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Histórias que as Mulheres Contam

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«As histórias que aqui se contam são reais. Nada do que aqui é posto na boca destas mulheres é inventado, nem mesmo as expressões ou os comentários.

[...] Por outro lado, todas as histórias estão relacionadas com a condição feminina, conduzindo muitas vezes a situações dramáticas na vida das mulheres, que são nossas contemporâneas.»





Isabel do Carmo é médica endocrinologista doutorada pela Universidade de Lisboa. Antes do 25 de Abril, foi membro do PCP, donde saiu em dissidência, e fundou o PRP/Brigadas Revolucionárias. Foi dirigente associativa e da Ordem dos Médicos. Tem tido múltiplas actividades em organizações de base, tais como o Fórum Ecologista e Alternativo, as Feiras Alternativas, a Comissão Pró-Amnistia, a Associação Abril, e outras organizações autónomas. É autora de vasta obra publicada.

101 pages, Kindle Edition

Published February 1, 2015

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About the author

Isabel do Carmo

29 books4 followers
Doutorada pela Faculdade de Medicina de Lisboa, a Prof.ª Isabel do Carmo é médica, endocrinologista, e uma das maiores especialistas portuguesas em obesidade e comportamento alimentar. Foi fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade e da Sociedade Científica (Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar). Coordena a Endocrinologia da Consulta de Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria e é responsável pela consulta de obesidade do mesmo hospital. Responsável pelo primeiro estudo sobre Prevalência da Obesidade em Portugal e do estudo actualmente em curso (Fundação para a Ciência e a Tecnologia).

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Profile Image for Katya.
564 reviews2 followers
Read
February 27, 2025
Quando me casei, vim para Lisboa. Vivo com o meu marido na mesma casa, mas odeio-o. Pancada? Já apanhei muita pancada. E até já tive uma faca apontada ao coração. Porque é que nunca me separei? Para não dar esse desgosto à minha mãe.

Isabel do Carmo tem um grande historial pessoal, político e profissional. E é sem dúvida daí que sai este projeto de recolha de vozes e histórias de mulheres. Documento de empoderamento, retrato da condição feminina, conjunto de denúncias anónimas, todas estas histórias são histórias de negligência parental, de violência doméstica, psicológica e sexual, de ironias e injustiças de vida de uma dureza atroz:

O parto foi feito pelas freiras, prolongou-se por dois dias; quando a mulher gritava, elas diziam «quando o estavas a fazer não gritavas». Com tanto tempo, tanta sufocação e tanto empurrão na barriga, e tanto «puxa, puxa» e elas é que puxavam, a criança ficou com paralisia cerebral. E a minha mãe comentou que aquilo aconteceu porque a mulher tinha tido dois homens antes daquele que era o pai da criança. E que Deus castiga.

Sendo estas recolhas publicadas há qualquer coisa como dez anos, versam sobre histórias vividas durante e saídas do regime salazarista, profundamente marcadas por uma cultura arcaica e arcaizante, paternalista e dissociada da condição da mulher:

A Conceição, a minha mãe, gritava, gritava de dores um dia inteiro. A curiosa empurrava a barriga, agarrava-lhe as mãos, amparava. Vivo ou morto? Três viveram. Porque é que os outros morreram? Não se sabe, naquela época era assim. A curiosa cortava o cordão, atava-o com o nastro e eles ali ficavam engelhadinhos, roxos, mortos. Como o meu pai era carpinteiro, fazia uma caixinha com tabuinhas de pinho, metia-os lá dentro, pregava, fechava e levava-os para o cemitério.

Entre os não-ditos e os interditos, as revindicações próprias do tempo, as prisões, as torturas, a fome, o frio, a ileteracia, a violência dos casamentos forçados, a maternidade impingida, estas mulheres iam sobrevivendo o melhor possível, tantas vezes renovando como martírio as injustiças sofridas às mãos dos homens, nos seus filhos e em si mesmas:

Há um segredo que não conto a ninguém: fui abusada pelo meu avô durante três anos.[...]A minha mãe fazia que não via. E ainda hoje diz que são fantasias minhas e pede-me para não dizer a ninguém porque a família ficava mal.

