Uma boa síntese da vida e obra de Sócrates. Nos dois primeiros capítulos, o autor se ocupa do lugar especial do ateniense na história da filosofia:
“Sócrates ocupa um lugar ímpar na história da filosofia. Por um lado, é um dos mais influentes de todos os filósofos e, por outro, um dos mais enigmáticos e menos conhecidos” (9)
Ele não poderia deixar de lado o julgamento de Sócrates:
“Sócrates, proponho eu, era visto como um religioso atípico e como um subversor da religião e da moralidade tradicionais, cuja influência corruptora havia sido espetacularmente demonstrada pelos crimes notórios de alguns de seus discípulos mais próximos” (27)
E a sua missão de vida:
“outra característica extraordinária da versão platônica da anedota do oráculo é a transformação da jornada de Sócrates, de uma busca pelo significado do que o oráculo dissera, em uma missão de vida de cuidar das almas de seus concidadãos, submetendo-os ao seu escrutínio” (30)
No capítulo 3 ele trata do chamado ‘problema socrático’, i.e., as origens do estilo e a questão das fontes. O diálogo socrático, enquanto gênero literário foi utilizado por muitos autores da Antiguidade, além de Platão e Sócrates. Só desses dois há obras completas. Dos demais restam apenas fragmentos.
Outro problemas diz respeito à distinção entre o que é de Sócrates e o que é de Platão.
No final das contas, é uma questão insolúvel:
“No tocante à representação de Sócrates feita por Platão, não se pode traçar uma linha nítida que separe o ‘Sócrates histórico’ do ‘Sócrates platônico’” (53)
De qualquer modo, o autor elenca aquilo que para ele é apenas de Platão:
“Além da (1) teoria das formas, duas outras doutrinas que podem ser razoavelmente atribuídas a Platão são as da (2) divisão tripartite da alma, que não aparece antes das obras do grupo do meio, República e Fedro, e a (3) teoria da reminiscência. Esta é plausivelmente atribuída a influências pitagóricas encontradas em sua primeira visita à Sicília, em 387 (...) Também intimamente ligada à reminiscência está a (4) teoria da reencarnação [que fecham o Fédon e A República]” (52)
No capítulo 4 ele trata do Sócrates de Platão a partir de 4 critérios:
a. Caracterização. Sócrates é caracterizado não como um professor, mas como um investigador que investiga por meio do exame crítico da opinião dos outros. (55)
b. Definição. Tentativa de definir uma virtude ou algum outro conceito ético significativo (55), mas que trás algumas problemas na obra socrática: um problema: “‘isto é um exemplo de F?’ não pode ser resolvida sem uma resposta à pergunta anterior ‘O que é F?’”
c. Ética: como se deve viver (55) e Sócrates nega ter qualquer sabedoria. Aceitação das limitações humanas (57) e Sócrates não aceita nenhum perito, ao menos não peritos humanos, em assuntos de moralidade (59)
Eixo fundamental do pensamento socrático: Para Sócrates ninguém faz o mal intencionalmente (75)
“Até aqui a teoria identifica a bondade com o atributo que garante o sucesso global na vida e identifica esse atributo, por meio da teoria motivacional descrita logo acima com o conhecimento do que é melhor para o agente” (75)
Assim, consequência importante:
“dada esse tese, o lema de que ninguém age mal intencionalmente assume a dimensão moral de que ‘ninguém age mal (ou ‘age injustamente’) intencionalmente, mas todos que agem mal o fazem involuntariamente” (76)
“Platão tornara-se consciente da incoerência do sistema da ética socrática, cujos dois preceitos centrais são que virtude é conhecimento (isto é, do bem humano) e que a virtude é o bem humano” (82)
E a solução de Platão (Na República):
“Nessa concepção (1) o bem humano é a virtude, (II) a virtude não é idêntica ao conhecimento, mas dirigida por ele, e (III) o conhecimento em questão é conhecimento do bem universal” (82)
Outra solução (Em Protágoras):
“(I) virtude é conhecimento do bem humano (como no Mênon); (II) o bem humano é uma vida agradável no todo” (83)
d. Sofistas. Confronto de Sócrates com sofistas (56)
Outro ponto importante: Método da reminiscência: “...no qual o conhecimento que a alma sempre possuiu, mas esqueceu no processo de reencarnação, é redespertado pelo processo do exame crítico” (63)
No capítulo 4, ele trata da relação entre Sócrates e os sofistas
Protágoras: “longe de as convenções frustrarem o desenvolvimento da natureza humana, é somente através das convenções que a natureza humana pode sobreviver e prosperar, no sentido de desenvolver uma civilização” (87)
Para Sócrates, “[os sofistas são perigosos] porque se definem como peritos na mais importante das questões, ‘Como se deve viver?’, sem na verdade possuir o conhecimento necessário” (88)
No capítulo 5, o autor trata de Sócrates e a filosofia subsequente, ou seja, Sócrates foi sendo reinventado e reapropriado ao longo dos séculos.
Em suma, acho que o livro cumpre aquilo que promete: ser uma introdução breve e didática da obra e vida de Sócrates.