Quase seis anos após a publicação de Cine privê, um dos melhores contistas brasileiros da atualidade presenteia o leitor com este marcante Jeito de matar lagartas. Ao narrar histórias do cotidiano aparentemente banais, como uma brincadeira de criança, a venda de um imóvel ou o reencontro de um jovem estudante com a antiga professora, o autor toca em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Se em seu livro anterior os protagonistas passam muitas vezes por situações extremas e respondem à altura às vicissitudes da vida, em sua nova obra as personagens são ao mesmo tempo resignadas e inquietas, o que torna o resultado ainda mais surpreendente.
Para o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, "a escrita de Antonio Carlos Viana, que acaba de completar quarenta anos de carreira literária, caracteriza-se desde o início pela concisão, uma recusa a qualquer forma de sentimentalismo, sem que isso implique indiferença ou cinismo. O distanciamento do narrador, mesmo quando (como frequentemente ocorre) a história é contada na primeira pessoa, visa acima de tudo garantir a precisão vocabular, a limpidez da sintaxe, e tem o efeito de acentuar a verossimilhança do narrado, até quando a ficcionalidade é evidente".
Ao final da leitura destas narrativas o leitor possivelmente chegará à mesma conclusão que um de seus protagonistas: o mundo se divide "entre os de coração aflito e os de maldade extrema".
Ao final da leitura destas narrativas o leitor possivelmente chegará à mesma conclusão que um de seus protagonistas: o mundo se divide “entre os de coração aflito e os de maldade extrema”.
Viana é mestre em teoria literária pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, França. Nasceu em Aracaju, onde foi professor da Universidade Federal de Sergipe. É tradutor, contista e dá aulas de redação em Aracaju. Recebeu o prêmio APCA 2009 de melhor livro de contos por Cine privê. Publicou outros livros de contos por várias editoras: Brincar de manja (Cátedra, 1974); Em pleno castigo (São Paulo, Hucitec, 1981); O meio do mundo (Libra & Libra, 1993). Pela Cia das Letras, publicou: Aberto está o inferno (2004); Cine privê (2009); Jeito de matar lagartas (2015).
Nunca fui muito fã de contos. A natureza low profile dessa forma literária sempre me fez recear ter de ler histórias rasas e insípidas. Por isso fujo deles. Por medo. Não fugi destes. E como valeu a pena! Li o livro em duas sentadas, não por pressa, mas pelo enorme prazer de imergir nos tipos humanos mais variados e, ainda assim, feitos tão familiares pela prosa concisa, cotidiana, coloquial e, ao mesmo tempo, impecável do autor. Faço esta última observação porque, estando sempre a ler livros ou textos jornalísticos "sérios", desespera-me ver traduções pavorosas, erros de concordância, conjugações mancas e outros defeitos que não deveriam provir das mãos de profissionais da palavra. Antonio Carlos Viana acerta até quando reproduz à perfeição os deslizes da linguagem falada. Um alívio, ainda mais vindo de um quase conterrâneo.
Mas não se engane: não é a gramática que faz deste um livro especial. É a imaginação poderosa do autor, que possibilita ao leitor viver tão intensamente tantas vidas em tão poucas páginas. Senti-me mais humano durante cada uma das histórias. Uma sensação quase esquecida, tão longe vai o tempo em que me permitia esse sair de mim mesmo pra sentir e ver o mundo pelos olhos de outros.
Um escritor extraordinário, certamente bem menos celebrado do que merece. Alguns dos contos desse livro são daqueles que você termina e fica pensando em como a literatura é maravilhosa, em como é fantástico que haja gente que consiga escrever sobre as misérias humanas desse jeito. O livro já começa com toda uma sequência de contos que deixam essa impressão. "Muralha da China", o primeiro, é realmente um dos melhores, com uma tensão muito bem construída do momento em que os pais de duas crianças precisam contar a uma mulher que o marido dela e seu filho morreram em um acidente de trânsito. A história é trágica, mas a realização do contista é linda.
E depois há outros contos, como "Roteiro da solidão", a triste história de uma mulher que coloca a sua casa à venda só para poder interagir com compradores, "Jeito de matar lagartas", em que o universo adolescente elabora temas como a morte e o sexo, "Amarelo Klimt", sobre um homem aparentemente solitário que decide se instalar na casa de um pintor de quem não era exatamente próximo, e mais para frente há "Professor Locarno", a belíssima história de um homem de 89 anos que já nem consegue falar e não suporta o tipo de festa de aniversário que estão lhe preparando, "Lucy in the sky", sobre uma mulher disposta adotar novas posturas de vida, o que inclui receber e dar banho em um mendigo que aparece à sua porta, e o extraordinário "Madame Viola faz escova progressiva", sobre uma senhora da "alta" que jura que o marido havia acabado de morrer em um acidente de trânsito e pensa em tudo que é preciso fazer para se "arrumar" para os repórteres... A todos esses contos eu dou 5 entusiásticas estrelas, pois são histórias que me agradaram muito.
O estilo do autor é o clássico, parece que ele inclusive deu a entender que não curte o experimentalismo pelo experimentalismo, o que considero valioso, pois vai na contramão de grande parte dos autores contemporâneos brasileiros, e certamente contribuiu para que minha impressão geral sobre o livro e o autor fosse bem positiva. É verdade que há mais menções ao sexo do que eu gostaria (dessa tendência da literatura atual ele não escapou), mas ainda considero que a leitura é uma experiência excelente sobre a miséria e a degradação existencial, a solidão e a morte.
Um dos grandes trunfos de Viana é a concisão. Outro é trazer personagens humanos e sempre tão diversos. Os melhores contos estão concentrados no início e no fim do livro.
Levei meses e meses para terminar a leitura desse livro. Comecei a lê-lo com minha mãe, mas acabei seguindo sozinho após a metade, já que as leituras haviam se tornado muito espaçadas... Acho que por outros interesses mesmo. Nada de mais. :)
O que mais gosto desse livro, sem dúvidas, é o quão cru é orgânico ele pode ser. As histórias não buscam fantasiar absolutamente nada; pelo contrário, por vezes senti certa estranheza pela honestidade e simplicidade dos personagens ao retratarem seus sentimentos e vontades.
O livro fala muito de solidão, do envelhecimento e suas nuances, do sexo em várias facetas, das crueldades da vida...
Alguns contos são mornos, outros deixam um sentimento de estranheza. Em geral, um livro bom sobre o ser humano.