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Livro da Saúde das Mulheres Negras: Nossos Passos Vêm de Longe, O

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Apresenta artigos de mulheres negras dos EUA e do Brasil sobre saúde, preconceito, acesso à educação, abuso sexual, etc.

Paperback

Published January 1, 2006

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Jurema Werneck

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Profile Image for Roseane Corrêa.
49 reviews7 followers
July 10, 2020
Estamos no mês de julho, mês das mulheres negras, ler esse livro me fortaleceu, não estou só. Cada texto traz contribuições para repensarmos a saúde das mulheres negras. São elas acadêmicas, líderes religiosas, líderes comunitárias, mães, filhas, moradoras de rua, escritoras, parteiras, um universo amplo de mulheres que tem muito a nos ensinar.

Os textos são do meado dos anos noventa início do SUS e sem política de cotas o que tornou a leitura mais interessante. Percebe-se que a estrutura racista não é a mesma. O racismo se atualiza conforme o tempo e o contexto social, como por exemplo, não havia política de cotas, hoje ela está em vigor, então para impedir que a população negra usufrua do seu direito a reparação histórica, o racista se tornou o principal fraudador desse direito conquistado.

O texto de Mãe Beata é bem pessoal, fala de si, de como nasceu nas águas e se tornou Beata de Yemonjá. A trajetória de um batismo compulsório até sua iniciação no terreiro de Alaketu, é sobre a família o amor e as dificuldades vividas. Uma das nossas maiores líderes religiosa, pilar em nosso processo civilizatório enquanto comunidade de terreiro. Mulher forte, decidida e muito crítica. Hoje é nossa ancestral, temos a obrigação moral de honra-la e praticar os ensinamentos por ela deixado.
O objeto analisador do livro é a saúde, mas em toda a escrita percebe-se o amor como eixo de ligação. Amor esse, que é estruturalmente negado a mulher negra em quase todos os âmbitos de sua existência, mas que em resistência o (re) construímos ao nosso modo, dentro de nossas possibilidades, com base nossas raízes ancestrais.
A ineficiência do estado e das políticas públicas devido o racismo estrutural coloca as mulheres negras (até hoje) na base da pirâmide social. O termo interseccionalidade não foi usado na época, mas o texto que conta a história de Lélia Gonzales destaca que ela já citava diferentes opressões que podem atravessar a existência da mulher negra, Lélia enfatizava a importância do debater além do racismo o sexismo, machismo e homofobia e pagou um preço caro por isso, muito caro, mas Lélia não se calou.

Para muitas mulheres negras o algoz pode estar em seu ambiente familiar ou nas amizades próximas. Se dedicam integralmente a família e sofrem violência física e psicológica dentro de casa. Aconselhou-se compartilhar a sua dor, denunciar, não é "normal", não "faz parte da vida" ser submetida a violência doméstica. O mapa de violência da ONU de 2015 apontou um aumento de 54% de homicídios de mulheres negras, no mesmo período, os homicídios de mulheres brancas caíram 9,8%. Se souber de mulheres negras que estão sob violência, denuncia e apoie a vítima.
No terreiro de candomblé e umbanda que muitas renasceram e tantas se fortalecem. Chegamos ao Brasil com a liberdade confinada, maltratadas, acotoveladas nos porões dos navios negreiros, mas as raízes africanas estavam em nossos corpos e não foram removidas, nos multiplicamos, crescemos e demos frutos. O corpo da mulher negra é da transa e do transe.
bell hooks salienta: o amor cura. A autora volta na história pra entender por que muitos apresentam dificuldade de amar e nos lembra que os nossos ancestrais foram tolhidos de toda e qualquer forma de vínculo afetivo a seus iguais, filhos vendidos, amantes, amigos, companheiros apanhando sem razão. Todo um histórico de violência física como punição e correção que acabamos por reproduzir em nossos lares e com nossas crianças. Meninos negros são ensinados a não chorar e a não demostrar sensibilidade. No tempo da escravidão que mostrasse sensibilidade nos momentos de castigo, era torturado ainda mais. Não demostrar emoções tornou-se um hábito de sobrevivência a brutalidade racial. No pós escravidão, a extrema pobreza obrigava a separação familiar e a separação de comunidades. Aqui no Brasil foi (é) muito comum que meninas pequenas serem entregues a outras famílias para ter o que comer, algumas outras autoras que estão do livro relatam que passaram por essa situação. Além do trabalho análogo a escravidão desde a terna infância, a violência sexual a menina negra foi (é) uma das maiores barbáries a infância preta. Por favor entendam a “novinha” não está pronta, é só uma criança.

O feminismo é um movimento de mulheres muito importante, mas negligência as pautas das mulheres negras. A universalização das mulheres silencia e oprime. Então o feminismo negro e outras coletividades de mulheres negras ganham destaque.
O corpo da mulher negra é território que por muitas vezes é explorado de forma inadequada. A mulher negra gorda está submetida a uma hierarquização entre as mulheres, uma cultura que leva a exclusão social. A esterilização compulsória, química ou cirúrgica, como controle populacional para a mulher negra pobre. Viver com câncer para muitas é sofrer com a falta de empatia do profissional que lhe assiste. O aborto quando feito na clandestinidade leva ao adoecimento, é um problema de saúde publica, o investimento em educação e saúde reprodutiva não chega de forma eficiente nas comunidades mais pobres, e não podemos esquecer a mulher negra tem o direito de decidir. O mioma uterino e a histerectomia total que é mais realizada em mulheres negras, muitas não fizeram o tratamento adequadamente por falta de orientação. O crescente encarceramento feminino leva a outras violências punitivista. A dor do luto tem que ser vivida e não suprimida como muitos esperam, mulher negra não tem que ser a guerreira o tempo todo. Mulheres negras profissionais da área de saúde são vítima constante de ataques racista associado a falta de credibilidade em sua capacidade técnica, uma Enfermeira denuncia que a profissão, majoritariamente negra e feminina, é desvalorizada e discriminada pela maioria dos médicos e sofrem rejeição dos pacientes.
As histórias de superação são inspiradoras. Dona Hildézia que foi para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida e foi uma das co-autoras do Manual Cidadania Etnia e Raça em 1998, Luiza tem o melhor período de sua vida enquanto funcionária da prefeitura e integrante de um grupo de Mulheres Negras que trabalha na educação em saúde, questões raciais e direitos reprodutivos. Leci Brandrão e sua música revolucionária que a mídia chamava de radical por falar sobre as desigualdade e apontar a situação de mulheres negras como a dona Deolinda, que foi inspiração para uma de suas musicas, líder do Movimento sem Terra que fora algemada e em um camburão encaminhada a uma casa de detenção por lutar por justiça social.
Josina da Cunha, uma das organizadoras do grupo CRIOLA, nos anos noventa usou a estética negra como forma de emponderamento, ela foi estudante de letras nos anos 60 na UFRJ, foi uma das poucas professoras negras da rede municipal a falar de questões raciais, mesmo sem apoio da diretoria, questionava os materiais didáticos que não incluíam a historia do povo negro. Nós que hoje temos a lei 10.639 temos muito que agradecer a essas mulheres que vieram antes de nós.
Nossos passos vêm de longe
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