Jump to ratings and reviews
Rate this book

Kuami

Rate this book
"O primeiro a ser visto é o flautista Patápio Harmonioso, acertando a embocadura do instrumento com “André de sapato novo.” O maestro Cardinal Pixinga, ao lado dele, delicia-se com a execução da peça, enquanto lustra a batuta. “Ora vejam, temos convidados”, ele exclama ao ver chegar Kuami. Helena faz as vezes de Janaína e o apresenta ao maestro, ao Patápio e a todos os Cardinais coralistas. Ele é recebido com muito carinho e senta-se ao lado de Helena para assistir ao ensaio. Logo no começo, depois de limpar a garganta com o tradicional hã-hã, o maestro Pixinga anuncia a presença de Kuami, um visitante ilustre de outro país, e oferece a ele a canção mais recente do coro, “Meu lugar”, de Arlindo Cruz do Firmamento Real. Kuami se apruma em agradecimentos, aproveita para ficar de pé, pois será inevitável ouvir com o corpo inteiro. O maestro levanta a batuta e os coralistas começam: O meu lugar é caminho de Ogum e Oxum / O meu lugar é cercado de luta e suor / esperança num mundo melhor... / O seu nome é doce dizer / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laia. Kuami coreografa a música com a tromba e o rabo, divertindo todo mundo. No meio da canção ouvem-se os solos do flautista Patápio Harmonioso. O maestro Pixinga detecta um tum esquisito, mas não percebe de onde vem. Não chega a incomodar seu ouvido peixe-canino, mas aquilo não está na pauta musical. Se ele olhasse para o Kuami, às suas costas, compreenderia. O coral emplaca a segunda parte da música: Ai que lugar.../ Tem mil coisas pra gente dizer / o difícil é saber terminar / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa. Desta vez, depois do refrão, não se ouviu apenas um tum inofensivo, mas dezenas de tuns, bem desafinados. Vários Cardinais enxugam os olhos com as barbatanas. O maestro Pixinga, visivelmente bravo, fecha as guelras e abaixa a batuta encerrando a música antes do final. Então, ele se dá conta que o tumtumtum era o efeito das lágrimas de Kuami quando alcançavam o chão. Faz-se aquele silêncio cúmplice, todo mundo comovido com o choro do elefante mirim. Helena o apoia e o incentiva a falar, se quiser. Ele funga forte e diz soluçando: “desculpem, mas não consegui me controlar, Madureira... é minha Lunda."

88 pages, Paperback

Published January 1, 2011

13 people want to read

About the author

Cidinha da Silva

35 books28 followers
Cidinha da Silva - nasceu em Belo Horizonte, em 1967, onde se graduou em História, pela Universidade Federal de Minas Gerais. Transferiu-se em seguida para São Paulo, com brilhante atuação no GELEDÉS - Instituto da Mulher Negra, organização não-governamental que chegou a presidir. A escritora possui forte engajamento com a causa negra e com questões ligadas às relações de gênero. Suas publicações encontram-se, assim, alinhadas a tais temáticas, no intuito de promover maior espaço de reflexão sobre as identidades tidas como subalternas. Em fevereiro de 2005, fundou o Instituto Kuanza, que tem por objetivos desenvolver projetos e ações nos campos da educação, ações afirmativas, pesquisa, comunicação, juventude e articulação comunitária. Todos encontram-se vinculados à discussão sobre as assimetrias racial e de gênero e subsidiam a formulação de políticas públicas nessas áreas. Como dirigente cultural, concebeu e executou projetos inovadores como o "Geração XXI", em inéditas parcerias com empresas e organizações não-governamentais. Nessa linha, atuou também como gestora de cultura na Fundação Cultural Palmares, onde se destacou pela organização da publicação Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (2014).

Sua estreia na Literatura Afro-brasileira se dá com a coletânea em prosa Cada Tridente em seu lugar, publicado em 2006 e reeditado no ano seguinte. A obra foi pré-selecionada pela Fundação Biblioteca Nacional para integrar o projeto de expansão de bibliotecas públicas por cidades do interior do Brasil. E as narrativas “Domingas e a Cunhada”, “Pessoas trans” e “Angu à baiana”, presentes no livro, tiveram os direitos de filmagem adquiridos pela produtora Lúmen Vídeos, de Vitória, Espírito Santo. Composto em sua maioria de textos curtos, Cada Tridente em seu lugar explicita o permanente diálogo com a realidade contemporânea e, no plano formal, o contínuo entrelaçamento da crônica com o conto. Desde então, foram nada menos que onze títulos publicados entre 2006 e 2016, abarcando crônicas, poemas e narrativas infantojuvenis. Já o volume Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!, lançado em 2008, confirma sua atuação na literatura relacionada à alteridade e inclui escritos voltados para o universo da homoafetividade.

No prefácio do volume Sobre-viventes (2016), a pesquisadora e poeta Lívia Natália afirma: "vi-me muitas vezes retratada em situações e personagens. Vi minha mãe, minha avó vivendo nas páginas de Cidinha da Silva como as negras ali representadas com uma dignidade belíssima. Andei com estes textos entre fatos que todos nós, brancos ou negros, vivemos em nossa travessia racial pelo mundo, já que nossa roupa, por excelência, é a nossa pele que, como texto que é, fala logo e antes de nossa boca." (NATÁLIA, 2016, P. 12).

Cidinha da Silva é autora ainda das peças teatrais Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas, encenada pelo grupo "Os Crespos" em 2013, e Os coloridos, também encenada pelo grupo em 2015.

Além das obras referidas, autora tem presença constante nas redes sociais e na imprensa alternativa publicada na internet. É editora da Fanpage cidinhadasilvaescritora e colunista dos portais Forum, Geledés e Diário do Centro do Mundo.

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
3 (60%)
4 stars
2 (40%)
3 stars
0 (0%)
2 stars
0 (0%)
1 star
0 (0%)
Displaying 1 of 1 review
Profile Image for Tônio Caetano.
Author 5 books3 followers
December 29, 2020
A partir da amizade se enfrenta a realidade e se constrói uma família sem preconceitos. É sobre isso que Kuami fala. Também sobre o amor como forma de iluminar, de libertar a vida do cativeiro.
Displaying 1 of 1 review

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.