Cabe quase tudo num século de vida de um povo. Naufrágios e glórias, luz e trevas, gente levantada e de joelhos. E, durante todos esses anos, a maré sobe e desce. Há um país que se vai transformando, mesmo visto de longe. Há homens em fuga para a frente, que trocam de nome e de moral. Há mulheres de dentes cerrados. Há filhos deixados para trás. Meadas de histórias e de sangues às quais se perdeu o fio.
Num romance sem heróis, onde todos lutam, sobrevivem e morrem a tentar ser livres, é possível, embora vão, tentar destrinçar, no meio do medo e da culpa, onde acaba a ficção e começa a realidade. E se, por vezes, a intimidade da escrita nos aproxima de acontecimentos distantes, noutros, é a frieza da narrativa que resguarda momentos de grande profundidade. Cortesia de um dos romancistas mais promissores da literatura portuguesa contemporânea, Maré alta é um retrato cru e épico do Portugal do século XX e de quem o viveu, no limiar onde a esperança, o sonho e a memória se confundem e perdem na sucessão de marés.
Um século é muito tempo. Um século não é nada, quando aprendemos a nadar.
PEDRO VIEIRA nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde reside. Licenciado em Publicidade e Marketing pela Escola Superior Comunicação Social, trabalha no Canal Q das Produções Fictícias como criativo, e é atualmente a cara do programa diário Inferno. Trabalhou como livreiro nos grupos Almedina e Bulhosa Livreiros e como designer no Centro Cultural Olga Cadaval. Fez formação adicional na área da Ilustração, que exerce em regime free lance, em cursos promovidos pela Ar.Co e pela Fundação Calouste Gulbenkian. É ilustrador residente da revista LER. Blogger indefectível, criou o irmaolucia e é co-autor do Arrastão. Publicou em 2011, com a Quetzal Editores Última Paragem, Massamá, o seu primeiro romance, distinguido com o Prémio Revelação do PEN Clube Português. Em 2012, reuniu as crónicas do irmaolucia no Canal Q, no volume Éramos Felizes e Não Sabíamos.
Um livro sobre a liberdade. Assim o li. Numa escrita melodiosa e distinta, encerra detalhes da história do nosso país, da Europa e do mundo. Mas esses pormenores são sempre suplantados por uma humanização dessas lutas por sermos aquilo que queremos ser. Vêmo-lo nas pessoas e na afirmação da sua identidade, através de personagens fortes, com carácter, tal e qual a Maria e depois a Lucinda, que nos arrebatam com um humor e uma força interior desconcertantes, ou mesmo quando forçados a abdicar dela, tal e qual o Augusto que foi Samuel, também. Esse sim, personagem maior, que vira por completo o destino da história e nos deixa a pensar o porquê de tomar parte da própria História ao invés de seguir caminho, como homem, marido e pai. Tantos heróis e nenhum, afinal. Homens e mulheres que resistem, que lutam, que deixam problemas para trás. Cada um à sua maneira, casam, abandonam, têm filhos, choram mortes, celebram alegrias e deixam vivo, bem lá no âmago, aquilo que lhes valerá um volte face na vida. Talvez se chame esperança. Algo que é estrutural, de sangue, mesmo que se sobreponham todas as circunstâncias à volta. Um pouco à semelhança da amizade entre os dois homens (Afonso e Augusto) que se mantém viva e perpetuada, muito embora os silêncios e a distância. Uma enorme teia de identidades, em geografias dispersas mas que em vários momentos e tempos distintos se tocam. Sem ninguém o saber, nem o passado que todos temos e que rasto deixamos para trás. Um rasto do tempo que escorre, e as memórias que se desvanecem ao longo de muitas marés.
"Vicente ainda distribuiu algumas palavras no caminho de regresso, alertando os rapazes para as armadilhas do mundo e do destino, feito em grande medida pelas próprias mãos. Cuidado com as escolhas que se fazem, com os caminhos que se tomam, com as pistas que se deixam para trás e com as amarras que não nos deixam sossegar. O problema das bombas nem sempre é o estrago imediato, o sarilho é que muitos vezes trazemos os estilhaços na memória. Culpa, arrependimentos, pontas por atar. No fim, tudo se desmorona, independentemente do nosso cuidado e da nossa vaidade e das nossas intenções de peito feito. Mas podemos escolher parte do legado que fica, mesmo que seja coisa pífia nomeá-lo com essa pompa. Augusto tomava nota mental das palavras que não tinha compreendido. Encerrou o passeio convencido de que precisava de um dicionário para a vida."
Uma narrativa de proporções épicas (por desenrolar um século de Portugal em várias gerações de personagens) que, além de funcionar maravilhosamente bem, é um retrato, como poucas vezes li na nossa língua, das várias contradições do que é isto de ser português. E que bela escrita.
