"A minha alma sente-se muitas vezes magoada e também estarrecida (entre outras coisas), talvez porque a uso com exagero desaconselhável, não a escovo nem a penduro no cabide das almas, até à próxima ocasião, cuidadosamente escolhida entre as ocasiões. Uso-a como uma farda, que posso eu esperar?
Devia usar a alma como uso o pregador de esmeraldas que não tenho. Devia vesti-la, enfim, só em ocasiões em que não houvesse o menor perigo de ela se magoar, se sujar, se estarrecer, como disse. Em ocasiões de sorrisos maquinais, frases bem maquilhadas, gestos de cetim e veludo, risos de cristal, cenários intactos. Coisas de agradar às almas sensíveis. Mas eu visto-a e saio para a rua e nem sequer levo guarda-chuva. Vamos ambas para o trabalho, andamos pela rua às horas de ponta, atravessamos perto dos homenzinhos verdes-marcianos-assassinos. E pensamos no porquê daquele cego, além, e daquele velho de fato mais velho ainda, se possível, todo encolhido dentro dum raio de sol tão frio, e daquela criança que não sabe e talvez nunca venha a saber nada de nada. E ainda no porquê daquela mulher, essa ajuizada, vê-se à distância, consciente de que este não é dia nem lugar para usar a alma, e que por isso caminha sem ver o velho, nem o cego nem a criança. É bela e feliz, só vê aquilo que quer ver, não sente nada que não queira sentir. Deixou a alma pendurada entre o casaco de vison e o vestido de alta costura. Sabe-a toda.
Agora eu... Por isso chego a casa e tenho que lavar a minha alma, que a coser, que a passar a ferro. Não vai durar muito, assim tratada... Mas que hei de eu fazer?" - Crónica "Dor de Alma", da coletânea "O Homem no Arame".