Em Portugal, a ciência desenvolveu-se de forma rápida e inédita nas últimas décadas.
Temos hoje mais investigadores científicos do que nunca (e cerca de metade são mulheres).
Este livro traça um retrato vívido de quem faz investigação científica por cá. O que os motiva a ficar no país ou a partir? Como conjugam a paixão pela ciência com a vida pessoal?
Eis do que falamos quando nos referimos aos cientistas portugueses.
Com linguagem descomplicada e boa disposição, David Marçal partilha connosco algumas entrevistas a cientistas portugueses, explorando o que é ser investigador em Portugal, o seu impacto na estabilidade profissional e vida pessoal, deixando ainda bastantes dados interessantes sobre a endogamia académica, paridade de género, distribuição de bolsas, precariedade, e o processo de evolução na academia que muitas vezes não garante a doutorados seguir carreiras nos seus campos, encontrando trabalho em outras áreas, como divulgação científica (ex: o próprio David Marçal).
Para alguém que sempre questionou se valia a pena seguir carreira neste sentido, achei bem elucidativo e deu algumas luzes. É um livro que vale a pena ler para quem tem interesse em continuar na academia. Para quem não é cientista, creio ser igualmente importante para ter uma ideia do que os filhos e íntimos têm de passar, além que desmistifica um pouco a percepção perfeita em volta da profissão. Dá para entender melhor o porquê de ser cientista implicar ter uma tenda às costas, mas fiquei algo contente por saber que há ainda quem ache possível e lute para conciliar a família e a investigação.
Muito interessante (e assustador!) perceber como a investigação e o país vão andando para a frente a andar por cima da precariedade de quem realmente gosta do que faz (de outro modo não imagino por que continuaria alguém a fazer investigação neste país).
No final do livro o autor fala de que começam a delinear-se "mudanças significativas na política da ciência em Portugal" (p. 99). Alguém sabe dizer se realmente alguma coisa mudou? Ou a entrada da pandemia serviu também de desculpa para ficar tudo na mesma neste campo?
O livro Cientistas Portugueses, de David Marçal, tem uma estrutura acessível e demonstra clareza tanto para especialistas como para quem se interessa pela ciência em Portugal. Publicado em 2019, reflete a realidade dos cientistas portugueses, em que muitos dos desafios que apresenta continuam atuais, mesmo apesar de terem existido algumas mudanças trazidas pela pandemia e pelo novo contexto político, após a eleição de um governo da AD em 2024 e também em 2025, tais como a recente extinção da FCT e a redução de verbas para a investigação científica.
O livro expõe com precisão as dificuldades que nós, cientistas, enfrentamos na busca de trabalho, sobretudo depois do doutoramento. Ressalta-se a necessidade absurda de ter de migrar e a precariedade ridícula a que estamos sujeitos se quisermos fazer ciência em Portugal.
Destaco o mérito do autor por não se circunscrever apenas à crítica do financiamento. Ele também chama a atenção para a endogamia nas faculdades e institutos e para a falta de transparência nos concursos, que muitas vezes não são verdadeiramente competitivos.
O David merece reconhecimento pelo conteúdo sugestivo, pela apresentação clara dos dados estatísticos e pelos episódios reais que compartilha, que nos tocam tanto enquanto profissionais quanto enquanto cidadãos.
A escolha do autor de não encerrar o livro com uma nota positiva é pertinente: enquanto o paradigma vigente da ciência no país não mudar, não nos podemos dar ao luxo de baixar os braços. Sem dúvida, há muito trabalho pela frente.