Arrazoado de “Zalacaín El Aventurero”, de Pio Baroja
por Fernando Ferreira Jr.
Pio Baroja y Nessi, nascido em 28 de dezembro de 1872, na localidade de San Sebastián, no País Basco, é o autor de “Zalacaín El Aventurero”, uma de suas principais e mais famosas obras.
A história é em si relativamente simples: um narrador em terceira pessoa relata as peripécias de Martín Zalacaín de Urbía desde sua infância, no vilarejo de Urbía, até a sua morte trágica em meio a uma luta corpo a corpo com seu figadal antagonista, Carlos Ohando.
A primeira impressão que o livro deixa - impressão que vem logo à mente para aqueles que cumpriram a longa jornada literária deste ano - é a da sua semelhança com outro clássico espanhol, o “Lazarillo de Tormes”. Isso porque Martín Zalacaín, tal como Lazarillo, nada mais é do que um vagabundo, um perdido na vida, sem eira nem beira, que simplesmente, sem ter nada melhor que fazer, se joga na vida em busca de alguma coisa que ele mesmo não saberá bem como definir. É o que Martín admite num diálogo com Briones, irmão de Rosita, pouco antes do lance final de sua vida:
-Creerá usted que yo ya no tengo casi ambición? -No? -No. Sin duda, eran los obstáculos los que me daban antes bríos y fuerza, el ver que todo el mundo se plantaba a mi paso para estorbarme. Que uno quería vivir, el obstáculo; que uno quería a una mujer y la mujer le quería a uno, el obstáculo tambíen. Ahora no tengo obstáculo, y ya no se qué hacer. Voy a tener que inventarme otras ocupaciones y otros quebraderos de cabeza. -Es usted la inquietud personificada, Martín - dijo Briones.1
Evidente que não é o caso de um vagabundo qualquer - Zalacaín é a “inquietud personificada”, uma espécie de força indômita, uma paixão incontrolável que precisa da ação, precisa do agir constante e permanente para extravasar toda essa energia, energia esta que, no entanto, não tem objetivo nem rumo certo. É também o mesmo Martín que, ainda no diálogo com Briones, desenha a figura geral de sua personalidade:
-Que quiere usted? He crecido salvaje como las hierbas y necesito la acción, la acción continua.2
Não é à toa que a vida de Martín Zalacaín desabrocha, cresce e atinge sua plenitude durante o que pode ser considerado um dos períodos mais convulsionados da história da Espanha: as chamadas “Guerras Carlistas” que se desenrolarão de 1833 até 1876, mas que terão conseqüências ainda no século XX.
Essas verdadeiras guerras civis eram o resultado - o amargo resultado - das ondas de impacto lançadas pela Revolução Francesa sobre toda a Europa. Como todo mundo sabe, a Revolução Francesa foi um grande foco de propaganda e insurreição liberal em praticamente todas as cortes européias - os revolucionários não se contentavam com a Revolução na França, pretendendo espalhá-la por todas as demais nações vizinhas. Além disso, a tempestade napoleônica de fato varreu muitas cabeças coroadas - com raríssimas e nobres exceções, dentre elas o nosso sagaz D. João VI -, abalando dinastias e fazendo terra arrasada de tradições e costumes sociais estabelecidos desde há muito tempo - o code Napoléon foi a marreta que destruiu o direito comum europeu construído pacientemente desde a Idade Média.
A Espanha, como não poderia ser diferente, teve sua parte de agonia no drama europeu pós Revolução Francesa. Ali haviam aqueles que queriam incorporar os princípios da Revolução; haviam também aqueles que queriam restaurar o status quo. Liberais e absolutistas, para simplificar.
Sem entrar aqui na barafunda dinástica instalada, na Espanha os liberais, de uma maneira geral, agruparam-se em torno da infanta Isabel II, filha do desaparecido rei, Fernando VII; os absolutistas, por sua vez, uniram forças com Carlos de Borbón, irmão do falecido. O conflito, como se pode perceber, se deu por conta da sucessão do pobre Fernando VII: os liberais pretendiam que a sucessora fosse Isabel; os absolutistas, por sua vez, queriam Carlos no trono. Não havendo acordo a respeito, o pau comeu.
Com exceção da “Segunda Guerra Carlista” - houveram três -, sucedida entre 1846 e 1849, as demais se deram basicamente no território do País Basco - terra de Zalacaín e de Pio Baroja.
E é justamente em meio ao caos instalado, em meio às batalhas e escaramuças, correrias em territórios ocupados pelas forças beligerantes, fugas espetaculares, empresas de coragem sem par, beirando a pura e simples temeridade, que Martín vive, faz o seu contrabando de víveres, armas e bugigangas, e põe para fora essa força cega, essa energia cósmica que o domina e que o compele ao movimento permanente, constante.
Mas não é apenas esse aspecto que aproxima o livro de Pio Baroja com o “Lazarillo de Tormes”. Assim como no clássico da novela picaresca, Martín tem o seu período de aprendizagem. É dizer: “Zalacaín El Aventurero” também tem uma feição de novela de aprendizagem.
