Superciber introduz vários temas interessantes acerca do processo atual de avanço da civilização humana perante a tecnologia, que, na história humana sempre resultou em alterações no desenvolvimento dos caminhos futuros. Aqui, ele trata de questões afetas à teoria do caos em conjunto com outros conceitos, tais como irreversibilidade, auto-organização, atratores estranhos, imprevisibilidade, estruturas dissipativas, bifurcações, reorganização, entre outros.
Entendo que, apesar de procurar demonstrar sua tese, por ser um livro pequeno, acaba por ser mais bibliográfico do que propriamente uma tese pessoal, visto que o texto está cheio de indicações de citações. Isso não vai de encontro ao seu propósito, mas impede, ao menos a mim, um aproveitamento melhor do que busca tratar. De qualquer forma, é uma obra instigante, que abre caminhos para quem deseja ir mais a fundo nos temas.
Li o livro Superciber: A civilização místico-tecnológica do século 21. Sobrevivência e ações estratégicas, de Ciro Marcondes Filho, da Paulus Editora livro este sugestão da Gra. Eu recomendo fortemente a leitura desse livro pois é uma ótima reflexão sobre os nossos dias.
Nos primeiros capítulos, da Primeira Parte, ele apresenta os pressupostos teóricos lógicos de sua teoria. Nietzche, Hegel, Hayles, Carrol são alguns filósofos e escritores que ele cita, para apresentar seus pensamentos sobre a a vida cibernética. Explica sobre como o mundo é formado por sistemas não lineares e a previsibilidade de nossos atos é então improvável. Mostra como Nietzsche anteviu o futuro artificial e cita o livro Além do bem e do mal, do filósofo alemão: "O que fazemos em sonho, fazemos acordados: inventamos e construímos as pessoas com quem lidamos - para em seguida esquecer que assim fizemos.".
Na segunda parte, os desdobramentos do continente estrutural, ele começa falando sobre jogos como Simcity, mostra sobre as psicoterapias por computador e como softwares especializados poderiam substituir humanos em determinadas ações. Chega finalmente a descrição de novos hábitos sexuais, transformados pela vida digital conectada, onde os equipamentos eletrônicos conseguem, pela primeira vez, criar uma cena em que duas ou mais pessoas trocam entre si mensagens erótico-sexuais, simulam toques e carícias, chegam ao orgasmo no campo real sem estar fisicamente próximas. Ele mostra que existe então uma sexualidade limpa... E possibilidades de diversas sexualidades, já que nem sempre quando participa de uma interação sexual é preciso se identificar. Mas que essas ações, e mesmo palavras trocadas em chats, podem trazer prazer e satisfação. Essas prática podem, portanto, bagunçar (ou redefinir) completamente o conceito de fidelidade, que passa também a valer para o virtual (identificado ou não). Essas novas formas de enxergar a sexualidade pode causar o fechamento e individualização das pessoas, além da extinção do sexo com toque entre pessoas (e fluidos) nos próximos ano, por conta da vida virtual.
No próximo capítulo ele cita Kroker e Weinstein, que aponta que a espécie humana está em extinção, vítima da supervirtualização, que o corpo já não pode reproduzir-se suficientemente rápido, já que suas energias são drenadas por uma série interminável de supervirtualizações à velocidade da luz. E na mesma cadência rítmica, as redes eletrônicas conectam cada vez mais pessoas a pessoas, corpos digitalizados abandonam seu corpo orgânico, multidões solitárias se criam. E então apresenta uma nova classe social. Ele cita: "A classe virtual, novo sujeito da ordem sócio-cibernética, não tem origem social, é produto biônico de um experimento vasto e bem-sucedido de economia eugênica, desencadeada pela mistura de tecnologia e biologia na forma pos histórica de vontade e virtualidade. Seu projeto é de envolver nações minando soberanias locais, liberando a velocidade da economia virtual da pressão dos circuit breakers locais. Destruindo os estados intervencionistas, libera o trabalho para se tornar força móvel, fungível, virtualizável. Busca também o consenso político e a deslegitimação ideológica das associações de classe que seriam defensoras nostálgicas de uma ordem econômica superada". E continua concluindo que o cibercapitalismo é o estágio mais avançado do capitalismo e a classe virtual é seu agente realizador.
No próximo capítulo ele faz uma conexão entre o computador e a televisão, extrapolando para a possibilidade de uma oferta sob demanda, virtual. (esse livro foi escrito em 2009). E fala sobre o que Arthur Kroker colocava sobre a TV, que ela executava 4 diferentes fluxos: Sacrifício - como local onde público e seus problemas descarregam seus ressentimentos: pela ridicularização humilham-se todos Disciplina - tv como processo de cura, máquina que fala da vida e não da morte, da sedução e não da coerção Vigilância - a tv faz parte da família, a vida se torna um show Explosão - como forma de reenergização pela violência E que a pessoa só pode sentir-se verdadeiramente íntima se confessar seus mais encobertos segredos diante da audiência de TV de milhões de pessoas (Meu comentário: nesse momento dá pra fazer uma conexão com o que acontece atualmente com as redes sociais e as pessoas conectadas, com milhões de espectadores).
Em seguida, Ciro nos mostra que o universo cibernético reforça em nós a supressão da realidade. Ele fala que nosso mundo parece que perde a consistência quanto mais nos voltamos as telas e lá realizamos todas as atividades sociais. Mas, talvez, o inverso é que seja verdadeiro: diante da irrealidade do mundo circundante, o reproduzimos desesperadamente nas telas, criamos reais mais reais do que o real, alimentamos a fantasia de sua existência fantasmagórica. A sociedade seria então um poderoso processo de desaparecimento, o homem livrando de si mesmo, toda a sociedade se tornando energia pura, caminhando para a Grande Virtualidade. O Projeto e Desaparecimento e de Virtualidade seria a realização mais radical do desejo metafísico de ser Deus: de não estar no lugar mas poder tudo ver. O indivíduo então pode-se apossar-se de tudo, inclusive do universo, com um sonho utópico de saúde perfeita. (Meu comentário: E isso faz muito sentido, haja visto nos visualizamos cada vez mais e nos individualizamos em nossos gostos e desejos, com nosso poder de controle) Por fim o autor coloca que todas essas utopias remetem a construção de novas formas ideológicas que são os de inteligência artificial: 1 - As Máquinas são os novos deuses 2 - As maquinas androides podem competir com os humanos superando-os 3 - O mal deve ser excluido ou o real deve ser purificado 4 - Há um passado a se corrigir e um destino a se seguir (a imortalidade e uma nova raça é possível) 5 - O virtual supera o real concreto (valorização do virtual e o sexo passa a não fazer sentido como ele é hoje) 6- Especialistas serão capazes de reformular o homem, o mundo, a história.
E você, como encara o mundo digital? Acredita que a nossa virtualização cada vez mais intensa nos isola ou nos aproxima?