, narrativa autobiográfica de sua conversão ao catolicismo (influenciado por Alceu Amoroso Lima). Como engenheiro, era um apaixonado pela eletrônica. Foi durante anos professor dessa disciplina na Escola técnica do Exército, atual Instituto Militar de Engenharia. O amor à eletrônica e à música sacra levou-o a ser um estudioso e intérprete de órgão Hammond. Este instrumento musical tornou-se uma de suas paixões, tanto pela engenhosidade de sua construção como por sua sonoridade. Sua produção literária e seu estilo foram considerados por muitos na mesma altura da de Machado de Assis, autor que o inspirou a produzir e publicar uma antologia (de Assis). Sobre Gustavo Corção, Raquel de Queiroz afirmou em 1971: “A maioria dos brasileiros conhecem duas faces de Gustavo Corção. Uma, a do escritor exímio, a usar como ninguém a língua portuguesa, o autor que, vivo ainda, graças a Deus, é um indiscutível clássico da literatura nacional. [...] A segunda face é a do anjo combatente, de gládio na mão, a castigar os impostores que vivem a gritar o nome de Deus e da Sua Igreja, não para os louvar, antes para apregoar na feira inocente-útil do ‘progressismo’. O pensamento de Gustavo Corção caracteriza-se por uma postura política conservadora, inimiga do catolicismo liberal e favorável ao diálogo com a esquerda, representado por Alceu Amoroso Lima, Sobral Pinto, e Dom Hélder Câmara, e pela defesa do tradicionalismo litúrgico e doutrinário, o que o colocou em posição de antagonismo em relação à Igreja que emergiu do Concílio Vaticano II; concílio convocado pelo Papa João XXIII e encerrado pelo Papa Paulo VI. Corção apoiou a derrubada do governo de João Goulart pelo movimento encabeçado pelos militares, em 1964, pois entendia que esse governo abria as portas para o comunismo e, consequentemente, para a influência soviética no Brasil, implicando no fim da democracia e das liberdades individuais, incluindo a liberdade de possuir uma fé religiosa. Suas polêmicas com católicos menos conservadores e com as esquerdas, ocorriam em grandes jornais como O Globo, Rio de Janeiro e O Estado de São Paulo.
Gustavo Corção, assim como Tolstói em uma de suas mais famosas novelas, coloca-nos perante a morte de maneira sincera, a despeito da recalcitrância de nossa alma, densa de individualidade e sedenta por incorruptibilidade. Todo leitor que, concentrado, se lança de verticalmente na obra certamente tomará lições de abismo, descerá, numa katábasis, às profundezas de nossas misérias e negações, e talvez retornará, num jorro vulcânico (como no sonho de José Maria), nas vertigens próprias das revelações.
(não exatamente uma resenha,não exatamente completo)
I Comecei hoje a ler Lições de Abismo. Sempre imaginei que Gustavo Corção, a quem se acusa de ser um “autor católico”, fosse uma fonte de carolices rígidas, cheias daquela moralidade orgulhosa dos católicos que se expõem ao público, o que pouco despertava o meu agnóstico interesse. Ah, como estava enganado!
As primeiras páginas, as pouco mais de trinta primeiras páginas que li nos intervalos do dia, trazem um sutil apelo às forças eternas do eros e do tânatos, entremeado num enredo duro, pessoal e envolvente. Li-as na ida para o escritório, caminhando pela Conselheiro acima; depois no metrô, depois no Anhangabaú. Almocei sozinho e li mais um pouco, com o sanduíche ameaçando a integridade das páginas. E vinha lendo de volta para casa, no metrô, até chegar neste ponto:
“Devo a mim mesmo uma explicação. O tom com que estou recordando o enterro do Ferraz parece inafetivo, seco, sarcástico, como se não me tivessem chegado ao coração as lágrimas da viúva. Não. Lembro-me bem que sofri com d. Maria Aparecida, que senti falta do Ferraz, mas muito sofri, oh! muito mais, com o espantoso equívoco que parece perseguir o homem e que nessas circunstâncias toma alucinantes proporções.
Sim, é isto que me dói, e como dói. Há pessoas que falam quase sempre de um modo caloroso, com indignação fácil e cólera pronta. A qualquer injustiça cerram os punhos e desatam a generosa paixão dos sanguíneos. Gosto de vê-los, mas em geral fico alheio ao tom maior de suas indisposições. A mim o que mais fere, o que mais dói, são os equívocos que vejo no mundo. Essa é a minha triste dominante: uma exasperação do senso do ridículo. E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante glacial, que permanentemente me faz companhia. Falam de um inferno de fogo; eu penso, às vezes, num inferno de gelo.”
