Há um ano por esta altura, li um livro muito enternecedor, “Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez, onde o poeta falava do afecto pelo seu burro, e este ano, sem saber ao que ia, leio a história de Azarías, um homem do campo com um evidente atraso mental (e não me corrijam com a nomenclatura actual porque o digo sem malícia) que tem uma relação muito especial com os pássaros.
e todos no pátio riam em coro, como corujas, e a Lupe
então não é que este mequetrefe está a chorar por aquele pássaro mal-cheiroso,
e o Azarías,
a milhana tem febres e o menino não dá licença que eu vá dizer ao Bruxo do Almendral,
e vai de mais uma gargalhada, e mais uma, até que, finalmente, o Azarías, atrapalhado, desatou a correr, foi para o pátio e urinou nas mãos e, depois, entrou no estábulo, sentou-se no chão e pôs-se a contar em voz alta as carrapetas das válvulas tentando acalmar-se,
Azarías, depois de muitos anos a trabalhar na propriedade do menino de Jara, é friamente dispensado e acolhido pela irmã, Régula, na propriedade do menino Iván, onde vive com o marido Paco, o Baixo, conhecido pelo seu faro de perdigueiro, com os seus dois filhos adolescentes...
e Azarías,
e os rapazes?
e ela,
ae, estão na escola, onde queres que estejam?
e ele, o Azarías, mostrava por instantes a ponta da língua, grossa e rosada, voltava a escondê-la, saboreava-a um bocado e no fim dizia,
o mal é teu, depois não servem para criados nem para doutores,
e a Régula,
ae, eu pedi-te a opinião?
...com a filha deficiente, a eterna Menina Pequenina, e com Nieves, a mais nova, tão esperta que “até vê crescer a erva”.
A instrução é, aliás, um tema recorrente em “Os Santos Inocentes”, visto que “até a própria Senhora Marquesa, com o propósito de erradicar o analfabetismo da herdade, mandou vir durante três Verões consecutivos dois meninos da cidade para que (...) os juntassem todos no pátio dos estábulos, os pastores, os porqueiros, os varejadores, os arrieiros, os ganhões e os guardas”, para depois poderem exibir o progresso do povo aos seus amigos estrangeiros nas caçadas.
e o menino Iván,
chiu!, agora não o distraiam
e Paco, o Baixo, coagido pelo silêncio expectante, traçou um rabisco no reverso da factura amarela que o menino Iván lhe desdobrava em cima da toalha, comprometendo os seus cinco sentidos, dilatando as suas narinas achatadas, uma assinatura tremelicante e ilegível
Tenho um imenso respeito por Miguel Delibes que consegue dar a este pateta alegre e a toda a sua pobre família uma dignidade que vai para lá do meio, da classe, do grau de instrução e de todas as humilhações a que são sujeitos pelos senhores que os exploram e desprezam. Não há sobranceria nem troça, apenas humanidade neste retrato da Espanha rural dos anos 60, apesar dos vários episódios humorísticos.
e, nisto, apareceu à porta de casa, debaixo da parreira, o Azarías, descalço, os pés sebentos, as calças pelos joelhos, sorrindo com as gengivas, arrotando como um animal, e Paco, levemente irritado, apontou-o com um dedo formalmente,
este aqui, é o meu cunhado,
disse,
e o menino Iván analisou atentamente o Azarías,
tens uma família mesmo escolhida a dedo,
comentou,
Por outro lado, não se sente quase a presença do autor aqui, porque ele deixa que sejam as personagens a dominar a narrativa, com diálogos colados à oralidade, mas tudo composto num estilo apuradamente literário.
“Os Santos Inocentes” não é um livro maniqueísta em que os ricos são os maus e os pobres são os bons, visto que há uma gradação nos habitantes dos dois mundos; nem sequer moralista, apesar do final que todos os leitores decerto desejam e não têm coragem de admitir. A propósito, façam da introdução a esta obra a sua conclusão, como sempre, porque também aqui se conta mais do que se deve.
e a sua indignação chegou ao cúmulo quando, certa noite, o menino Lucas lhes desenhou com primor um H maiúsculo no quadro e (...) avisou,
muito cuidado com esta letra; esta letra é um caso insólito, não tem precedentes, amigos; esta letra é muda,
(...) Facundo, o Porqueiro, cruzou as manápulas sobre a barriga proeminente e disse,
que quer dizer com isso de ser muda?, se virmos bem as outras também não falam se nós não lhes emprestarmos a voz,
e o menino Lucas, o alto, o das entradas,
não tem som, gaita, é como se não estivesse, não serve para nada,