O século XX foi um período de contradições marcantes. Em Portugal, foi o século da implantação da República, mas também o da sua dissolução em troco de uma ditadura; foi o século do êxodo e da guerra, mas também aquele que viu uma revolução pôr fim à miséria. Como na Europa, foi o século dos extremos: paz e violência, direitos humanos e genocídios, estado social e neoliberalismo.
Ora, se o tempo contemporâneo, com narrativas em que a crise se misturava com o ambiente suburbano, foi o foco dos dois romances anteriores de Pedro Vieira (mais conhecido pelo seu blog Irmão Lúcia e pelo seu trabalho na televisão), "Maré Alta", o seu terceiro romance, publicado pela Companhia das Letras, tem em si a ambição de abarcar o século XX na vida de uma família. Mas, se há famílias que, por terem tomado parte activa nos acontecimentos marcantes do século, são inseparáveis da História, outras há que pelo tempo deambulam, ineficazes e passivas perante qualquer mudança. Maré Alta vive precisamente entre esses dois polos, o de viver a nossa vida sem qualquer interesse pela conjuntura externa e o de pôr mãos à obra e influenciar a mesma. Porque, mesmo numa família como aquela sobre a qual incide o romance, uma das que nascem e morrem sem deixar marca na história a contar às gerações vindouras, há quem não se contente com o que lhe é deixado.
Augusto (ou Samuel, nome que mais tarde adopta), personagem centro de um romance onde várias outras nos são apresentadas, é precisamente desses que nunca consegue estabilizar numa vida normal. Filho único, Augusto cresce na pequena aldeia de Molhos, ao largo de Leiria, lado a lado com Afonso, filho do retirado revolucionário republicano para quem seus pais são caseiros, e os dois formam um vínculo fraternal.
A infância de ambos é conjunta, com ambos ministrados pelo mesmo preceptor, tão dedicado ao filho do patrono quanto ao filho dos caseiros. Mas, para desgosto de Ana, mãe de Augusto, quem detém maior influência sobre a vida destes jovens é Vicente, o tio anarquista de Augusto que vive em Lisboa e é parte activa de organizações clandestinas, o irmão de quem Ana nunca se orgulhou. Nas várias ocasiões em que anda fugido às forças de ordem, refugia-se na pequena aldeia de Molhos, e é junto destas crianças que se vai entretendo, contando-lhes histórias e ensinando-lhes o oposto do preceptor.
Quando um homem aparece nas redondezas da aldeia perguntando por Vicente, o perigo acerca-se e a família assusta-se. Augusto teme vir a perder o seu tio para as mãos de outros, mas é Afonso, acabado de se tornar adolescente, quem toma nas suas mãos o dever de proteger Augusto da tristeza de perder o seu tio e, com um tiro, elimina a ameaça externa.
Perante tal tragédia, resta à família condenar Afonso ao exílio nos Estados Unidos como única forma de o proteger. Mais vale perder as suas raízes que perder a sua vida. Augusto vê-se, assim, a braços com a partida do seu quase irmão e a amargura de ter sido outro, e não ele, a salvar o seu tio. Deveria ter sido ele a premir o gatilho para salvar o seu tio, mas, enquanto Afonso sempre fora impulsivo e impiedoso, Augusto era o mais calmo e contemplativo dos dois.
Tudo o que se segue é inseparável deste ressentimento por não ter sido ele a agir e, com a influência do tio, Augusto dá por si a envolver-se também ele na luta clandestina, mudando o seu nome para Samuel e a sua narrativa familiar para o Minho. Daí, toda uma quantidade de cenários se percorre, desde a pesca do bacalhau à emigração portuguesa nos bidonvilles de Paris, passando pela luta pela independência das ex-colónias portuguesas e pela já referida luta anarquista contra o Estado Novo.
Pedro Vieira consegue desviar-se dos lugares-comuns armadilhados a que tamanha ambição poderia levar, e presenteia-nos com uma obra profundamente humanista e capaz de nos solidarizar com tantas vidas desfeitas. As vidas dos espoliados, daqueles que não ficam na história. Tal como não ficou o avô ausente de Pedro Vieira, desaparecido e nunca nomeado pela sua mãe e pela sua avó, o familiar perdido que inspira este "Maré Alta". Como seria este homem que existiu, mas permanecerá completamente anónimo? Qual seria a sua história? Poderia ele alguma vez ser Augusto? Na verdade, pode ser qualquer um, e essa é a beleza da ficção. Um lugar onde podemos procurar no real aquilo que a realidade nunca permitirá confirmar.
"Vicente ainda distribuiu algumas palavras no caminho de regresso, alertando os rapazes para as armadilhas do mundo e do destino, feito em grande medida pelas próprias mãos. Cuidado com as escolhas que se fazem, com os caminhos que se tomam, com as pistas que se deixam para trás e com as amarras que não nos deixam sossegar. O problema das bombas nem sempre é o estrago imediato, o sarilho é que muitos vezes trazemos os estilhaços na memória. Culpa, arrependimentos, pontas por atar. No fim, tudo se desmorona, independentemente do nosso cuidado e da nossa vaidade e das nossas intenções de peito feito. Mas podemos escolher parte do legado que fica, mesmo que seja coisa pífia nomeá-lo com essa pompa. Augusto tomava nota mental das palavras que não tinha compreendido. Encerrou o passeio convencido de que precisava de um dicionário para a vida."
