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A Costa dos Murmúrios

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Romance de um império de ocupação de costa, nada é atenuado ou escamoteado neste livro. Enredo e personagens arrastam consigo o significado caótico de um universo desregulado, onde o risco permanente torna os protagonistas dependentes em extremo de fortuitas coincidências.

264 pages, Paperback

First published January 1, 1988

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About the author

Lídia Jorge

80 books245 followers
LÍDIA GUERREIRO JORGE nasceu em Boliqueime, Loulé a 18 de Junho de 1946. Concluído o curso de Filologia Românica, dedicou-se ao ensino liceal (Angola, Moçambique e Lisboa). Publicou os romances O Dia dos Prodígios (1980, Prémio Ricardo Malheiros), O Cais das Merendas (1982, Prémio Literário Município de Lisboa), Notícia da Cidade Silvestre (1984, Prémio Literário Município de Lisboa), A Costa dos Murmúrios (1988), A Última Dona (1992), O Jardim Sem Limites (Prémio Bordalo, 1995), O Vale da Paixão (Prémio D. Dinis, 1998), O Vento Assobiando nas Grutas (2002, Grande Prémio do Romance e Novela da APE/DGLB), Combateremos a Sombra (2005, Prémio Charles Bisset) e A Noite das Mulheres Cantoras (2011); os livros de contos A Instrumentalina (1992), Marido e Outros Contos (1997), O Belo Adormecido (2004) e Praça de Londres (2005); a peça de teatro A Maçon (1993) e o ensaio Contrato Sentimental (2009). Os seus romances são constituídos por vários planos narrativos, onde o fantástico coexiste com o real, e os problemas sociais colectivos são postos em relevo através de figuras humanas com dimensão metafórica e mítica. Foi condecorada, pela Presidência da República, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 2005.

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Displaying 1 - 30 of 68 reviews
Profile Image for Luís.
2,380 reviews1,372 followers
April 27, 2025
Set during the colonial war, questions from the reflection on a story entitled "The Locusts" search for modes of historical truth and, consequently, of novelistic fact. In this questioning of the meanings of history and of history itself, there is a concept of time in contemporary history, composed of different times, which relativize all times, search for the "invisible muscles" that "can have an exceptional performance in the organization of historical facts ". The truth about the history of the colonial war, the discrepancies between the history of colonizers and the history of the colonized, amplifying the story of The Locusts, presents itself as an enigma that Eva Lopo tries twenty years later to unravel, remembering how she tried to scream truths that should have been, like the intimate feelings and aspirations of the characters, only murmured: the truth about the poisoning process of the natives with methyl alcohol bottles, perhaps financed by the South African Government to promote white independence in the Portuguese colonies; or the truth about the intervention of the Portuguese soldiers in the colonial war, the barbarities committed, when "nobody could indicate if it was grandiosity or pettiness the impulse of the people who beheaded the heads of the others and spat them in clubs. The Constable would have done so, the Founder much worse." Nothing retracted from the symbolic opposition of spaces to the logic of identity and dissimilarity that underlies the functionality of the pairs and the (loving) triangles of characters. Still, it confirms powerful writing in the contemporary renewal of narrative processes.
Profile Image for Katya.
485 reviews2 followers
Read
April 28, 2023
Partindo de uma narrativa intitulada Os Gafanhotos, A Costa dos Murmúrios explora as limitações da ficção e procura desfazer tudo o que é fabulação ou mito. Sim, porque a guerra colonial continua a ser um mito - não raras vezes ainda ouvimos dizer que os portugueses foram para África para abrir estradas e construir pontes, narrativa que se perpetua tal qual Os Gafanhotos, quadro puramente ficcional com que Lídia Jorge escolhe abrir o seu romance.
Em Os Gafanhotos, África é um mundo idealizado à beira de um terraço de hotel, que serve de pano de fundo para uma história de amor retorcida onde o domínio branco, marcial e masculino é total e incontestável. Mas o hotel Stella Maris é também um campo de batalha asséptico onde mulheres, crianças, famílias deslocadas do seu lar travam, à distância dos homens que combatem em terreno, as suas próprias lutas. O Stella Maris é assim a plateia de onde estes homens e mulheres, um dia, em pleno momento de festa, vêem desenrolar-se o prenúncio de uma desgraça. Rapidamente, num escalar de violência e numa aproximação de realidade, o próprio hotel se vê empurrado para ela: e o casamento que se celebra na varanda termina em morte (várias mortes: mortes anónimas de homens envenenados por álcool metílico, e uma morte muito próxima - a do noivo).
Vinte anos depois, Evita, agora viúva, agora Eva, sai desta curta narrativa para procurar a realidade dentro da ficção. Procura responder a questões que não só se relacionam com a morte do noivo, mas também com a sua condição de mulher e a realidade social durante o regime do Estado Novo.
Todavia, será a parábola dos gafanhotos, que dá o mote de abertura ao livro, que constitui o ponto principal de A Costa dos Murmúrios ao representar uma imagem metafórica que permitirá toda a leitura futura.

