Durante "os períodos mensais", exercício violento é nocivo; bebidas geladas ou ácidas são impróprias; e tomar banho no mar, e molhar os pés em água fria, e banhos frios, são perigosos; em alturas como estas, não se deve correr riscos, e não se deve permitir, em momento algum, qualquer tipo de experimentação, caso contrário consequências graves irão, muito provavelmente, suceder.
[Da obra de Pye Henry Chavasse, em 1880, "Conselhos Para Uma Esposa Sobre A Gestão Da Sua Própria Saúde"]
Quando, no mês passado, passei a vista (coisa rara) por um anúncio de TV sobre pensos higiénicos, deparei-me (coisa ainda mais rara!) com uma pseudo mancha de sangue vermelho: chatice, já não temos sangue azul... Talvez algumas pessoas achem piada à reação exagerada que tive, mas fiquei extática com esta novidade. Tanto que a fui procurar pela internet fora indícios desta revolução (sem resultados). Ainda assim, ena pá!, finalmente reconhecemos que o sangue menstrual não é um líquido de um azul aguado e de aspeto alienígena todo festivo. Isso era muito mais decente, claro, do que a realidade ofensiva que os homens levaram longas décadas a tentar obliterar para bem do seu bom gosto e delicadeza de sentidos.
Essa mentalidade e postura de asco misógina, a mesma que fez do sangue menstrual durante décadas uma espécie de bebida gaseificada inofensiva, é a mentalidade que se tem vindo a impor na castração das liberdades femininas e seus respectivos direitos sexuais - e é a mentalidade que se explana neste livro: uma mentalidade retrógrada, patriarcal, chauvinista e amedrontada pelo poder reprodutivo da mulher; uma mentalidade, aqui, ambientada em pleno século XIX, mas nem por isso menos ativa, produtiva e repulsiva hoje em dia. A mulher, eterna Eva, deve ser castigada pela sua ousadia e reprimida para bem da humanidade:
Nada aumentará a vossa influência, e assegurará a vossa utilidade, mais do que estar em SUBJUGAÇÃO aos vossos próprios maridos.
(...)
A mulher é relutante a obedecer, enquanto o bomem é frequentemente absurdo nos seus planos e caprichoso no seu temperamento, tirânico nas suas reivindicações e degradante na sua autoridade. Mas, minhas irmãs, embora tenham razão, muita razão em reclamar, lembrem-se, é a consequência do pecado, o pecado do vosso sexo.
[William Jay]
Lendo isto, não fica difícil perceber porque desisti de acabar o livro, quando primeiro o comprei, a cerca de 70 páginas do início. Mas, isto não se fica por aqui:
Muitas das irregularidades da menstruação em mulheres solteiras, como menstruação escassa ou ausente, dolorosa ou profusa... são frequentemente curadas pelo casamento, e são, nesses casos, um sinal da Natureza para a mulher de que ela não está a levar uma vida natural.
[Do Guia e Amigo da Esposa (1900), de Stewart Warren]
E é a independência da mulher, a todos os níveis, o grande problema que afeta a maioridade dos homens vitorianos e uma grande parte dos homens contemporâneos: a possibilidade de uma mulher tomar decisões sobre a sua reprodutividade equivale, estupidamente, ao fim da humanidade. Mas claro, quem sabendo o que tem de sofrer, quer um filho? Retórica absurda, certo, mas o mais assustador é ver replicar argumentos como o que se segue em pleno século XXI (e não há como descolar este livro e a história vitoriana do momento que vivemos). Manter a mulher na ignorância e impotência sobre o seu próprio corpo é a fórmula milionária.
Quem se irritar muito com o cúmulo da hipocrisia é livre de saltar o que segue (e tudo o resto, claro). Mas, veremos o que diz um médico, após publicar no "The Medical World", uma receita patenteada de espermicida:
Mas cabe-me avisar que não devemos em circunstância alguma receitar este remédio. O conhecimento deste remédio não deve fazer parte do dominio público, pois seriam poucas as mulheres dispostas a aguentar as dores do parto se estivessem na posse do conhecimento de um remédio tão simples e no entanto tão eficaz.(...) O médico não só deve estar plenamente convencido de que é extremamente importante de um ponto de vista médico que a sua paciente não fique grávida, mas deve também consultar a sua consciência séria e longamente antes de dar permissão a si mesmo para participar neste tipo de negócios, e quando o fizer, a paciente não deve saber como ou onde obter a preparação excepto através dele.
[Em The Medical World]
Claro, o médico é que deve consultar a sua consciência e dar permissão... E, com sete mil milhões de pessoas a habitar um mundo com recursos esgotados, isto de haver falta de pessoal por aí é mesmo um problema que ainda se impõe. Algo me diz que o discurso continua codificado e quando dizemos humanidade isso ainda significa: ocidentais, brancos e ricos.
