Qual deve ser a posição de quem deseja julgar a Inquisição hoje, quando tantos séculos já se passaram? Trairíamos os princípios básicos da historiografia, é certo, se a transportássemos indistintamente para os dias atuais e a analisássemos segundo parâmetros desconhecidos ao universo em que ela se desdobrou. Neste livro, que figura entre os estudos mais célebres do tema, João Bernardino Gonzaga nos possibilita ver a Inquisição não como mero fato isolado, mas em suas ligações com os fatores culturais, políticos, econômicos, religiosos e científicos da época em que esteve em vigor.
Fundamentada e ponderada como poucas, a obra A Inquisição em seu mundo já é há muito conhecida como antídoto eficaz contra os preconceitos e distorções que costumam prejudicar nossa visão de um período tão decisivo da história.
Nesse livro, o professor de Direito Penal João Bernardino Gonzaga enfrenta o problema da Inquisição, qual seja: como pôde a Igreja na Idade Média e Moderna, defensora da caridade e do perdão, enfrentar com tanta violência aqueles contrários à sua doutrina?
Pois bem, o professor Bernardino discute ao longo dos capítulos da obra como eram o sistema penal secular e a sociedade medieval para então avaliar a atuação e o sistema penal inquisitorial. Diante das informações apresentadas, encontra-se que o tribunal inquisitorial pouco se diferenciou dos métodos e das severidades de uso comum no direito secular e, além disso, em determinados aspectos, foi até mais benevolente (como, por exemplo, optar em diversos casos pelo emprego da prisão como punição ao invés da pena de morte, ao contrário do direito secular que utilizava a prisão apenas em caráter judicial como interlúdio até a execução).
Destaca-se, ainda, que não se pode estudar essa instituição histórica, de forma justa, sem compreender o contexto em que ela surgiu. Como o professor argumenta, era natural a própria sociedade perseguir e segregar os dissidentes religiosos, uma vez que a comunidade e a religião, naquele período, eram indissociáveis uma da outra. Fato, porém, de difícil compreensão ao homem moderno acostumado com a separação do Estado e da Igreja. Não obstante, foram e são muitos os que acusam a Igreja de intolerância e brutalidade, servindo-se, em contrapartida, de termos e perspectivas que só fazem sentido hoje na sociedade em que vivemos.
Assim, em que pesem os inúmeros e excelente trabalhos de estudiosos para compreender o que a Inquisição realmente foi (violenta, sem dúvida, mas com um espírito particular que a animava), nada ou pouco adianta para enfraquecer a imagem escandalosa que seus detratores fazem dela e que serve de principal malho para desmoralizar a Igreja.