Segundo livro do compêndio mítico do Rio de Janeiro de Mussa que leio, O Trono da Rainha Jinga é superior ao A Hipótese Humana.
A mudança de narrador a cada capítulo funciona bem. Ainda assim, a concisão dificulta o interesse. Qualquer ameaça de simpatia é premiada com a troca de capítulo, personagens e narrador, os quais voltarão (ou não mais) quase como se fossem novos, dados os saltos (porém há exceções).
Embora os personagens sejam interessantes e suficientemente individuais em personalidade, opiniões e maneira de dizer as coisas, senti falta de uma hierarquia de importância entre eles bem definida. Isto é, cada narrador parece ser a origem em um plano cartesiano, e todos os demais citados sempre parecem equidistantes. Ao não dar muita importância a possíveis vilões (mesmo que meros suspeitos, dada a natureza policial do livro) ou mocinhos, a impressão é de estar conhecendo uma trama em que só há coadjuvantes. Mesmo Jinga, que aparece inicialmente com maior força, não é capaz de preencher o papel de protagonista. Como uma festa de aniversário em que os parentes e amigos foram embora antes do bolo e ficaram apenas os penetras desconhecidos do aniversariante até o fim da festa. Qual o penetra mais interessante ou misterioso? Nenhum.
Mussa escreve para quem é atento. Trabalha bem com entrelinhas, sem infantilizar o leitor. Narra aparentes meras sugestões que, muitas vezes, levam a entender o inescapável, não só o possível. Aquele que gostar do estilo e proposta, por essa razão, certamente se aproveitará de um livro que não se esgota na primeira leitura.
É interessante ver o interesse do autor (e trabalho árduo, certamente) em buscar representar (e fantasiar) a linguagem, as línguas, crenças, espiritualidade e religião africanas – assim como a relação com o cristianismo –, mas às vezes cansa. Muito do que falam os personagens, de forma um tanto complicada, seria traduzido sem perdas na própria narração. Em certos momentos chega a parecer um livro escrito originalmente em português no qual, forçosamente, partes foram traduzidas para outra língua apenas para adicionar, não sem sutil violência, uma espécie de dicionário instantâneo. Descrições, narração e diálogo volta e meia tornam-se chatos verbetes (com e sem o auxílio de notas de rodapé), quebrando o ritmo.
Finalmente, é necessário dizer que não há apenas uma surpresa na trama. Há momentos bem-humorados muito bem escritos. A Heresia de Judas e a Irmandade, bem como sua alternativa final, são reapresentadas e apresentada de forma muito interessante e clara. Ponto positivo também para os diálogos frequentemente maliciosos e irônicos.
Espero que dentre os outros três volumes os acertos deste sejam superados, assim como alguns detalhes incômodos.