O livro ´As Misérias do Processo Penal´, de Francesco Carnelutti, traz a reflexão do Processo Penal em todas as suas fases. Começando à analisar a função do Juiz, do Ministério Público e do Advogado, no qual sua teatralidade lembra que nenhum homem é totalmente bom ou mal, fala das testemunhas, e, principalmente, da condição do apenado.
O mestre Carnelutti, em seu prefácio, assim se refere ao saber: “Também o saber, como, para dar um exemplo, a energia atômica, pode servir ao bem ou ao mal, para tornar os homens piores ou melhores, fazendo-os erguer a cabeça em ato de soberba ou fazendo-os inclinar em ato de humildade”. Na obra, analisa-se o processo penal sob uma óptica humanista, onde o acusado é visto como aquilo que é, ou seja, um homem, como qualquer outro, malgrado a situação em que se encontra. O processo penal não deve servir de espetáculo circense, a divertir a multidão. É, ou deveria ser, antes de tudo, caminho para a aplicação da justiça, admitindo-se a possibilidade desta.
Questão importante é levantada acerca da absolvição do acusado em virtude de insuficiência de provas. Nesse caso o indivíduo, na afirmação de Carnelutti, não é culpado, pois não há provas para assim o declará-lo. Tampouco é inocente. De fato, não havendo a certeza da inocência nem da culpa, pairará sobre a cabeça do acusado pena eterna. E a tarefa do processo penal, nas palavras de Carnelutti, “está no saber se o acusado é inocente ou culpado”. Assim, não bastaria a simples confissão do acusado para a formação da convicção de sua culpabilidade.
A obra deixa bem claro que o castigo do condenado não termina com o cumprimento da pena imposta. Esta vai muito além do cárcere. Ao sair do cárcere, pensa que está liberto, para descobrir, em seguida, que seu castigo perdura. O mundo fora das grades muda, relações foram interrompidas e ainda carrega o estigma de condenado/criminoso. Não negligencia o ilustre jurista também a questão do “risco da caridade”, citando como exemplo a possibilidade de se empregar um ex-ladrão, que poderia ter se regenerado, mas também poderia não o ter.
E, finalizando, merecem profunda reflexão as palavras do grande Carnelutti: “As pessoas crêem que o processo penal termina com a condenação e não é verdade; as pessoas crêem que a pena termina com a saída do cárcere, e não é verdade; as pessoas crêem que o cárcere perpétuo seja a única pena perpétua; e não é verdade. A pena, se não mesmo sempre, nove vezes em dez não termina nunca. Quem em pecado está é perdido. Cristo perdoa, mas os homens não.”
Curto e claro para refrescar a nossa mente em relação às constantes contradições do processo penal, o que podemos estender para o processo e o direto em si, principalmente o Brasileiro.
Por mais que haja um apelo muito grande em relação à aproximação com Cristo, o autor deixa bem claro a questão da empatia que devemos desenvolver para enxergar para além do direito. Então imagino que não seja uma obra propriamente religiosa.
Hoje, passados muitos anos da data que foi originalmente escrito, não aprendi nada de novo na leitura do livro. Talvez à época que foi escrito tenha sido mais inovador, mas não sei. É uma leitura rápida, então não dá pra dizer que foi tempo perdido.
Carnelutti transporta o papel do defensor, do acusador e do juiz para essa obra que, por mais que seja curta, tem muito a ensinar a todos os juristas que se propõe a lê-la.
O processo penal é o ópio do povo. Eles ainda se enchem dele como a multidão assistia o pelourinho, mas agora eles vêem de suas casas no jornal da noite. Essa é uma das duas misérias que eu achei mais interessantes para destacar do livro.
Acontece que, por conta disso, o suspeito de um crime é jogado à multidão, a qual prefere ignorar o princípio da presunção de inocência e se deixa levar pelo sentimentalismo, que para eles é a verdade. Com isso, o indivíduo logo é condenado pela comunidade, que escolhe somente visualizar parte dos fatos.
Outra miséria que me chamou atenção é a da pena perpétua que diz ter sido extinta, porém ainda está presente em todos os lugares. Ocorre que o processo nunca termina com a condenação. O condenado é conduzido até a penitenciária onde será seu enterrado vivo, será sepultado. O encarcerado tem essa esperança de que ao cumprir a pena retornará para o seio da sociedade uma vez que liberto. Mas ele não considera que ele foi excluído da comunidade a qual não tem interesse em seu retorno e para ela, ele sempre será um condenado.
Ao contrário disso, a penitenciária deveria ser como um hospital, lugar onde o encerado deveria ser preparado para retornar ao convívio em sociedade. “Cada um de nós está comprometido, pessoalmente, na redenção do culpado, e por isto somos responsáveis”, mas quando ele sai não encontra emprego ou oportunidade e não lhe é dada qualquer confiança. O “ex" encarcerado sai da penitenciária um cadáver, sempre será como um morto para a comunidade.
Nesse sentido, por fim, deixo o trecho que mais me marcou nesse livro: “A conclusão de havê-la conhecido é esta: as pessoas crêem que o processo penal termina com a condenação e não é verdade; as pessoas crêem que a pena termina com a saída do cárcere, e não é verdade; as pessoas crêem que o cárcere perpétuo seja a única pena perpétua; e não é verdade. A pena, se não mesmo sempre, nove vezes em dez não termina nunca. Quem em pecado está é perdido. Cristo perdoa, mas os homens não.”
É um livro bastante filosófico, com uma boa escrita. Discute o processo penal como um todo parte a parte. As sombologias presentes em elementos como a toga ou a algema. O papel de cada ator do jogo processual. Ele tem várias limitações relacionadas às questões religiosas que produzem as discordâncias que tive em relação ao seu pensamento. Julga que a pena deveria ser uma espécie de remédio. Creio que devemos desconstruir tudl isso. No entanto, é fato que ele era um homem de seu tempo e a nossa análise deve levar isso em consideração.
Não tive muitas informações novas, mas sem dúvida vou usá-lo em muitas futuras argumentações.