«Digam agora que eu não percebo, vejam se são capazes! Eu não disse que estava a caminho uma chuva de gafanhotos?(...)Vejam, é uma nuvem de gafanhotos que passa abaixo do nível superior do Stella. Como o nevoeiro nas falésias da Europa. Reparem como as luzes os ofuscam, reparem como cheira a quitina quebrada, reparem como eles volitam, afocinham e caem! Reparem, meus senhores, minhas senhoras, no movimento continuo dos gafanhotos! Ouvem o barulho das asas?»

E dentro dessa leitura, em posse desta cifra, o leitor será muitas vezes confrontado com a hipocrisia:

«Se tivéssemos tido uns blacks fortes, tesos, aguerridos, nós, os colonizadores, teríamos saído da nossa fraqueza. Eles é que são os culpados, e se lhes parecemos fortes é porque eles mesmos são extremamente fracos. Só temos de os recriminar...»

Com a história silenciada ou falseada:

(...)o altifalante deitava do avião abaixo persuasivas palavras - «Guerrilheiro, rende-te, nós somos os teus verdadeiros amigos, e a nossa pátria é só uma, a portuguesa. Pega nas tuas mulheres, nos teus bens, nos teus sobrinhos e família, teu tio, teu pai, tua mãe, e rende-te à tropa portuguesa. O português é teu amigo, o que os outros dizem são falsas panaceias..» O piloto retraçava o aperitivo, explicando como fora dificil traduzir para maconde a palavra panaceia, uma língua que só tinha vocábulos como fogo, água, cabaça, rato, chitala... Os Dakotas estavam a semear a floresta de milhares e milhares de folhetos, com dizeres apelando aos sentimentos de paz que ainda devia haver no espirito belicoso do povo maconde. Era uma chuva de prospectos pedindo aos guerrilheiros que depusessem armas e se entregassem nos postos de água e nos quartéis. Em troca, eles teriam uma palhota já feita, teriam segurança completa, escola, padre e milho. O piloto dizia que os Dakotas poderiam vir a largar várias toneladas de roupa europeia, perfumes e artigos de higiene, por cima do planalto e por toda a floresta circundante. Ah, que soberba imagem! Que lindíssima chuva de géneros, a do piloto! Como uma ratoeira que por fim desarma a tampa e cai do céu. E depois? Viria a paz.

Com a farsa:

E a malta entretanto cheia de cio pelo miúdo. Porque enfim, a malta tinha visto aquilo nascer, precisamente em cima da meia-noite, o miúdo era já a mascote da malta, e já tínhamos combinado o nome do puto, o miúdo ia ficar com a gente e haveria de se chamar Jesus Cristo. Mas o capitão lá pensou que se ia o objectivo e decidiu limpar os catorze da corda mais a grávida e mais o miúdo. Ou isso ou o objectivo. Imaginem o que era voltar a Namua e Mueda com uma corda cheia de prisioneiros, um garoto chamado Jesus Cristo e termos falho um objectivo escola de milícias já ali a cinco quilómetros de marcha!»

Com a violência sexual e psicológica como ostentação da virilidade de homens legitimados por uma cultura patriarcal e sexualmente agressiva:

Naturalmente o capitão esbofeteou a mulher. Ainda mais naturalmente porque tinha a ver com a dinâmica e a cinética a mulher ficou encostada ao ferro da varanda que separava o Stella do Índico. Com a face esbofeteada, era naturalmente cada vez mais linda. Naturalmente uma lágrima caiu por um dos seus olhos, porque o outro estava coberto por uma das muitas madeixas do farto cabelo rubro. Naturalmente o marido se aproximou dela, e a puxou para si, e ela entregou a cara, a lágrima e o cabelo, encostando tudo isso ao ombro dele, naturalmente.

Ou com a xenofobia cultural:

Tinha sido tão inteligente - dizia Helena - que havia aprendido a ligar o descapotável com o seu pé preto. Helena precisava confessar-se e dizer que era sensível a todas as pessoas da Terra em quem ela reconhecia um sopro de pensamento, como acontecia nas pessoas pretas. Ela dizia que não duvidava que tivessem alma.

Como Lídia Jorge consegue encapsular nestas poucas páginas toda uma cultura identitária moldada pelo domínio do regime e da história oficial é coisa que me ultrapassa, mas o seu talento é precisamente esse. O retrato que traça do choque cultural durante o período da colonização de Moçambique (e até à sua independência), apesar de duro é rigoroso, e a sua aposta em personagens improváveis que assumem um papel de delatores da supremacia e da história sancionada é ousada pois que o resultado é a oferta de uma contra-leitura do história oficial.