Lia esse trecho no momento em que subia a escadaria da Ana Rosa, saindo da estação para ir à padaria e, enfim, para casa. Estanquei no meio dos degraus, com um arrepio sobrenatural, daqueles que antigamente se dizia que significavam termos sido atravessados por alguma alma vagante.
Embora eu não tivesse racionalmente compreendido, de imediato, qual era o equívoco, qual era o espantoso equívoco, o meu estremecimento físico, ali, no meio das escadas, resultava de uma percepção integral daquilo que sentia o autor ao escrever – e não é essa, essa sim, a verdadeira razão de toda a literatura? Transplantar a alma do autor para a alma do leitor, ainda que por uns instantes, numa perfeita identidade humana, como se aquela célula primeva, tivesse voltando alguns milhões de anos e se unido novamente num corpúsculo único e solitário, destinatário inicial da vontade criadora?
II É que hoje pela manhã um cliente antigo do escritório tinha me ligado para dizer que seu ex-sócio, com que ele estava brigado por dinheiro, falecera nas primeiras horas. Seu velório será amanhã cedo e o enterro ao meio-dia. Ele teve câncer (“um pontinho, apenas, que eu descobri por acaso, fazendo uma endoscopia para a gastrite, veja que sorte!”), operou e continuou sendo o róseo otimista de antes. Almocei com ele pouco depois da operação e não tinha sido nada de grave. Sorria na sua barba branca, aparadíssima, espetando um aspargo fresco e dizendo que podia comer de tudo, graças a Deus! Era incorrigivelmente alegre.
Mas quatro anos antes eu testemunhava, no mesmo cemitério do Butantã aonde vou vê-lo ser enterrado amanhã, o Cláudio rasgar o paletó e a camisa, relevando o peito grisalho, no mais triste de todos os keriás, marcando a morte do seu primogênito numa estúpida corrida de automóveis.
Manteve-se teimosamente alegre nesses quatro longos anos, mas nunca mais foi feliz. E a infelicidade – negue toda a Ciência se quiser – a infelicidade é o câncer.
Foram a atual morte do Cláudio e a passada morte do filho dele, a lembrança e a expectativa do cadish, que me fizeram estancar no meio da escada do metrô da Ana Rosa. Mas não foi nem uma coisa, nem outra, que me fez compreender qual é o equívoco, o espantoso equívoco, cuja agudeza só experimenta quem já o cometeu.
III Tudo veio tão junto e tão súbito que eu chego a duvidar que eu realmente tivesse pensado por meio de palavras. Levo muito mais tempo – uma eternidade, se comparado ao átimo da compreensão – para explicar, para escrever.
O antigo cliente que me ligou para avisar da morte do Cláudio era muito amigo dele. Conviveram na mesma sala de vidro, numa enorme empresa têxtil, por décadas. Brincavam que era ali a “república independente do aquário”, porque lá tomavam decisões que nem sempre coincidiam com a realidade.
O fato de ser um judeu e outro armênio aumentava a graça toda da coisa.
Mas uma semana antes, ou quem sabe uma quinzena, de o Paulo me ligar para avisar da morte do Cláudio, eu mesmo havia ligado para ele:
- Paulo, falei com o Cláudio, pelo celular. Ele estava a caminho da quimioterapia. Nunca ouvi a voz dele assim.
Não disse muito mais do que isso. Era um óbvio alerta para a morte que chegava, um aviso para que ele o procurasse e ajustasse as coisas, para que chorassem juntos de suas misérias, para que nada passasse, àquela alma que ia, sem uma solução boa, fraterna.
E fiz isso – tudo percebido naquele instante, quase eterno de tão ínfimo, entre um degrau e outro da escadaria da Ana Rosa – por força de um egoísmo profundo que todo dia, todo o santo dia, me faz procurar meios de expiar minha culpa, minha tão grande culpa. Meu equívoco, meu espantoso equívoco.
Não é sempre que você encontra uma história tão próxima da realidade e que faz com que a gente reflita sobre a vida. Já tivemos filmes com premissas parecidas, mas não com o insight pessoal que Lições de Abismo traz.
Trata-se da história de José Maria, um homem solitário e longe do seu auge, que descobre que tem um câncer terminal, restando-lhe apenas alguns meses. Seguimos principalmente as suas reflexões pessoais e memórias; não tem muito enredo aqui. Ao invés de ir para o mundo, José vira uma espécie de anti-Walter White, e se fecha nos próprios pensamentos.
