Olympe de Gouges é considerada um dos personagens mais emblemáticos da Revolução Francesa. Na Paris onde reinava o Terror de Robespierre. o destino da autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” (1791) acabou sendo a guilhotina. Uma verdadeira mártir dos direitos femininos. Olympe tornou-se personagem do comovente romance histórico da italiana Maria Rosa Cutrufelli. que recria à perfeição a atmosfera da conturbada capital francesa do século XVIII. - “Convém sublinhar o talento natural da autora em expor com desenvoltura uma história altamente dramática. mantendo tons atenuados.” Corriere della Sera
Maria Rosa Cutrufelli è nata a Messina, ha studiato a Bologna e attualmente vive a Roma. Ha pubblicato otto romanzi, tre libri di viaggio, un libro per ragazzi e numerosi saggi. Fra i romanzi ricordiamo: La donna che visse per un sogno (finalista al premio Strega nel 2004), Complice il dubbio (da cui è stato tratto il film Le complici) e Il giudice delle donne (tutti pubblicati da Frassinelli). Il suo ultimo saggio è Scrivere con l’inchiostro bianco (Iacobelli). Ha curato antologie di racconti, scritto radiodrammi, collaborato a riviste e quotidiani nazionali. Ha fatto parte della redazione di “Noi Donne”, fondato e diretto la rivista “Tuttestorie” e insegnato Scrittura creativa all’Università La Sapienza di Roma. I suoi libri hanno vinto diversi premi e sono stati tradotti in una ventina di lingue.
Se a mulher tem o direito de subir ao patíbulo, também deve ter o direito de subir à tribuna. OLYMPE DE GOUGES
Olympe de Gouges Finais séc XVIII, por Alexandre Kucharski
Olympe de Gouges é uma figura, a vários níveis, admirável. Mulher de múltiplos talentos, foi dramaturga e activista política defensora dos direitos das mulheres, da abolição da escravatura e da pena de morte muito antes de qualquer destes ser um tema minimamente considerado. Os escritos que nos legou (Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã, textos políticos, panfletos, peças, correspondência...muitos disponíveis para consulta e conhecimento, muitos outros não) são valiosíssimos, filhos de uma visão ímpar, de uma argúcia pouco comum e de uma ousadia simplesmente admirável. Olympe, a quem Voltaire pedia para rever as suas peças, tem tudo para ser uma heroína de um romance biográfico como A Mulher que Viveu por um Sonho, não fosse a sua autora, Maria Rosa Cutrufelli, cometer o pequenino pecado e assumir que qualquer leitor que chegue a este livro já sabe quem de Gouges é, qual foi o seu percurso de vida e a herança que nos legou.
Sempre paguei um preço muito alto para poder dizer as palavras que devem ser ditas. No antigo regime e no novo. Fui ridicularizada, temida, odiada. Cartas anónimas, agressões à porta de casa, expedições punitivas: nada disto é novidade.
Com um começo in media res sem qualquer enquadramento histórico (na realidade, o livro só se ocupa do último ano de vida de Olympe), a autora obriga a uma pesquisa prévia sobre a sua heroína fazendo com que o leitor incorra no risco de perder algum entusiasmo, uma vez que já conhece o desfecho. Até porque, Cutrufelli não apresenta nenhum dado pouco conhecido da vida de de Gouges, tudo aquilo que aborda nesta narrativa pode ser encontrado numa entrada de Wikipédia - o que é pena - e isso acabará por perder alguns leitores quando este livro tem bastantes pontos a favor: dá voz a uma figura ainda pouco [re]conhecida; retrata uma época fulcral para a história europeia moderna; justiça um discurso longamente silenciado. Por isso mesmo, à parte algumas questões de execução, de Gouges é uma personagem que merece mais e maior destaque nos dias que correm, e A Mulher que Viveu por um Sonho compete para lhe dar esse destaque.
Narrado a várias vozes, todas elas femininas - num modelo que vem a ser seguido por outras autoras italianas contemporâneas (o que isso significa fica para quem o saiba descortinar) -, a narrativa congrega uma galeria de personagens bastante consistentes que, até certo ponto, espelham a versão feminina e não narrada de um século que consentiu numa maior convivência e presença das mulheres em meios masculinos (académicos, artísticos...) apenas para melhor a condenar e poder usá-la contra quem dela usufruiu. Esse foi o caso de de Gouges, que a um nível mais lato serviu de exemplo dos limites e consequências de ser mulher e ativista, e de aviso premonitório a todas aquelas que lhe quisessem seguir os passos:
Deixo a minha honestidade aos homens, que precisam dela, a minha alma às mulheres e o meu génio criador aos autores dramáticos, a que sem dúvida, virá a ser útil.
