A partir de um conjunto de histórias de mulheres sem grande história, Hugo Mezena descreve, com delicadeza e mestria, as fragilidades e anseios de quem deixou de sonhar com o dia seguinte.
Um livro extremamente tocante sobre as eternas-crianças que envelhecem dentro de cada ser humano, e a forma como o Portugal moderno as trata.
O novo livro de um autor-revelação elogiado unanimemente pela crítica literária.
Hugo Mezena nasceu em 1983, em Penafiel. Vive em Lisboa. É autor do melodrama A Cidade, o Gato, da peça O Salto e dos libretos para ópera O Deus do Vulcão e Jealousy. Participou em coletâneas e no romance colectivo O Grande Inquisidor. A micropeça A Violação foi levada à cena em Portugal e no Brasil. Alguns dos seus trabalhos deram origem a obras plásticas e peças musicais e são presentemente objeto de estudo em contexto académico. Interessa-se pela relação entre palavra escrita e música. Toca piano. Gente Séria é o seu primeiro romance.
Gostei mais do "Gente séria". "As velhas" é um retrato demasiado deprimente da velhice e, embora acredite que é a realidade de grande parte das nossas velhas, pareceu-me em momentos repetitivo e repleto de estereótipos. Na minha opinião, falta ao livro 2 ou 3 velhas que não se encaixem neste retrato deprimente e que sejam "fora da caixa". Porque também as há em Portugal, felizmente.
Vinte e três narrativas curtas, vinte e três velhas. Em poucas palavras e numa linguagem simples, sincera e directa Hugo Mezena diz muito sobre estas mulheres que envelheceram e que vivem num mundo próprio, numa casa vazia repleta de memórias presentes, de memórias perdidas, de rotinas perdidas, de nomes esquecidos ou trocados, de poucas ou nenhumas visitas, de algumas coscuvilhices entre vizinhas, de fantasmas…
Em todas estas histórias tão diferentes (ou talvez não) percebe-se que a solidão e a perda são pontos comuns.
A realidade destas vidas faz parte do nosso dia-a-dia, da nossa sociedade cada vez mais insensível e alheia à velhice, aos idosos que vivem isolados, que são abandonados, que são depositados em lares e esquecidos.
Reitero a simplicidade e a beleza das narrativas que muito nos fazem reflectir sobre o nosso presente e sobretudo sobre o nosso futuro. Antevi, de imediato, mais uma história, a da “Dona Graciosa”, pois para lá caminho…
Entre as muitas e boas novidades editoriais neste início de ano, é com prazer que se abraça a leitura de “As Velhas”. Segundo livro de Hugo Mezena, depois do muito promissor “Gente Séria”, estamos aqui perante um conjunto de vinte e dois contos que nos oferecem histórias da terceira idade, curiosamente incidindo apenas e só sobre mulheres, nas suas relações de vida com aqueles que lhes são mais próximos. São relatos de quem percebe que o ascendente que mantinha em relação aos outros é agora coisa do passado, a dependência a instalar-se aos poucos e com ela essa sensação de estorvo, de fardo, que se vai insinuando a cada dia que passa.
Um dos grandes trunfos de “As Velhas” é a sua verdade. Hugo Mezena não precisa de grandes enredos para entrar na vida da Dona Regina, da Dona Josefa ou da Dona Matilde pelo seu lado mais grave, seja o nome dos netos que importa lembrar ou os medicamentos com hora certa para tomar, sejam os cuidados a ter com gente que não se conhece, a dificuldade em encontrar o caminho de regresso a casa ou a sempiterna e detestável sopa de feijão. Mas não se pense que estas velhas são, todas elas, modelos de educação, conformismo e submissão. Aqui se encontram também aquelas que estão sempre prontas a fazer orelhas moucas a conselhos e recomendações ou a levar por diante os seus projectos, por mais improváveis que possam parecer, sabendo-se como é sabido que nada há de mais apetecível do que o fruto proibido, mesmo aos 80 ou 90 anos. Sobretudo aos 80 ou 90 anos.
A tensão que se instala desde o início de cada conto, aliada a uma enorme ternura, a um refinado toque de humor e à sinceridade e transparência das narrativas, faz com que o leitor facilmente se reveja ou projecte em palavras e gestos, aqui amáveis e delicados, além inquietos ou carregados de amargura. Não é difícil encontrar pontos de contacto entre a realidade de cada uma das personagens e a nossa própria realidade, de tal forma Hugo Mezena usa com mestria todo um conjunto de significados e de códigos que, na sua universalidade, convocam momentos e situações alojadas à esquina da memória. Numa sociedade em permanente mutação, cada vez mais egoísta e menos sensível a problemáticas como as da velhice, “As Velhas” pode ser um excelente ponto de partida para uma cuidada e atenta reflexão. Na certeza de que é para velhos que todos caminhamos!