"A primeira vez que a fotografaram ela teve a impressão de assistir ao disparo, ao preciso instante em que a bala entra na carne. O seu rosto papoila desfeita, atingida nas pétalas por um golpe de vento, magoada e expansiva como boca suja de baton. Achou-se frágil. Tocada, como se diz na fruta ainda viva, imprópria para comer. Achou-se bela e diminuída pela evidência. E com o tempo uma mulher chega a apreciar a serena violência que lhe habita o rosto. A mancha provocada pela obturação da lente assinala para cada um dos seus empreendimentos, para cada gesto e alegria, um pequeno luto."
Excerto de "Sais de Prata"
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"Diz-se: há fantasmas na máquina,
gente sem sombra, mas graus profundos
de obscuridade. Diz-se:
é a mais pura solidão,
boas horas de açúcar e vinho derramado,
e que se acorda com a boca
em sangue como guelra
sabiamente dedilhada.
Diz-se: é um fogo que se anima
contra a áspera superfície do teu corpo -
um caule que sustém a tua fronte
entre os cabelos longos das flores
que quando morrem deixam
o ar velado
de uma só combustão.
O filme, um florescer de muitas águas
onde o polvo é uma imagem
parada que medita. Uma mulher
floresce em muitas águas onde
a carne aniquilada vem pensar e remexer baixios."
Excerto de "O filme, um florescer de muitas águas"
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Há uns meses decidi comprar alguns livros da colecção "elogio da sombra": mesmo que soubesse pouco ou muito pouco sobre os autores, na altura guiei-me pelas pesquisas que fiz. Recordo-me nitidamente que no caso da Andreia C. Faria, mais do que poemas dispersos que fui encontrando, o que me marcou foi uma entrevista que li e que me deixou intrigada e muito curiosa em relação à sua poesia. A leitura deste livro, no entanto, foi pontuada por alguns dissabores: comecei a perceber que algumas pessoas - que até têm gostos semelhantes aos meus - adoravam a escrita desta poeta mas, dentro de mim, pouco ou nada se agitava no decorrer da leitura. E é evidente que, por mais que os meus gostos sejam compatíveis com os de outros leitores, há, e haverá sempre, espaço para divergências, mas não conseguia mesmo entender os elogios que lhe teciam... e confesso que os primeiros livros me deixaram na mais pura indiferença, raros foram os poemas que me interessaram: a mudança - vertiginosa, posso afiançar - deu-se quando pisei o "Tão Bela Como Qualquer Rapaz"... fiquei deliciada com a poesia dela e passei a recomendar vivamente este livro em particular (embora tenha adorado, também, "As Ervas Altas e os Pulsos").