Brilhante, nada mais que isso. E faz com que se pese ainda mais a morte do Hillman no fim do ano passado, já que ele era o último grande junguiano vivo, ao menos dentre os grandes bambambans do movimento. O livro praticamente transforma Freud num personagem do Wodehouse, ele é ao mesmo tempo um Jeeves e um Wooster ao contar as peripécias dos seus coleguinhas da mesma forma pateta de Wooster, mas com o espírito crítico de um Jeeves – isso tudo acaba sobrando para o Jung que se parece com um daqueles amigos igualmente patetas do Wooster, é claro. Confesso que a parte do Jung Food deu uma pontada no meu peito, ver tio Sigmund tratando-o como um Glossop da vida partiu meu coração.
Particularmente o trecho em que discorre sobre Otto Gross é o mais digno de deleite, em especial a constatação que deve-se dar um desconto à dissidência teórica do Jung porque ele andou conversando demais com o matusquela viciado em ópio.
É uma das coisas mais engraçadas que li em muito tempo e de certa forma reflete um mundo prático que personifica um freudiano ortodoxo com chapéu de cozinha e qualquer tentativa social de se parecer remotamente junguiano comendo biscoitinhos da sorte é rapidamente ridicularizada, não no sentido do bom humor apresentado neste livro, mas no de sentido primário de destruição por destruição sem pensar no outro, como se fosse uma velha cozinheira fofoqueira como o nosso Freud comicamente apresentado aqui. Ou nas palavras do próprio Hillman: uma sociedade sem alma.
Adendo: O livro é semi-ilustrado e nas ilustrações há outra pista de que foi escrito por um junguiano, enquanto o Freud foi desenhado todo desmilinguido, o Jung foi desenhado no melhor estilo “eu sou gato, hein!” Se meu scanner não tivesse quebrado, colocaria a ilustração em questão aqui, embora não tão sexy quanto o display de A Dangerous Method nos halls de cinema que me faz ter vontade de lamber o bigode do Jung. Rá!