No fim do percurso académico, os estudantes de Medicina proferem o reconhecido Juramento de Hipócrates, no qual gritam a plenos pulmões: “Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente. (…) Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.”. Apesar de estar intrinsecamente relacionada com ars medica, os valores defendidos são transversais a todas as profissões integradas na área da saúde, cujo principal objectivo é auxiliar um ser humano num momento de sofrimento, real ou em potência, garantindo-lhe o maior bem-estar geral.
Não é de estranhar então que estes profissionais tenham contribuído para as atrocidades levadas a cabo nos campos de concentração? Focado na vida de Victor Capesius, um farmacêutico romeno, que a dado momento da sua vida assume o papel de responsável pela área farmacêutica de Auschwitz, este livro explora esse imperfeito antagonismo. Capesius poderia cingir-se à entrega de medicação e/ou ao tratamento dos pobres escravos do sistema opressivo. No entanto, a ganância e a futilidade toldaram-lhe o pensamento e a malvadez corrompeu-lhe o mínimo de ser humano que poderia comportar. Assumiu, sem ressentimento, a guarda do Zyklon B, a droga que fumigava os condenados e fazia subir um fumo negro e nauseabundo pelas chaminés, selecionava aqueles que teriam esse fim e, pasme-se quem ainda o conseguir, arrancava os dentes de ouro dos cadáveres para prolongar o crime até para lá da morte.
Neste documento histórico, fruto de uma forte e habilidosa investigação bem orquestrada, são evidenciadas várias das macabras experiências médicas levadas a cabo sem um pingo de humanidade e secretamente financiadas pelas indústrias farmacêuticas que, lucrando com tais atrocidades, o tentavam esconder para manter uma imagem de credibilidade. Tudo por uma engenharia social deturpada, numa selecção eugénica anti-Darwiniana, cujo objectivo seria incrementar a população ariana e dizimar as secundárias ou desviantes. Claro que tais crimes teriam de ser levados a um julgamento que constitui um confronto catártico da Alemanha contra o seu passado. Infelizmente, nas ludibriações do destino, muitos almejaram torná-lo numa encenação cabal, criando mentiras e congeminações em busca de um álibi perfeito, ricocheteando a culpa para outros não nomeados e violentando as vítimas com risos de escárnio.
Transmitindo um panorama global dos assuntos sanitários dos campos de concentração, na pessoa do seu farmacêutico, este livro fornece então informações amplas desde o início do regime fascista até à sua queda e às condenações que se seguiram. Não sei porque posterguei a sua leitura - mea culpa para mim por não perceber sequer a razão -, sendo uma leitura fácil e cativante pelo desconforto que provoca. Quiçá, peca nos vários nomes mencionados com os cargos a acompanhar: poderia ter sido utilizado um organigrama que condessasse toda a informação e permitisse ao leitor percepcionar melhor a máquina do Mal, ao invés de enumerações. Ainda assim, é uma obra a gravar na memória, para fazer perdurar o sentimento de culpa… para que nada do ocorrido regresse do passado para assolar um futuro incerto, nestes tempos de presente tão negros!