O luto é mesmo estranho.
Estar de luto é diferente para toda a gente. É um buraco enorme dentro de nós, uma pessoa que se foi. Nunca mais ouvir a sua voz. Nunca mais a abraçar. Nunca mais. O tempo não volta atrás.
O luto é diferente para toda a gente.
Como é que um indivíduo que se veste de morcego para dar porrada em criminosos lida com o luto?
O Jason Todd, segundo Robin, morreu. O Joker matou-o.
Naturalmente, a cruzada do Batman continua. Até porque é essa a natureza de uma BD mensal. Não pode parar só porque uma personagem morreu. Tem que continuar a lançar capítulos ("issues"), tem que vender. Mas o luto é parar. É desistir de tudo, por uns dias, meses ou anos. O buraco não desaparece. Mas a vida continua.
Então, afinal, como é que se conjuga o luto com uma BD que tem de lançar issues todos os meses? Em que todos os capítulos têm de ter um mistério, um crime, um assassinato? E esse crime que ser resolvido pelo protagonista. Tudo isto por imposição editorial.
Batman: The Caped Crusader, vol. 2 responde a todas estas perguntas. Bem, ou mal? Não sei, porque o luto é diferente para toda a gente.
A arte neste volume é maioritariamente fornecida pelo grande Jim Aparo. É uma arte limpa, fácil de entender, sem grandes apetrechos, mas muito bem desenhada. Nos issues que são ilustrados por outrem, sentimos saudades do velho mestre, que serve a história que se conta aqui lindamente.
O escritor Jim Starlin acabou a sua “run” no vol. 1. Coube, então, a outros escritores interpretar o luto. Christopher Priest (melhor conhecido pela sua contribuição ao Black Panther) escreve aqui 1 issue e um Annual razoável, e John Byrne (que por esta altura andava a escrever as comics do Super-Homem) escreve um pequeno arc de 3 issues, The Many Death of the Batman, antes de Marv Wolfman começar a sua run. Cada um deles se vai aproximando, aos poucos, da resposta.
Será que o luto é ficar obcecado com um caso arquivado há sete anos?
Ou talvez seja acordar todas as noites com suores frios, com pesadelos do que perdemos. Ou será que o luto é morrer? Morrer várias vezes, de seguida? Até recuperarmos, e continuarmos a viver.
Se calhar, no caso do Batman, o luto é continuar a vestir-se de morcego, e dar porrada em criminosos. O luto desta personagem fictícia, e o objetivo real da DC Comics alinham-se, então: continua-se a lutar, continua-se a publicar BDs.
E no final deste livro, a pergunta muda. Deixa de ser “como é que o Batman lida com o luto?”, e passa a ser, “afinal, o Batman precisa de um Robin?”.
Depois da história “Year 3”, presente neste volume, é leitura necessária a história “A Lonely Place of Dying”, presente noutras coleções. São os meandros do departamento editorial da DC, a complicação desnecessária. Mas a vida segue.
“Batman needs a Robin”, diz Tim Drake. Se calhar é verdade. É pena essa história não estar incluída neste volume.
O luto continua. A luta também.
Leitura adicional: Batman: Turning Points issue #3, World’s Finest (1999) issue #7, Batman: A Lonely Place of Dying