A aprendizagem de Martín se dá com um parente seu, o tio-avô Tellagorri. As duas características mais notáveis desse último eram, por um lado, o individualismo (“-cada cual conserve lo que tenga y que robe lo que pueda - decía”); e, por outro - e a meu ver o mais importante -, o evidente estoicismo do velho ladrão:
Tellagorri no necesitaba de nadie para vivir. Él hacía la ropa, él se afeitaba y se cortaba el pelo, se fabrica las abarcas, y, no necesitaba de nadie, ni de mujer ni de hombre. Así al menos lo aseguraba él.3
Talvez mais do que estoicismo possa falar aqui - já que estamos tratando de um livro espa-nhol - de senequismo. Se não me falha a memória, o estoicismo - e Sêneca é o representante mais popular do estoicismo - é, de acordo com Otto Maria Carpeaux, um traço permanente da personalidade do espanhol: esse olhar um tanto quanto trágico sobre a vida, a intuição de que, diante da insensatez do mundo, de sua essencial vaidade, não há outro caminho, não há outro estilo de vida aceitável, senão o da renúncia, o do senso do dever, da fortaleza diante das contrariedades, fortaleza esta que quase se transforma numa impassibilidade - a ataraxia.
Todo espanhol é um estóico; Sêneca era espanhol; e a novela de Pio Baroja, retratando essa Espanha profunda, Espanha do País Basco, de Navarra e outras regionalidades quase tribais, não poderia deixar de notar esse traço profundo da alma espanhola.
Tellagorri incutiu esse caráter duro, essa firmeza de espírito, na alma do jovem Martín: “-Arrayua! Así hay que ser - decía Tellagorri -. Hay que estar firmes, siempre firmes”.4
Então, recapitulando o que disse até aqui: há, em “Zalacaín El Aventurero”, esse duplo aspecto - de um lado, a aventura, a ação, a necessidade de movimento que não tem um objetivo claro, definido, mas é apenas o superar o obstáculo que a contingência coloca diante desse fluxo vital permanente. De outro lado, é a firmeza, a fortaleza, o “siempre firmes”, o traço secular da personalidade espanhola que, abandonando as inanidades do mundo, busca a ausência total de perturbações.
Há aí é claro uma contradição - duas forças antagônicas que se chocam, ou, melhor dizendo, que puxam a alma do indivíduo em direções opostas. Existe a ação, o movimento, o afã de superar obstáculos; mas existe também a ataraxia estóica, o desapego do velho Tellagorri, que não precisa de nada neste mundo, “ni de mujer, ni de hombre”.
Pio Baroja joga dialeticamente com essa dualidade. Como mostrei antes, o próprio Martin admite não ter praticamente nenhuma ambição - tal como seu tio-avô Tellagorri, também nada deste mundo o interessa. Mas é Martín também que admite pulsar dentro dele uma vida que, se não a emprega na ação, no movimento sem fim, apodrece e se decompõe:
-Pues yo estoy vivo, eso sí; pero la misma vida que no puedo emplear se me queda dentro y se me pudre. Sabe usted, yo quisiera que todo viviese, que todo comenzara a marchar, no dejar nada parado, empujar todo al movimiento, hombres, mujeres, negocios, máquinas, minas, nada quieto, nada inmóvil.
Em “Zalacaín El Aventurero” o embate dessas duas tendências, se não se resolve numa síntese superior, encontra um tipo de desfecho, uma válvula de escape da tensão - o homem inquieto, que busca a todo o momento a ação pela ação, o movimento pelo movimento, o permanente superar dos obstáculos que a contingência lhe apresenta, mas que também nada deseja do mundo, nada ambiciona, tem na morte o fim de sua sofreguidão por aventuras e, ao mesmo tempo, a saída do mundo, a libertação e o desapego totais - solução esta que, ainda que longinquamente, ecoa o elogio estóico ao suicídio.
Ao terminar a leitura do livro, fiquei com a sensação de uma narrativa sem sentido, sem propósito, quase que absurda mesmo. Um “herói” que age, que enfrenta mil e um obstácu-los, que se mete num sem número de aventuras, correndo riscos sem conta, mas que, no fundo, não ambiciona nada, não busca nada, não almeja nada - só o que o interessa é o desafio em si, é o exercício, é o pôr para fora essa energia vital que o consome. Não há nenhum valor mais alto que mova Martín Zalacaín. A única coisa que o move é o próprio movimento, o fluxo permanente da ação, uma espécie de moto-contínuo que não tem finalidade alguma a não ser perpetuar o cego movimento. E isso tudo ainda acrescido do elemento do estóico, do desapego, do desprendimento do mundo.
Sim, a visão barojiana do mundo tem esse quê de absurdo, de despropósito; é um mundo que não tem sentido, que não têm finalidades últimas e a única coisa que importa - na ver-dade, a única que resta - é essa afirmação da vontade humana, da vontade indômita que não conhece limites nem obstáculos e que, por isso mesmo, a depender de sua orientação, pode resultar no bem ou no mal do próximo.
Martín Zalacaín é um estóico, é um senequiano; é um homem sem apegos, um homem que não se deixa levar pelas vaidades do mundo. Mas é também um homem sem finalidades, sem metas, sem valores transcendentes, sem aquelas crenças e amores profundos que movem os homens - ele mesmo serviu carlistas e liberais indistintamente. É, como ele mesmo diz, uma “hierba salvaje”, que não tem outro propósito na existência senão o exercício de suas próprias forças, a afirmação de sua vontade no mundo; é ele uma encarnação do übermensch, do além-do-homem, da vontade de potência num mundo sem sentido e sem propósito. É quase que um Nietzsche falando a língua vascuence.