Há pintores místicos, lendários. Daqueles que se fala, em redor dos quais se tecem e destecem histórias mas cuja pintura se ignora. A Emma é um deles. A sua enorme personalidade impede a visão da sua obra, para desventura daqueles que amam a pintura. A lenda de Emma forjou-se a partir da sua própia vida e apesar da sua obra é ignorada.
-Luis Caballero-
Descontextualizado, sem os Textos Finais que encerram “O Livro de Emma Reyes”, esta obra não teria grande impacto para mim, porque é no dia em que Emma Reyes foge do convento, onde esteve literalmente encerrada durante quase 15 anos, que a sua vida de facto começa e que a sua pessoa se torna interessante para mim, e são outros que não a autora que contam as seis décadas que se seguiram, riquíssimas em acontecimentos e feitos.
A minha infância foi passada num convento e nunca saí de lá. Num mundo absolutamente de sonho, de abstração, porque nós chamávamos tudo o que acontecia fora do convento “o mundo”, como se vivêssemos noutro planeta. É claro que isto desenvolveu em nós uma enorme imaginação, a nossa imaginação enlouqueceu e até imaginávamos que as árvores eram de outra cor e as pessoas tinham uma forma diferente, e era tamanha a nossa angústia em relação ao que estava lá fora que um dia eu decidi fugir.
A pintora Emma Reyes, que até aos 18 anos foi analfabeta, através de 23 cartas conta a história da sua vida sem a interferência da adulta que agora é, com os olhos e a inocência de uma menina mal-amada que sempre viveu na penúria, vítima da incúria e da maldade dos adultos que dela deviam ter cuidado.
Se não fossem vocês a minha vida seria diferente, jamais teria vindo para esta aldeia miserável. Podia estar muito longe e ter de tudo nesta vida. Mas convosco sempre à perna estou acorrentada como um animal, ou seja, amarrada como uma vaca, mas garanto-vos que isto vai acabar, e juro-vos que se hão de lembrar das minhas palavras, porque assim que puder dou-vos, não me importa a quem.
Fiquei a admirar muito Emma Reyes depois de ter lido esta “Memória por Correspondência” porque, ao contrário de tantos outros, não se deixou derrotar por uma infância infeliz e pela falta de afecto, não permitiu que isso a levasse num caminho de autodestruição mas, pelo contrário, usou-o como força criadora na sua arte e deu à sua comunidade oportunidades que a ela lhe haviam sido recusadas. É por isso um livro aliciante para quem gosta de ler sobre infâncias difíceis mas que a mim me dá urticária literária, pela voz da criança narradora que não me parece credível, pela progenitora negligente a quem nem sequer posso chamar mãe como ela também não chamou, pelos abusos e obscurantismo da Igreja que preenchem a quase totalidade da obra.
Madre, sim, eu insisto e rogo-lhe que não poupem esforços, e não propriamente por ter interesse em encontrar ou em saber quem são os pais destas criaturas; o que me preocupa é não saber se foram batizadas ou não. Se são filhas legítimas ou se são filhas do pecado. Como imaginam, não podemos albergar sob o teto desta santa casa duas meninas em pecado.