Noite de 8 de dezembro de 1980: John Lennon é baleado e morre. Mas continua vivo. Literalmente. Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Beatles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo. Não é só isso que causa bastante estranheza. Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto Necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O Jogo de Xadrez, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A Invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu. O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.
O famoso experimento que criou o monstro de retalhos humanos e energia elétrica foi aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas. As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O Capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso. Fato é que Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop. Back in the USSR, a música que abre o mítico e provocativo Álbum Branco dos Beatles, é o ponto de partida dessa surreal aventura que marca a estreia do selo Futuro Infinito.
Através de um procedimento conhecido como "método frankestein", John Lennon é ressuscitado após seu assassinato e forçado a agir como espião. Back in the USSR é uma ficção científica surrealista, bastante apoiada no subgênero de história alternativa. É uma delícia de ler, toda a loucura, o non-sense, a reescrita de um século inteiro, a revolta e impotência do protagonista diante do absurdo ao qual é submetido. Em termos de prosa o livro se mostra muito bem acabado, uma qualidade literária que não deve nada aos escritores que tem o prestígio do grande público. Este livro deveria ser usado em sala de aula, tanto de literatura quanto de história. É um prato cheio para aulas de história bem-humoradas, mostrar aos alunos o que é real e o que é ficcional.
Em "Back in the USSR", Fábio Fernandes reescreve a História do século XX nessa ficção científica pop.
A partir da invenção de um método que permite a ressurreição, os caminhos da humanidade seguem muito diferentes do que aprendemos.
Nesse cenário acompanhamos as desventuras de John Lennon após a noite em que Mark Chapman abriu cinco novos orifícios nas suas costas.
O Método Frankenstein (batizado assim por ter sido descoberto pelo próprio Doutor F.) é patente exclusiva da empresa alemã Ewigkeit, que como toda megacorporação capitalista, não mede esforços para manter seus segredos e lucros, deixando uma trilha de corpos pelo caminho, se necessário.
A obra traz muita espionagem industrial, as conseqüências (com trema) da imortalidade na sociedade e uma discussão ética sobre a escolha de viver para sempre.
Fábio Fernandes reimagina várias obras icônicas, trocando autores, embaralhando movimentos artísticos, fundindo e separando países num quebra-cabeças imaginativo e surreal. Confesso que em certa altura do livro parei de verificar quem era o artista “original” (ou seja, da nossa realidade) das obras descritas, já que não conto com a bagagem cultural do Fábio, e devo ter perdido algumas sacadas.
Uma atração à parte é o trecho em que narra uma batalha da Grande Guerra, e a utilização pela Alemanha de soldados ressurretos em combate. A forma que o autor escolheu para descrever como os zumbis percebem o mundo é assustadora e genial.
Recomendo a leitura. “Back in the USSR” saiu pela Editora Patuá para a Coleção Futuro Infinito, que tem curadoria do Luiz Brás.
Depois de terminada a história, o Fábio faz uma lista de bandas que compuseram a “trilha sonora do livro”. PQP, que bom gosto! 😊
Foi bom que terminei este livro ao mesmo tempo em que terminei de ver a série The man in the high castle. Ambas as obras falam sobre a sobreposição de realidades, e o leitor é levado a saltar de uma realidade para outra e de novo para sua própria realidade, verificando se tudo está no mesmo lugar onde havíamos deixado. Utilizando-se de um personagem bastante controverso, e por isso mesmo muito humano, o autor nos leva a pensar acerca das loucuras que grandes corporações conseguem realizar, reavivando nosso senso de conspirações, ao passo que faz piada delas. Por meio de muitas vozes, recuperamos a nossa realidade, levemente distorcida. Obras nunca escritas, ou obras conhecidas de filósofos e artistas, levemente modificadas, criam um mundo que é o nosso, que revive nossa história, mas uma história paralela, das mais incríveis possíveis.
E se Frankenstein fosse na verdade uma biografia? Se o Dr. Victor Frankenstein tivesse de fato inventado um método para trazer pessoas de volta à vida? E se no Século XX uma empresa alemã tivesse essa patente e isso mudasse os rumos da história? E se em 1980 John Lennon tivesse sido ressuscitado após ser assassinado pelo fã revoltado?
A premissa de onde parte Fábio Fernandes é muito interessante e, como em muitas Histórias Alternativas, essas mudanças vão desencadeando uma realidade bem diferente da nossa. A ideia de ter como protagonista do livro ninguém menos que John Lennon é ousada, mas, falando do lugar de quem não conhece em profundidade as personalidades dos Beatles, me parece bem-sucedida no quesito de oferecer a Lennon uma voz verossímil.
O mesmo não pode ser dito acerca da trama. Embora haja uma história interessante ali, o livro se perde em divagações sobre as diferenças dessa realidade para a nossa. É como se a história tivesse sido bolada apenas como desculpa para ficar listando cada diferença, de escritores lançando livros com nomes e focos distintos à situação geopolítica. É interessante que tudo isso tenha sido pensado mas acho que só deveria ter ido para as páginas da história a parte mais relacionada à trama.
Apesar disso, a premissa é muito criativa e a leitura é fluida e divertida.
"Back in the USSR" do Fábio Fernandes é um ponto fora da curva na Ficção Científica e, principalmente, no subgênero de História Alternativa onde se destaca o humor aliado a metalinguagem sobre a imortalidade. O mundo alternativo que o autor construiu parte do fato que o Método de Ressurreição de Frankenstein® foi refinado, patenteado pela empresa Ewigkeit e usado em larga escala, principalmente por reis, artistas pop e magnatas perpetuam desde que ressuscitados nas primeiras horas após a morte. As mudanças políticas são no mínimo curiosas: Os EUA nunca se tornaram uma potência pois sequer chegaram a se formar enquanto a União Soviética foi desmantelada com a volta dos Romanov ao poder travando uma Guerra Fria com a República de Weimar, após a vitória da Alemanha na Grande Guerra (a 2GM não foi necessária).
Nem tudo mudou: ainda tivemos os Beatles, ao menos, até o fim dos anos 1970 e John Lennon. Ok, ele é assassinado por Mark Chapman em frente ao hotel Dakota e é ai que começa a trama. Lennon é ressuscitado contra sua vontade (ele havia deixado uma ordem de não ressuscitar) e "convidado" a fazer um show na Rússia. Passamos a acompanhar Lennon em um jogo de poder e influência entre as potências e a quase onipresente Ewigkeit (Eternidade, na língua de Marx). A trama alterna entre a segunda vida de Lennon (com alguns flashbacks) e momentos que mostram como esse mundo foi ficar assim tanto geopoliticamente quando mostra como alguns pensadores e literatos pensam sobre o Método®. Tudo isso condizido com agilidade pela escrita fluida do autor (li as quase 220 páginas em dois dias), que consegue deixar as falas naturais e deixar interessantes até as suas partes mais descritivas.
"Back in the USSR" é, como toda obra com elementos metalinguísticos, um refresco necessário para quem lê bastante porque é fácil se acostumar a convenções (e a FC tem muitas) e é preciso sempre relembrar da necessidade de pensar fora da caixa e imaginar fora dela também.