De Gouges, apesar de um passado ainda não totalmente esclarecido, vem a afirmar-se consecutivamente, em idade adulta, como uma mulher com muito para dizer. As suas peças (A Escravatura dos Negros - a favor da abolição da escravatura; Os Votos Forçados - comentário de teor anticlerical; A Necessidade do Divórcio - a favor da legalização do divórcio...) rapidamente fazem soar os alarmes dos sensores, numa França envolta na cegueira da revolução. A gota de água: o incentivo ao sufrágio. Numa noite, apanhada a afixar os cartazes que ela própria escreveu (As Três Urnas), de Gouges é presa:
A sala do município está cheia de homens e mulheres que se encontram nas mesmas condições que eu: detidos, mas sem auto de acusação oficial. Todos esperam, como eu, um interrogatório que os devolverá à liberdade ou os conduzirá a outros interrogatórios, a outros juízes, a outros tribunais. Somos muitos. Cem, talvez duzentos. Uma companhia compósita, senhores e senhoras de categoria, gente do povo: é a justiça republicana, que não faz distinções.
A Mulher que Viveu por um Sonho foca-se na sua vida a partir deste momento fatídico - a sua captura, prisão, sentença e execução. Condenada por defender ideias e não homens, de Gouges serviu duplamente a causa jacobina: ofereceu-lhes uma vítima e um exemplo que conseguiu, durante muito tempo ainda, refrear o potencial de revolta em defesa da igualdade de género que a revolução francesa, durante um breve momento, ainda pareceu querer oferecer:
Falou-se das propostas da minha Babichette em Paris inteira: oficinas estatais para os desempregados, distribuição das terras incultas aos camponeses, dispensários. Com que dinheiro?, perguntavam-lhe. E ela: com o imposto sobre o luxo, sobre os cavalos e as carruagens, sobre os palácios e, porque não, sobre os chapéus e os vestidos das senhoras. Estávamos em 1788... eia, tantas propostas que nem um ministro. Foi um escândalo. Uma senhora que se atrevia a sugerir...
O espírito de de Gouges, no entanto, permanece bem evidente nas páginas deste livro, em que o estudo da psicologia e das crenças desta mulher têm lugar de destaque, e isso é um elogio a Cutrufelli:
(...)faço jorrar do passado a língua da minha infância, ou escrevo, como neste momento, com um braço sobre a mesa e as costas contra as travessas lascadas de uma cadeira de pernas desengonçadas, enquanto provo com o lábio as plumas de um cálamo cor-de-leite. Plumas macias, aquecidas pela minha mão. Custou-me cara esta pena, mais o papel e o precioso tubinho de pó de tinta. A cidadã Louise! Pede somas exorbitantes, embora me venda pólvora roubada dos estaleiros nacionais que o governo está a plantar, em vez de árvores, nos jardins do Luxemburgo. Porém, de qualquer modo, é assim mesmo. A escrita é a minha tribuna, a cidadã Louise sabe disso e procura tirar proveito da situação. Eu faço subir a voz e ela faz subir o preço.
No fundo, este é um retrato conjunto de várias das mulheres que fizeram a revolução de forma ativa, passiva, consciente ou inconsciente, pública ou privada; das mulheres que sofreram o reinado de terror de Robespierre de forma particularmente cruel:
(...)é a hora da barrela. Avançamos ao longo dos corredores, um cortejo silencioso de mulheres. A água corre e as vozes, à medida que o sol sobe, sobem também. Mãos brancas e mãos grosseiras, mãos habituadas ao trabalho e mãos inexperientes afadigam-se em igual medida, a espremer, a esfregar, a enxaguar. (...) Vestidinhos de crianças, lenços, roupa interior, trapos de algodão que tingem a água de vermelho e soltam um cheiro ferroso. Os olhos baixam-se devido ao embaraço e as vozes sobem de tom, uma barreira erguida para proteger o segredo das mulheres.
Maximilien Robespierre a guilhotinar o carrasco depois de ter guilhotinado todas as outras pessoas em França. Autor desconhecido, c. 1794. Coleção privada National Library of France, Paris.
No meio do caos que ceifou vidas e dignidades, de Gouges manteve-se como um facho perpetuamente iluminado, perfeitamente consciente e disposta a ultrapassar os seus próprios limites...
Às vezes, olho os meus dedos sujos de tinta e pergunto-me: quem és tu?, tu, que pretendes dizer a franceses o que está certo e o que está errado, que te permites aconselhar procedimentos e linhas de conduta a homens da governação, a embaixadores e deputados, que inventas uma Paris com as ruas limpas e um tribunal com juízes de saias, tu, que escreves que as mulheres nascem livres e iguais aos homens por direito, quem és tu?, de onde te vêm estes sonhos loucos? E a única resposta que me ocorre é que, no fundo, não passo de um animal anfíbio, com toda a coragem que se atribui ao homem e todas as fraquezas que se imputam à mulher. (...)Acredita, meu filho, é preciso uma grande força ou um grande desespero para resistir a tanta solidão. Para aguentar as críticas do nosso sexo e o ódio do outro. O escárnio.
