"Aulas de literatura russa: de Púchkin a Gorenstein" apresenta um rico material que, se não propriamente um panorama das letras russas, está muito próximo disso. Há desde textos dedicados aos românticos, como Aleksandr Púchkin e Nikolai Gógol, até aos contemporâneos, como Ióssif Bródski e Serguei Dovlátov. A antologia reúne ensaios e resenhas de Aurora Fornoni Bernardini escritos ao longo de mais de trinta anos e publicados em prestigiosos jornais e revistas. Suas leituras atentas de Púchkin, Dostoiévski, Tolstói, Turguêniev, Tchékhov e outros escritores seminais do século XIX oferecem elementos para que os leitores se familiarizem com momentos decisivos e conceitos-chave da Era de Ouro da cultura russa. O capítulo de Dostoiévski é especialmente fecundo, incluindo uma entrevista com Joseph Frank, o mais conhecido biógrafo do escritor.
Aurora nasceu em 8 de Julho de 1941 em Domodossola, Novara, Itália. Desde pequena aprendeu a falar francês com os pais. Em 1954, veio com a família para o Brasil, onde aprendeu o português e concluiu seus estudos no Ensino Fundamental. Formou-se pela Universidade de São Paulo em Línguas Orientais (Russo) e Anglo-germânicas (Inglês e Alemão), onde fez mestrado em Letras (Língua e Literatura Italiana), doutorado em Literatura Brasileira e também Livre Docência. Morou alguns meses na França, na Inglaterra e na Rússia, passando a aumentar seu domínio do Inglês e do Russo, línguas aprendidas na Universidade. Atualmente é professora titular da Universidade de São Paulo, onde atua como orientadora e pesquisadora nas áreas de Línguas Estrangeiras Modernas e Roteiro e Direção Cinematográficos. Além disso, é membro do conselho editorial da Edusp.
Começou a trabalhar como tradutora em 1969, por ocasião da preparação de seu mestrado sobre o Futurismo na Itália e na Rússia.
Já traduziu mais de cinqüenta livros, muitos deles em parceria com outros tradutores. Normalmente traduz obras literárias, sendo suas principais traduções: Ka, conto-canto de Velimir Khlébnikov; O Deserto dos Tártaros, romance de Dino Buzzati; Aquela confusão louca da via Merulana, romance de Carlo Emilio Gadda e A Cavalaria Vermelha, coletânea de contos de Isaac Bábel.
Ganhou em segundo lugar, juntamente com Haroldo de Campos, o prêmio Jabuti, com a obra, por eles traduzida, Daquela estrela a outra, de Lucia Wataghin. Recebeu também o título de Presença Italiana no Brasil em 1986 pelo Círculo Italiano de São Paulo.
Quanto às suas próprias obras, já publicou um romance e vários contos, além de dezenas de artigos sobre suas traduções e sobre os princípios que a guiam ao fazer uma tradução.
O livro é em grande parte uma reunião de textos e artigos que Aurora escreveu ao longo dos anos. Muitos foram escritos para jornais e revistas, em razão de alguma nova tradução ou lançamento no mercado editorial. Por isso, são textos curtos, introdutórios e muito rasos, longe do que eu consideraria uma aula de literatura. Essa foi a minha maior decepção com o livro.
Os capítulos que abrangem os escritores do século XIX, os mais conhecidos do público geral, eu achei mais fraca. Não me trouxe informações relevantes ou inéditas. A parte que trata dos autores de vanguardas e os contemporâneos me agradou mais, pois apresentou autores que são bem menos conhecidos e me deixou com vontade de conhecê-los. A parte teórica sobre formalismo russo eu achei muito complexa para um público leigo, não entendi nada e acabei pulando os capítulos. A parte final de entrevistas e relatos, apesar de fugir do tema, eu gostei muito, pois trouxe uma visão sentimental sobre a trajetória da Aurora com a literatura russa.
No final não achei um livro ruim, mas acho que o título cria uma expectativa que não é atendida. Eu gostei de ter lido, mas esperava muito mais, principalmente de um livro escrito por uma professora de literatura da USP.