Que livro fascinante! Como é interessante a forma como o psiquiatra Augusto Cury nos transporta num périplo sobre a nossa vida interior, como exorcizar os nossos fantasmas, demónios e, fundamentalmente, como nos tornarmos atores principais nesse papel que é a nossa vida.
Utilizando exemplos de pessoas consideradas alienadas, ostracizadas socialmente por serem rotuladas como “doentes mentais”, depressivas e psicóticas tratadas comumente por psiquiatras que utilizam antidepressivos, ansiolíticos e psicotrópicos ao invés de procurarem a génese dos seus medos, receios, pânicos e terrores nas histórias das suas próprias vidas, muitas vezes conturbadas, considera estes seres humanos que, não sendo doentes, são apenas portadores de determinada sintomatologia, excluídos individual e socialmente pelo preconceito dificultando, assim, o processo de compreensão, assimilação e reintegração.
A personagem principal, o jovem Marco Polo que, no início da narrativa, surge como um estudante de medicina que, na sua primeira aula de anatomia questiona a identidade das pessoas que a turma irá dissecar, o que provocará a troça dos colegas e a indignação do professor titular, surgirá, ao longo do texto, como uma espécie de um messias da psiquiatria e da psicologia, ciências interdisciplinares que podem aliviar, cada uma com as suas competências funcionais, as mais profundas crises da psique. E, durante a preleção do anatomista, o jovem intrépido coloca a inusitada questão: “Qual o nome das pessoas que vamos dissecar?”, provocando a fúria do interlocutor que rapidamente retalia que “estes corpos não têm nome”. Mas Marco Paulo, cuja sensibilidade, torná-lo-á no mais arguto dos especialistas argumenta: “Como não têm nome? Eles não choraram, não sonharam, não amaram, não construíram uma história?”
E será através desse pressuposto que Marco Pólo, tal como o navegador veneziano do século 13, norteará todas as suas pesquisas e atividade profissional, procurando conhecer sem nunca desistir, a história de cada um, dos seus pacientes e das pessoas que fora encontrando; entre elas, um mendigo, conhecido como Falcão, pensador formidável que abriu as portas do conhecimento da alma ao jovem. Vivendo na indigência por, em determinado momento da vida lhe terem surgido surtos psicóticos que fizeram com que perdesse a família, o trabalho, a autoestima e a dignidade, Falcão superaria a si próprio através de uma vida de reflexão e de amor à natureza. Bizarro nas suas atitudes, com um coração repleto de alegria, este homem, que se tornaria no mentor filosófico e espiritual de Marco Pólo, vivia a vida segundo os seus próprios cânones tendo, como lema de vida, ”Se você não brincar com a vida, a vida zanga-se consigo”. Mas o jovem, seu pupilo, também o ajudou a juntar os cacos da sua existência e os seus diálogos consubstanciam os momentos mais marcantes deste romance.
“Fascinado pela medicina (Marco Pólo), pensava: ‘um dia, mais cedo ou mais tarde, todo o ser humano adoecerá e precisará de um médico. Ricos e miseráveis, famosos e anónimos, são iguais perante a dor e a morte. Elas são os fenómenos mais democráticos da existência’”. Por isso, o jovem muitas vezes se acercava dos seus pacientes, no intuito de conhecer as suas histórias, tentando aliviar-lhes as dores do terror da doença e da morte.
Tentando exorcizar rótulos e preconceitos utilizados pela sociedade para quem escapa do “socialmente correto”, o jovem psiquiatra travará uma luta aberta contra o isolamento ao qual esses seres humanos são, frequentemente, votados. Einstein disse uma vez que é mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um preconceito”. E é na tentativa de o destruir, demonstrando que os designados “alienados” (muitas vezes menos do que os considerados “normais) também são seres válidos e importantes para a construção do mundo social que surge a noção da necessidade de nos tornarmos autores das nossas próprias histórias. E utilizo a primeira pessoa do plural porque, todos nós, sem exceção, já passamos por algum momento por processos de dor, solidão, injustiça, incompreensão, sentimentos que devoraram a nossa sensatez, momentos em que as nossas forças e inteligência foram postas à prova, sem que vislumbrássemos a riqueza dos seus poderes transformadores no nosso crescimento psíquico, espiritual e emocional, tornando-nos seres mais livres e mais felizes.
“Houve reis que tentaram aprisionar a felicidade, com o seu poder, mas ela não se deixou prender. Multimilionários tentaram comprá-la, mas ela não se deixou vender. Famosos tentaram seduzi-la, mas ela resistiu a estrelato. Ei! Procura-me nas deceções e nas dificuldades e, principalmente, encontra-me nas coisas anonimas da existência”. E é na natureza que encontramos esse milagre. Já alguma vez olhamos para uma árvore e agradecemos-lhe a sombra que nos dá? Para uma flor, pela beleza e perfume que invade os nossos sentidos com a sua maravilhosa fragância, para o céu estrelado que nos cobre como uma manta com a sua infinita e magnânima amplitude? Se observarmos com carinho os elementos exógenos, se dermos graças por estarmos lúcidos ao ponto de os poder compreender, será que fatores endógenos exercerão efeitos tão nefastos na nossa mente?
“A felicidade não existe pronta, não é uma herança genética, não é um privilégio de uma casta ou camada social. A felicidade é uma eterna construção”. E essa construção está pejada de simplicidade. Basta reconhecermos onde está. E pode estar em muitos lugares: numa sinfonia, num afago a um gato, num abraço sentido, numa gargalhada franca, numa brincadeira de crianças … e por falar em crianças, a felicidade também está em mantermos alguns sinais pueris ou infantis, sem medos, sem preconceitos, sem nos preocuparmos que tipo de juízo de valor poderão fazer de nós. Porque as pessoas que já não possuem uma criança dentro de si, poderão tornar-se seres tristes, deprimidos, sem piada e, indubitavelmente, infelizes.
Para terminar, não resisto transcrever algo que considerei extremamente poético: “Nalguns momentos, eu dececionar-te-ei, noutros tu frustrar-me-ás, mas se tivermos coragem para reconhecer os nossos erros, habilidade para sonharmos juntos e capacidade para chorarmos e recomeçarmos de novo tantas vezes quanto forem necessárias, então o nosso amor será imortal”. Não há receitas para a felicidade, apenas reconhecer o bom senso e recriarmos a nossa história.
“A Saga de um Pensador” não consiste num livro que se poderia enquadrar na designada “literatura de autoajuda”, muito pelo contrário. Creio consistir, antes, num livro do qual todos nos deveríamos apropriar face aos seus ensinamentos, às questões levantadas, às respostas encontradas úteis todas elas em todas as fases da vida.