Kobayashi Issa integra um grupo restrito de poetas japoneses conhecidos como «Os Quatro Grandes da Poesia Haiku», do qual fazem parte Bashô, Buson e Shikki. Analisando quantitativamente a produção de cada um deles, constata-se que Issa foi o mais prolífero, tendo escrito perto de vinte mil haikus, para além de ter ainda deixado um legado enorme sob outros formatos literários (tanka, renga, prosa poética).
Dos seus haikus, cerca de dois mil referem-se a animais. Nunca antes, no universo poético nipónico, tal fenómeno tinha acontecido. Issa será muito seguramente o escritor japonês que mais usou as espécies animais como protagonistas da escrita poética. E fê-lo com tanta maestria e encanto que hoje em dia não há, no Japão, adulto ou criança que não saiba de memória um punhado dos seus haikus.
dentro do nevoeiro três pinheiros e dois grous marido e mulher
Kobayashi Issa was a Japanese poet known for his haiku poems and journals. He is regarded as one of the four haiku masters in Japan, along with Bashō, Buson and Shiki. Reflecting the popularity and interest in Issa as man and poet, Japanese books on Issa outnumber those on Buson, and almost equal those on Bashō.
Although better known by his pen name Issa, he was born Kobayashi Yataro in 1763 on a farm in central Japan.
uma cotovia canta — lentamente os lírios começam a desabrochar
Kobayahsi Issa ---
Vi este livro pela primeira vez numa livraria em Évora, numa fase em que estava já completamente apaixonada por Bashô; e é importante referir que me senti atraída por este livro em termos estéticos — ao longo dos anos pude tirar a conclusão de que a Assírio & Alvim é das minhas editoras favoritas ,o lado puramente táctil, sensorial, é algo que marca também (mas não só. E nunca exclusivamente) a minha relação com os livros. Esta representação do gato e dos motivos vegetais, os traços delicados da pintura, são elementos que acabam por servir de invólucro perfeito para a poesia de Issa.
Os seus poemas combinam um olhar atento que abraça a Natureza (flora e animais) e jogam com elementos que tanto têm de enternecedores/divertidos quanto têm de brutais (a morte, o abandono - alguns deles reflectindo até as vivências do autor numa espécie de exercício auto-biográfico: a morte da mãe/a orfandade, a morte dos filhos, entre outros); na sua poesia temos humanos e animais existindo e ocupando o espaço ao mesmo nível, num mesmo plano de existência sem subalternidades... são poemas belos, na sua maioria, sim, mas ao fechar o livro reparo que sou mais sensível às referências sobre a mudança das estações e à forma como essas transformações agitam a vida humana e animal, esses reflexos nunca me são indiferentes... pergunto-me se será por isso que, apesar de ter gostado deste contacto com Issa (cujo nome significa, literalmente, "chávena de chá", um pormenor que adorei), senti uma tão maior e mais íntima aproximação à escrita de Bashô.
Um haiku em estado puro é aquele em que cada cena (geralmente, um verso) é contada sem artifícios de linguagem. Será possível traduzir um haiku, já que este tipo de poema é muito específico no que diz respeito à língua japonesa? Julgo que dificilmente... No entanto, não deixa de ser possível apresentar versões desses poemas noutras línguas, daí que se justifique a edição deste livro que veicula, ainda que eventualmente de forma limitada, esta forma de expressão poética.
Dos haikus que Kobayashi Issa deixou, cerca de dois mil referem-se a animais. Isto inclui os animais que imediatamente associamos a poesia (tais como pássaros no geral e outros animais domésticos), mas também outros que dificilmente pensaríamos associar-lhe (parasitas como lombrigas, pulgas ou piolhos), pelo que ler poemas cujo tema são esses invertebrados não deixe de ser um pouco caricato.
Ficam aqui alguns dos que gostei mais.
água cristalina – o enxame oscila mesmo por cima
quando regressares não te esqueças da minha casa andorinha que partes!
a chuva só cai sobre mim? – cuco
gansos deixem-se ficar! – o sofrimento está por todo o lado