Democracia em risco? A pergunta que dá título a esta coletânea de artigos procura reagir a uma constatação: as eleições de 2018 são um marco no curso da história de nosso atual regime democrático, iniciado com a promulgação da Constituição de 1988. Fato novo, um candidato de extrema-direita — de retórica virulenta e ideias conservadoras em matéria de costumes, mas vestindo novíssimo traje ultraliberal em assuntos econômicos — tornou-se contendor imbatível, deixando para trás velhas figuras e partidos que haviam dominado a cena desde a conformação da Nova República.
A vitória de Bolsonaro suscita muitas interrogações, tanto relativas aos processos que levaram a ela quanto às suas consequências, em vários âmbitos. Este é o desafio que se colocou aos pensadores aqui reunidos, notórios especialistas em áreas como ciência política, história, sociologia, antropologia, economia e direito. Trata-se de um livro de intervenção, que pretende ajudar na compreensão de período que, tudo indica, virá a ser crucial nos rumos que tomarão nosso país e nossa sociedade.
Reflexões Ligeiras Trata-se de um “livro de intervenção” e como tal não desaponta. Os textos que reúne procuram compreender/explicar o resultado eleitoral de 2018 nas eleições presidenciais. Seu fio condutor aponta para uma avaliação negativa da opção eleitoral que se sagrou vencedora. Depõe a favor do livro o fato de que os autores não abordam o tema valendo-se de uma mensagem apocalíptica. Dá para notar até alguma dose de otimismo em algumas análises. Os desafios que surgem com a eleição de Jair Bolsonaro são abordados com clareza. Ao final, o leitor percebe que há muitas perguntas sem respostas.
Uma boa proposta de analisar o então vindouro governo Bolsonaro sob diversos ângulos: história, sociologia, direito, psicánalise, economia, relações internacionais e ciência política. Essa é a maior virtude do livro. Contudo, o conjunto da obra vê-se prejudicado pela falta de diálogo, sobreposições e, fundamentalmente, o desnível de qualidade. Há ensaios bastante instigantes, mas outros – e, infelizmente, não são poucos – são bastante rasos e ocos. Certamente, resulta da tentativa de coletar, com rapidez, impressões sobre as eleições e o futuro do Brasil no "calor do momento". Compreende-se o objetivo e o tamanho do desafio de realizá-lo; no todo, porém, o esforço é falho.
Bem vindos à era do "ultra" (ou extrema). Tudo o que os autores não concordam é ultra: ultra-direita, ultra-ortodoxo, ultra-conservador. O livro compila textos que partem de premissas dogmáticas: ocorreu um "gópi" em 2016, o Brasil dos anos áureos do PT não tinha problemas, não houve qualquer correlação entre a depressão vivida pelo país e as políticas e práticas adotadas pelos então governantes, há uma perseguição política em curso no país e que faz uso do aparato judiciário e do discurso anti-corrupção e, finalmente, toda e qualquer ação autoritária ou de intolerância está sempre no outro, naquele que se opõem às pautas caras aos autores. Obviamente, essa oposição é também sempre tacanha, estúpida e desqualificada. O nosso próprio bando de deploráveis, praticando pura heresia.
Porém, mesmo partindo dessas premissas, no mínimo questionáveis, há sim diversas críticas e alertas interessantes - infelizmente soterrados quase sempre em um alarmismo ufanista que parecia indicar o fim do Brasil em 2019. Não aconteceu. Só que nem por isso alguns dos alertas deixam de ser válidos como, por exemplo, o da radicalização do discurso (só que de parte a parte e não unilateralmente como parecem acreditar alguns dos autoers) e o risco de ufanismos nacionalistas.
É possível tirar reflexões interessantes mesmo não concordando com as premissas, argumentos e exemplos cuidadosamente selecionados (cherry pinking all the way), mas é uma leitura cansativa para quem não reza pela cartilha dos autores. Já os que rezam pela cartilha dos autores, com certeza acharão exemplos interessantes e argumentos para sentirem-se "inteligentinhos" cultos.
O que eu achava que seria uma leitura pouco proveitosa, por estar lendo 2 anos após o lançamento e já saber de fatos sobre o governo Bolsonaro se tornou na verdade uma verdadeira aula, o que encheu meu livro de post-its, com todas as informações interessantíssimas que o livro expõe. Democracia em Risco é um livro (infelizmente) necessário, mas que ajuda a entender como chegamos até aqui e o que podemos fazer pra lutar. Me parece que coloca em todos nós a responsabilidade pelo tempo que vivemos e que somente por nós virá a mudança, através da cidadania. Os autores sabem se colocar no meio do debate e sabem fazer uma crítica, a qual acredito que todo brasileiro há de concordar. O único motivo que me fez dar 4 estrelas é que por terem sido 22 ensaios, e todos buscaram mostrar um lado da questão, muitos capítulos e discussões pareciam repetidos pra mim. Então, talvez se tivessem menos ensaios não teriam essas repetições. Apesar de tudo, sempre vou recomendar o livro, assim como uma professora de Política Externa Brasileira o fez para mim.
Para quem não conheça a história do Brasil o livro é ao mesmo tempo uma boa oportunidade e uma armadilha, a parcialidade é muito obvia, porém a leitura é boa e a qualidade dos ensaios também.
Seria ainda mais interessante fazer o mesmo livro com enssaios mais objetivos e neutros ou pelo menos adicionar opiniões do outro lado, aqueles que 'estão lá', para de fato enxerger esse caminho que levou o Bolsonaro à vitória.
Levo comigo esta citação feita do livro "O único e o singular" do Paul Ricoeur "Onde há poder, há fragilidade. E onde há fragilidade, há responsabilidade. Quanto a mim, diria mesmo que o objeto da responsabilidade é o frágil, o perecível que nos solicita, porque o frágil esta, de algum modo, confiado a nossa guarda, entregue ao nosso cuidado".
Gostem ou não do que se escreveu - e muitos não gostarão - esta coletânea traz textos de intelectuais de várias áreas do conhecimento que analisam as últimas eleições gerais, procurando explicar como se deu a ascensão de Jair Bolsonaro ao cargo de Presidente da República, destacar as ideias e forças que lhe dão suporte e prever como será seu governo. Felizmente para uns, infelizmente para outros, muito do que se vaticinou na obra vem se realizando. Vale a leitura para tentar entender a sucessão de fatos que culminou com a volta da direita ao Palácio do Planalto e constatar, conforme se desenrola o mandato, se as previsões tecidas são acertadas ou não.
Paradoxo curioso: como um livro aquecido pelo calor da hora consegue ao mesmo tempo ter tanto algo de requentado quanto de volta à vaca fria?
(salvo exceções mais ou menos notáveis, de João Moreira Salles - sim, o texto é "velho", mas também ótimo - a Matias Spektor, passando por um até surpreendente - e meio amalucado - Ronaldo Lemos, que talvez diga besteira, mas ao menos arrisca)