... e a oferecer soluções para problemas muito concretos, assentes nos ideais que tantos franceses defendiam de forma leviana:
(...) porque não haveremos nós de obtê-los (os direitos ) também? Terá de acontecer, mais cedo ou mais tarde. - Quando?- pergunto. - Quando começarmos a aplaudir a obra de outra mulher. A ser menos ingratas umas com as outras. No olhar que me vigia atentamente despontam faíscas de ironia. - São palavras de uma personagem minha. Quando a menina Chavignot as proferiu na Comédie Française, não houve uma única mulher presente na sala que batesse palmas.
De Gouges é uma alma maior que merece esta e todas as homenagens. Maiores do que a morte, as suas ideias são tão nossas contemporâneas que aflige pensar no que lhe custaram:
É aquela? A teatreira que queria levar os pretos ao palco da Comédie? A girondina que queria defender o Capeto? A viúva que se lavava das vezes por dia num bidé de prata? É aquela? A maluca que escrevia: as mulheres também nascem livres...
Longe de ser perfeito, este livro convoca uma mulher magnífica, todo um mundo de mulheres tantas vezes anónimas no decurso da história e termina numa nota melancólica, triste, mas terna que encerra uma homenagem embora não perfeitamente conseguida, interessante de conhecer.
Nada do que se passa neste cadafalso deve escapar-lhe: cada palavra, cada grito, cada suspiro é registado nos seus papéis. O último gesto. A última frase.(...) - A condenada sofria. É verdade. Sofro, Permito-me sofrer. O sofrimento afugenta o medo, não sabes, carrasco?, e, por isso, agora permito ao meu corpo sofrer, às minhas mãos, às pernas, ao pescoço, aos olhos, cada parcela de mim tem permissão de sofrer. - A condenada tremia. (...) É assim? Estou a tremer? Difícil dizê-lo, Henri Sanson, porque, na verdade, eu agora possuo dois corpos. O primeiro é este, o corpo aparente, só com a camisa a cobri-lo, inteiriçado pelo frio terrível de Novembro, os braços insensíveis devido à corda que os puxa para trás e aperta os pulsos e os corta. O outro não se vê, mas é um corpo intacto, lavado pela chuva que goteja finamente de um diamante de gelo, é um sopro que me corre por dentro, veloz como as nuvens compactas que atravessam o céu negro de Paris. Um céu de luto sobre uma cidade exausta.(...) - A condenada chorava. Sim, são lágrimas que abrem caminho por entre frios regatos de chuva, as minhas faces reconhecem-nas pela sua tépida brandura, pelo modo como correm e deslizam, consoladoras, ao longo do pescoço, por dentro da camisa, até ao externo. Choro. Porque não haveria de chorar? Eu sou uma mulher(...).Uma mulher que quis ser alguém. É pela doçura deste sonho que choro. E porque teria gostado de morrer num dia de sol, com os braços livres e o meu pequeno chapéu azul suavemente descaído para a testa.
Visada buvo įdomu, kas slypi už to dailiai pudruoto veido istorijos vadovėliuose su prierašu apie ,,Pilietės ir Moters teisių deklaracijos" autorę Olimpiją de Guž.
Muy bueno, muy interesante, y muy recomendable. El libro se escribe desde varias perspectivas y explora la mente de Olympe de Gouges y varias mujeres que viven a su alrededor o se cruzan con ella en sus últimos años de vida. Realmente una inmersión muy valiosa en la mente de un personaje tan genial e importante como es De Gouges, pero que también expone la diversidad y capacidad de otras mujeres comunes y 'ordinarias', y nos permite ponernos en su lugar, un ejercicio poco común pero muy necesario.
Impecable. Hermosamente escrita, muy bien documentada, precisa en los detalles. Destaco el recurso de contar la historia desde distintas perspectivas, y el hecho de que todas las narradoras sean mujeres.
Hay algo de cariño, de respeto profundo a De Gouges que se puede leer en cómo está construida la novela. Me conmovió y la recomendaría mil veces más.
Recomiendo mucho el libro, especialmente si sos mujer. Tiene una narrativa atrapante, sensible y emocionante. Disfruté mucho la lectura y sentí también la tristeza de su final.
Questo romanzo polifonico è scritto in maniera impeccabile, ti sembra di vivere con loro questi mesi tremendi e sofferenti. Ma alla fine ti trovi con una forza d’animo immensa
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Cautivador. Tiene personajes tan bien descritos, dotadas con una voz individual que deja entrever su personalidad, opiniones y la perspectiva propia de una situación en común, tan fácil de imaginar. Es una historia digna de ser contada y es narrada interesante y fluidamente. Llena de frases para ser citadas.