Madrugada de 8 de Dezembro de 1917. O Governo da União Sagrada liderado por Afonso Costa é exonerado, transferindo-se o poder para a Junta Revolucionária presidida por Sidónio Pais. Na mesma altura, “à mercê do céu que troveja, sacudindo paredes e crenças, e da chuva que fustiga portas e janelas e mentes inquietas”, nasce Augusto, filho de Abílio e Ana. Entre a roda da História, que tudo arrasta na sua frente, e as histórias dos já citados Augusto, Abílio e Ana, mas também de Afonso e Maria e Vicente e Lucinda e Silvestre e António e Lino e todos quantos cabem num século bem medido, se levanta este “Maré Alta”, gesta dum povo que, no seu parco heroísmo, soube fazer das fraquezas forças e se foi especializando na arte da sobrevivência. À espera desse dia em que a sorte vire...
Obra de fôlego que se estende por quase meio milhar de páginas, “Maré Alta” oferece ao leitor um retrato realista do século XX português, das suas misérias e contradições firmadas em vanglórias e glórias vãs. Nas histórias duma família que se desdobra até à quarta geração, viajamos entre a instauração do Estado Novo e a adesão à CEE, espreitamos a revolta falhada dos vidreiros da Marinha Grande e a abertura do Tarrafal, envergonhamo-nos do “neutralismo” durante a II Guerra Mundial, vibramos com a campanha do General Humberto Delgado, acompanhamos a salto os surtos migratórios que tiveram Paris por destino, gritamos a tortura nos calabouços da PIDE, seguimos “para Angola e em força”, abraçamos a França nas lutas estudantis de 68, damos vivas à liberdade naquela clara madrugada, embarcamos na euforia revolucionária de PRECs e afins e recebemos com má cara os retornados.
Pedro Vieira é exímio na forma como contextualiza os vários momentos da História, enriquecendo-os com os gostos e os sons, as modas e os tiques que os caracterizam. Eles não passam, contudo, de meros palcos para a verdadeira acção, aquela que acompanha estas pessoas, ligadas entre si por laços de parentesco, num processo sucessivo de acontecimentos que, no quase anonimato das suas existências, se poderia resumir a duas palavras: Nascimento e morte. É no modo como sustenta estas vidas clandestinas, como junta as pontas dos destinos que se escoam no silêncio das palavras que ficaram por dizer, como muito ao de leve aviva os passos que se queriam sem rasto, como cruza e descruza identidades e memórias, que o autor nos oferece um fiel retrato da natureza humana naquilo que nela há de mais íntimo e obscuro, ao mesmo tempo revelando a sua faceta de romancista notável. Só pelo prazer da boa leitura, navegar nesta “Maré Alta” é, mais do que um dever, uma obrigação!
Há de tudo, como na farmácia: história social e política, romance, humor, uma boa janela para o que foram as vidas doa nossos avós e bisavós. Não lhe falta mesmo nada. Tem tudo, até iscas voadoras.
Uma escrita irrepreensível, uma narrativa trágica de proporções épicas que atravessa o séc. XX, numa conjugação perfeita da História e da história, ambas emaranhadas na sociedade portuguesa, aqui, além-mar e além-terra.
É um livro complexo, na escrita e no enredo, sabiamente intrincado, sem lugares-comuns, sem pretensiosismos, mas profundo. Apanhei-me a googlar, principalmente nos primeiros capítulos, para saber um pouco mais sobre os temas. É um gosto enorme quando leio um livro que me deixa curiosa. Pela minha idade e vivências pessoais, foi um livro que me disse muito. Estranho mesmo foi apenas ter conhecimento deste livro apenas há uns dois meses.
Sinto um enorme respeito por alguns autores de literatura contemporânea portuguesa, dos quais sou fã declarada. Pedro Vieira juntou-se à lista.
'Culpas, arrependimentos, pontas por atar. No fim, tudo se desmorona, independentemente do nosso cuidado e da nossa vaidade e das nossas intenções de peito feito.'
Uma boa descrição do que é a Portugalidade e esta coisa lusitana de ficarmos felizes com o poucochinho não obriga a que o livro o seja. Não sei se pelo volume, pela minha fase na vida, ou se pela narrativa, dei por mim à deriva nesta Maré Alta. Uma história interessante quando se liga aos momentos da história de Portugal, mas que não é mais que uma novela com alguma falta de rasgo.
Foi o primeiro livro de Pedro Vieira que li. Talvez não na melhor altura, concedo. Sei que este não vou reler, mas não excluo a hipótese de tentar outro: a escrita não me comove, mas interessa, já a narrativa... Não me convence.