Outras pérolas de bom gosto papagueadas pelo sexo masculino acerca das mulheres (não abarcando a generalidade dos homens, mas o grosso do género na época) concerne, claro está, rotinas de beleza - como a fantástica "comida para a mama" que por meio de ventosas e sucção, e aplicada duas ou três vezes por semana, garante o desenvolvimento de "uma mama que se adequa ao gosto dos mais exigentes". Os "mais exigentes" são os "muitos homens honestamente inclinados a manter inviolados os seus votos de casamento [que] foram incitados pelas frias repulsa das suas esposas a gratificar os seus desejos nos braços de prostitutas". Palavras de Charles Hoff, não minhas. Porque uma senhora decente, claro está, não usa cá destas coisas.
E depois, óbvio, dicas sobre a conduta feminina e sua segurança em público também não podiam faltar. E neste capítulo há passagens absurdamente divertidas (mas nem por isso menos assustadoras). Esta então é daquelas infalíveis em qualquer século:
(...)Se um homem a seguir em silêncio, ela deve fingir não o ver, e ao mesmo tempo, acelerar um pouco o passo.
[Etiqueta para damas, autor anónimo]
Sim, porque estabelecer contacto com um homem estranho, mesmo que fosse um polícia que, vá, no mínimo, enxotasse o marmanjo pervertido do encalço de uma mulher, estava absolutamente fora de questão. Aliás, a "familiaridade indevida degrada uma rapariga até mesmo aos olhos do seu amado e estabelece uma base para futuros ciúmes e possivelmente homicídio."
[Da obra de Melville C. Keith, de 1890, "O Conselheiro Particular da Jovem Dama: Cuidados com o Corpo e a Mente: um Livro para Jovens Damas, para as Ajudar a Adquirir uma Vida de Pureza, Cultura Intelectual, Força Corporale Liberdade dos Vários Males e Chatices de Vida que os Costumes Colocaram sobre o Sexo"]
Nem é preciso dizer mais NADA.
Os últimos capítulos sobre saúde sexual e psicológica são simplesmente aterradores e fazem com que fique a cismar se de facto tenho sido justa com a pasmaceira das autoras vitorianas (certamente peço mais de Jane Austen do que aquilo que ela tem a possibilidade de me dar).
Resumindo, já se percebe daqui que é um livro para estômagos fortes.
Enfim, coisas da responsabilidade do século XXI, como a revisão, são também problemáticas neste livro. O trabalho é tão preguiçoso que dói. E depois, claro, acabamos com expressões como "policiais femininas" a dar cor ao português europeu.
O tom coloquial da autora também não me agrada - nisto não mudei de opinião -, a sua postura de narradora
auto-intitulada "omnisciente" e o modo como guia as leitoras (tidas como ignorantes e sensíveis) não só cansam, como requerem uma boa dose de tolerância para suportar as injeções sobre-humanas de humor por vezes demasiado corrosivo. Francamente, algumas passagens não me parecem muito conseguidas, não são humorísticas, são apenas ligeiramente ofensivas e despropositadas: "Sua Majestade pode comer o seu pão com uma espátula de jardim enferrujada se quiser, tornando assim a prática vitoriana. Por isso chupa".
Fica difícil levar um livro de história a sério quando a própria narradora não leva o seu discurso a sério. Mas, suspeito que esse mesmo é o seu objetivo.
Por fim, vir armado de uma boa capacidade de descernimento para separar os factos da ficção que a autora amalgama propositadamente para tornar o percurso mais interessante e interativo também é boa ideia.
Muito mais positiva é a forma não sanitizada e despudorada com que aborda todas as temáticas e mitos da vida feminina e, claro, a relativamente extensa bibliografia final (de época) que se oferece aos leitores como um bom ponto de partida para tirar a limpo as leituras e interpretações da autora.
Sendo norte americana, Therese Oneill foca-se sobretudo no século XIX nos Estados Unidos, mas faz frequentemente, e de forma meio confusa, a ponte entre o continente americano e o europeu. Concretamente, entre América do Norte (os estados abolicionistas, apenas) e Inglaterra, o que está longe de representar um século de costumes no mundo ocidental.
O livro tem problemas? Tem. É sensacionalista e condescendente? É pois. Mas também é uma tentativa de esclarecer a história da repressão feminina no mundo ocidental e vale a pena por isso. Não oferece uma abordagem académica e rigorosa - também não foi lido com esse objetivo -, mas é uma janela aberta para um mundo sempre possível de se vir, em parte, a replicar.