Relatos de uma tristeza profunda, cada uma destas histórias revela uma mulher alquebrada, cuja identidade e sexualidade, profundamente reprimidas, levam a um estado de resignação e quase dormência perante a vida, e a uma aceitação tácita de mais violência:

A maior parte dos crimes que nos aparecem [Tribunal de Haia] são violações, não são torturas e mortes. As queixas não são das violadas, mas, como é crime público, há processo. As vítimas não se queixam nem sequer aparecem muitas vezes como testemunhas. É uma questão de honra. Umas ficam destruídas para o resto da vida. Outras ficam como se nada fosse com elas. Mas o mais surpreendente é que algumas ficam protegidas pelo violador. São as suas violadas e mais nenhum homem lhes toca até ao fim da guerra. E elas aceitam a protecção. Há mesmo uma, cujo violador foi condenado em Haia, que foi atrás dele quando foi enviado para uma prisão da Suécia. Foi para a Suécia, vive lá, visita-o na prisão e aguarda que seja libertado para casar com ele.

Enclausuradas em papéis normativos e maternais, de pureza e inviolabilidade (sim, é irónico), as narrativas destas contadoras de histórias reproduzem a subjetividade do olhar e os preconceitos culturais herdados em quase clandestinidade, com a vergonha dos que são subjugados a poderes políticos, religiosos e ideológicos assentes na iniquidade:

Hoje faço tudo o que o meu marido quer. Ele é que me deposita o ordenado, não me quer dar cartão de multibanco, tenho de lhe pedir dinheiro sempre que quero fazer compras. Manda em tudo o que faço. Deve ser por causa de toda essa história que está para trás. Vou ser assim até morrer.

Histórias que as mulheres contam resulta numa leitura incómoda, difícil de digerir, muitas vezes tão explícita que nos faz desviar os olhos da página. Mas, por isso mesmo, resulta também num livro necessário. Necessário porque revela aquilo que a sociedade se esforça por ocultar: a sua falência como espaço de harmonia, liberdade e igualdade.
Profile Image for Célia Gil.
1,009 reviews45 followers
October 22, 2022
Um livro pequenino, que li em duas horas e que conta a história de muitas mulheres remetidas à discriminação pela sua condição feminina, a vivências que se tornaram, na maior parte das vezes, bastante dramáticas. Antes de cada história, surge uma fotografia alusiva ao tempo, não correspondendo, porém, a nenhuma das mulheres retratadas nas histórias. A narração é dura, direta, sem contemplações. Gostaria, apenas, de as ver mais desenvolvidas.
Desde a mulher cuidadora do marido com Alzheimer; a mulher que tinha muitos filhos, mas que poucos resistiam e que era vítima de violência doméstica; a filha que era destinada a cuidar dos pais quando envelhecessem; a rapariga que só saía de casa com o irmão e que, quando injustamente acusada de desonra, se suicida; o suicídio das mulheres já retratado por muitos escritores; as conquistas de direitos que as mulheres foram alcançando ao longo dos anos; o casamento das professoras; as traições dos maridos; a mulher que nunca aceitou a maternidade; a vítima de abusos por parte de um familiar; a menina que viveu sempre sob o estigma de ser considerada feia, porque fora dos padrões de beleza da época; a mulher que era impedida de sentir prazer; mulheres que ficaram na história, desde as bósnias às rainhas, entre muitas outras. Histórias no singular que retratam as vivências, angústias, sentimentos, medos e perdas de muitas outras mulheres.
Recomendo!
Profile Image for Maria Carvalho.
109 reviews6 followers
April 18, 2025
Neste livro não há finais felizes ou grandes reviravoltas. Também não é um livro que se devore num domingo à tarde. É para ir lendo e perceber que por trás de uma destas mulheres há o peso do mundo.
A autora escreve sem filtros. Com uma sensibilidade crua. Mas fica claro que não quer emocionar, só contar. E é o que mais marca nesta obra: a ausência de dramatismo que torna tudo ainda mais verdadeiro. Estas mulheres não gritam, não se queixam, mas carregam um peso incrível de perdas, culpa, ausência, num formato muito feminino de força, resiliência sem glória, o cuidar dos outros sem pedir nada em troca.
Fica-nos o desconforto. A sensação de que há muitas mulheres com histórias parecidas, silenciosas.
Profile Image for Sunny.
90 reviews1 follower
February 21, 2019
Óptimo livro com histórias fantásticas.
Adorei, não só a partilha de experiências e memórias das mulheres, mas também os comentários que ilustram e explicam o clima político e sociocultural em que cada mulher vivia.
Profile Image for Daniela.
1 review
March 27, 2023
O início começou bem. As histórias finais tinham demasiadas explicações políticas e/ou histórias para enquadrar o contexto do conto em questão, mas que na minha opinião se tornaram cansativas.
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