Descobrimos algumas coisas sobre sua vida, suas relações e problemas, mas o livro intencionalmente deixa muitas coisas de fora. Terminamos a jornada sabendo pouco sobre José Maria, mas simultaneamente percebendo a mudança que lhe ocorre durante os três meses de espera.
Existe uma certa espiritualidade nesse romance que, embora sutil, traga lições importantes para compreendermos a noção da morte e o significado dessa passagem. José Maria vive uma fé inconstante, vive na dúvida, aquela que acalenta a maioria de nós, mas algo muda em sua percepção no decorrer da história.
Lições de Abismo não pretende apontar a verdadeira resposta para a principal dúvida humana, mas com toda certeza deixa nas entrelinhas resquícios de uma verdade que todos sabem, mas que a cada evidência ficam mais e mais longe de aceita-la.
Se não tem pretenções de verdades, que ao menos fiquem as lições, essas de abismo.
Pelo que eu percebi o Gustavo Corção tem alma de ensaísta, por isso o lições de Abismo parece às vezes um grande solilóquio com pitadas de romance. O que não é ruim, claro. Mas, pra mim, o melhor do livro são as cenas de delírio do personagem principal diante da morte, muito bem descritas e que demandam um nível absurdo de imaginação e erudição.
Excelente. Um livro de reflexões riquíssimas. Um grande emaranhado de acontecimentos, linhas de pensamento, ideias, valores e devaneios de um moribundo.
Dos melhores livros de ficção que já li, o grande mestre Gustavo Corção suscita poesia à cada parágrafo. Conforme se aproxima do destino final, em seus solilóquios o personagem narrador produz reflexões profundas sobre a natureza do ser e das relações humanas. Sua irreverência também é marcante, dando um toque de bom humor a este livro fúnebre.
Segunda obra lida de Gustavo Corção, depois de ler «A descoberta do outro», uma narrativa autobiográfica filosófica belíssima, publicada em 1944. Agora, foi a vez de seu único romance publicado: «Lições de abismo», de 1950. Apesar de formas distintas, ambas as obras distinguem-se pelo estilo de prosa elegante, cuidadosa e precisa. Se vocês querem saber como escrever bem na lingua pátria, eis um grande modelo. Escreveu também obras de ensaios e crônicas, as quais tem sido relançadas nos últimos anos.
O livro «Lições de abismo» teve enorme repercussão entre leitores e intelectuais desde sua publicação, sendo inclusive premiado pela Unesco em 1954, e traduzido para outros idiomas. Oswald de Andrade chegou a dizer que depois de Machado de Assis, Corção era o mestre do romance brasileiro. Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz também foram alguns dos nomes que elogiaram a obra de Corção.
Neste romance, seguimos o caminho da personagem José Maria, professor de filosofia, abandonado pela mulher há dez anos, assim como pelo filho; vive sozinho e, em consulta ao seu médico, o Dr. Aquiles, recebe um diagnóstico de leucemia com no máximo mais três ou quatro meses de vida. Daí em diante, José Maria se recolhe em seu quarto e começa a escrever um diário dos seus últimos meses, num esforço para compreender o sentido de tudo, desce ao fundo do poço, trazendo memórias dolorosas, as quais vão desvelando ao leitor uma história de vida sofrida, mas de uma riqueza argumentativa enorme, traçando paralelos com grandes obras e autores da filosofia e literatura. Trata-se também de uma obra de esperança, de perdão, resignação e da busca pela dimensão sagrada da vida humana — Corção converteu-se ao catolicismo aos quarenta e um anos, e a cultura cristã permeia toda sua obra. Certamente um dos mais belos livros da literatura brasileira. A obra de Gustavo Corção merece maior reconhecimento e divulgação.
E tudo acaba no Carnaval, éste é um livro com ideias existencialistas de um homem prestes a descer à terra,well claramente influências Rilkianas,linguagem poética , desacordos,recordações e coisas que ficam pelo caminho, as rosas se foram também. Um homem que vive o luto em vivo,mas já estava defunto há tempos.
"Sinto-me muito diminuído; e sobretudo muito exposto. Não posso fechar a porta, porque a fechadura ainda não foi consertada. A cada momento podem entrar. Estou morrendo numa praça pública, como um atropelado, à vista de todos. Tão diferente do que imaginara!
Sempre há um momento que a morte se torna pessoal, não adianta ler ou tentar compreender, pois sempre fica ná superficie ,está experiência (in) ou felizmente ainda não chegou para mim, me contento com a visão difusa de leitora.
P.s: Uma morte no meio do Carnaval, não há final mais melancólico que este...
If I had to suggest a single Brazilian book to anyone, this would be it. Particularly to women, since this book is from a very masculine point of view of vulnerability.