Raul Brandão é porventura um dos nomes mais originais da literatura portuguesa da transição do séc. XIX para o séc. XX. No 150.º aniversário do seu nascimento, este livro pretende-se uma introdução à escrita de um dos escritores mais originais da literatura portuguesa. Impossível de arrumar numa escola ou movimento particulares, Brandão tem uma escrita muito própria e absolutamente única no panorama nacional, mas também europeu da sua época. O autor de Húmus passou pelos mais diferentes registos de escrita e em todos conseguiu impor uma identidade. Neste volume recolhem-se algumas das melhores páginas do autor, mas também textos inéditos ou nunca coligidos em livro. Sendo uma introdução a um nome reconhecido, ainda que pouco lido, das nossas letras, acrescenta-se uma introdução biográfica, mas também de contexto ao autor e à obra, e um guia de leitura que projecta o autor e obra na produção literária da sua época e da noss
Raul Germano Brandão (Foz do Douro, March 12, 1867 – Lisbon, December 5, 1930) was a Portuguese writer, journalist and military officer, notable for the realism of his literary descriptions and by the lyricism of his speech. Brandão was born in Foz do Douro, a parish of Porto, where he spent the majority of his youth. Born in a family of sailors, the ocean and the sailors were a recurrent theme in his work.
Brandão finished his secondary studies in 1891. After that, the joined the military academy, where he initiated a long career in the Ministry of War. While working in the ministry, he also worked as a journalist and published several books.
In 1896, Brandão was commissioned in Guimarães, where he would know his future wife. He married in the next year and settled in the city. Despite living in Guimarães, Brandão spent long periods in Lisbon. After retiring from the army, in 1912, Brandão initiated the most productive period of his writing career. He died on December 5, 1930, age 63, after publishing a profuse journalistic and literary work.
Published works:
1890 - Impressões e Paisagens 1896 - História de um Palhaço 1901 - O Padre 1903 - A Farsa 1906 - Os Pobres 1912 - El-Rei Junot 1914 - A Conspiração de 1817 1917 - Húmus (1917) 1919 - Memórias (vol. I) 1923 - Teatro 1923 - Os Pescadores 1925 - Memórias (vol. II) 1926 - As Ilhas Desconhecidas 1926 - A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore 1927 - Jesus Cristo em Lisboa, with Teixeira de Pascoaes 1929 - O Avejão 1930 - Portugal Pequenino, with Maria Angelina Brandão 1931 - O Pobre de Pedir 1933 - Vale de Josafat
Raul Brandão, o grande injustiçado... É me incompreensível como é que este grande autor ainda não é tão conhecido pela generalidade do público português como Pessoa, Camões ou Eça de Queirós. Talvez porque, como diz Vasco Rosa no prefácio deste livro, a sua obra não é tão «digestível» como a de outros autores. De qualquer forma, abençoada seja esta antologia de Brandão: para quem não conhece, eis a perfeita introdução, incluindo vários textos integrais; para quem já conhece, fica a conhecer uma série de inéditos e dispersos que raramente estão acessíveis e ganha uma nova perspetiva sobre os principais temas da obra deste escritor.
Vasco Rosa organiza esta antologia em 9 secções, sendo que o procurava não era salientar os melhores excertos do autor (tanto é que não existe nenhum excerto daquela que é frequentemente considerada a sua obra prima, Húmus, com a exceção de um capítulo final eliminado), mas expor os principais temas da obra de Raul Brandão. Fiz reviews de cada um dos textos integrais nas páginas correspondentes a esses livros, mas abaixo incluo também uma review de cada secção:
Longe de minha mãe e da minha terra, eu oiço ainda o rumor do mar Como o título indica, é uma recompilação de textos sobre o mar, figura sempre presente na escrita de Raul Brandão. A secção inclui inéditos, dispersos (artigos publicados em revistas, jornais, etc.) e o texto integral d'Os Pescadores - uma peregrinação pelas terras de Portugal analisando os hábitos dos seus pescadores. Uma secção cheia de estórias de homens e mulheres do mar, a que se juntam as belas descrições líricas presentes n'Os Pescadores.
A verdadeira História é a dos gritos Outra secção fantástica, onde se incluem estórias de guerra e sofrimento. Incluem-se dispersos (dos quais se destacou para mim Théroigne de Méricourt: o ódio, um texto fantástico), excertos parciais d'El-Rei Junot e d'A Conspiração de Gomes Freire, bem como o texto integral de O Gebo e a Sombra, uma peça de teatro posteriormente adaptada para cinema por Manoel de Oliveira. A peça de teatro não é das minhas obras favoritas, mas é interessante apesar de tudo.
A vida é um simulacro Foca-se esta secção na angústia existencial que, para mim, constitui a melhor faceta da obra de Brandão: textos sobre a hipocrisia da vida, sobre a natureza da vida. Inclui inéditos, dispersos, um excerto d'A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore e o texto integral d'O Avejão. Esta última é para mim, apesar de curta, outra das obras-primas de Raul Brandão, juntamente com Húmus.
Teatro, a alma descarnada das coisas Um conjunto de textos sobre teatro, incluindo inéditos, dispersos, excertos de Memórias – Três Volumes Reunidos e o texto integral d'O Doido e a Morte. Esta secção foi para mim a menos interessante, e O Doido e a Morte é sem dúvida dos textos menos empolgantes que já li deste autor.
O mundo é luz Este conjunto de textos foca-se em descrições de paisagens, nas quais Brandão dava muita atenção ao papel da luz e da cor. Além de vários dispersos e dum excerto de Portugal Pequenino, contém adicionalmente o texto integral d'As Ilhas Desconhecidas, uma espécie de sequela d'Os Pescadores onde o autor parte para os Açores e para a Madeira. Esta última é uma obra extraordinária, tal como Os Pescadores.
Alguns Tipos Textos relativos a vários personagens que o autor conheceu durante a sua vida. São na sua maioria excertos de Memórias – Três Volumes Reunidos, mas inclui também um disperso. Particularmente brilhante o texto relativo ao suicídio de Camilo Castelo Branco, duma lugubridade impressionante.
Para os filhos dos outros Uma secção composta inteiramente de inéditos recém-encontrados nos arquivos da Biblioteca Municipal do Porto. Tratam-se de textos para um livro de crianças que Brandão planeava escrever mas nunca terminou.
Fora da Humanidade Esta última secção, com um disperso e um excerto d'A Farsa, vê Raul Brandão a insurgir-se contra a miséria e o desespero dos Portugueses mais pobres, face à inacção do governo.
Esta é provavelmente a minha review mais longa de sempre e ainda assim acho que não escrevi o suficiente para descrever este livro que, além de ter um excelente autor, é enorme e tem textos para durar meses de leitura.