(...)quem determina a hierarquia da lâmina onde fenece a mesquinhez e se inicia a grandiosidade? De novo não havia nenhuma fronteira, ou ela era imperceptível e irrelevante e ninguém podia indicar se era grandiosidade ou mesquinhez o impulso das pessoas que degolavam as cabeças das outras e as espetavam em paus, e as agitavam em cima das habitações dos próprios degolados. Sempre assim fora. O Condestável tê-lo-ia feito, o Fundador muito pior, também os melhores heróis dos Sérvios, dos Tártaros e dos Saxões e dos Bávaros.

Dentro desta leitura existe claro um primeiro cenário romântico que não deixa de ter importância na análise social global do texto: o distanciamento da noiva narradora, agora viúva, no decurso das suas indagações é propositado e funciona como arma contra os abusos perpetrados; o desenrolar da história do casal, dentro da qual antes existia uma cumplicidade intelectual - e, de certa forma, uma castração de potencial comum, pois se o noivo não tinha meios financeiros, Evita não tinha voz no meio académico - desemboca em marasmo ao longo da narração. Estes elementos que podem até parecer menores oferecem, realmente, tantas outras chaves para descodificar um texto altamente críptico, mas absolutamente brilhante.

A escrita de Lídia Jorge une todas estas pontas e fá-lo através de uma violência narrativa pouco associada ao estereótipo feminino com o objetivo de procurar explicar que o sentido da memória não tem explicação - a memória é afetiva e não racional e por isso mesmo sensível à violência das imagens (dos sentidos). Da mesma forma, a chacina não é só um ato que habita as páginas da história, é um estado de espírito partilhado por um grupo de pessoas que vê no paternalismo e no domínio pela força a sanção das suas crenças. Por isso, a desvalorização da crueldade, dos massacres, da guerra é utilizada como ferramenta psicológica para instilar a coesão e evitar focos de discórdia dentro do grupo.

(...)ninguém falava em guerra com seriedade. O que havia ao Norte era uma revolta e a resposta que se dava era uma contra-revolta. Ou menos de que isso o que havia era banditismo, e a repressão do banditismo chamava-se contra-subversão. Não guerra. Por isso mesmo, cada operação se chamava uma guerra, cada acção dessa operação era outra guerra, e do mesmo modo se entendia, em terra livre, o posto médico, a manutenção a gerência duma messe, como várias guerras. As próprias mulheres ficavam com sua guerra, que era a gravidez, a amamentação, algum pequeno emprego pelas horas da fresca.(...)A desvalorização da palavra correspondia a uma atitude mental extremamente sábia e de intenso disfarce.

Não se pode dizer que A Costa dos Murmúrios ofereça uma leitura fácil nem sequer pacífica; é uma obra que obriga o leitor a pactuar ou a rebelar-se contra uma cultura que (ainda) é a sua; a aceitar ou escolher ignorar um passado incómodo, mitológico, reescrito vezes sem conta a favor de políticas obscuras. Mas, da mesma forma que exige muito do leitor, também lhe oferece qualquer coisa de muito valioso: o que isso é será possivelmente diferente para cada um de nós.

Por favor, evite todas as sombras. Tem-se feito um esforço enorme ao longo destes anos para que todos nós o tenhamos esquecido. Não se deve deixar passar para o futuro nem a ponta duma cópia, nem a ponta duma sombra.

Simplesmente, não há como negar que Lídia Jorge é uma escritora cujo papel nas Letras nacionais é inigualável.
Profile Image for Sofia.
1,036 reviews129 followers
October 26, 2017
"Os lenços cada vez mais pequenos acenando, desfraldadas diante de ninguém e de nada, lembravam-me a partida de todas as vidas desprendendo-se do seu último cais, sem hipótese de regresso,a caminho do absurdo do fim. Não era aquele um sentimento de guerra?"
Penso que este é um daqueles livros que se ama ou se odeia. A maneira como a história é contada é bastante estranha e confesso que detestei a primeira metade. Na segunda já consegui sentir algum interesse, o que me permitiu terminar o livro.
Parafraseando os soldados do último capítulo: "tanta merda por uma história de cornos".
Profile Image for Sonia Gomes.
343 reviews117 followers
October 17, 2011
With a flick of a pen, Lidia Jorge, transports you to the battlefield of the colonial war in Mozambique, where she and her husband, a Portuguese soldier lived for six years.
‘A Costa dos Murmúrios’ seems to be an echo of those terrible years of sadness, frustration and most of all of disillusionment. Narrated in a dead pan voice of Evita, we are taken back to Mozambique, to a war which did not help anyone, a war that destroyed a country and turned ‘normal’ men into inhuman beings.
But let’s get back to the hauntingly beautiful book, ‘A Costa dos Murmúrios’, let Evita narrate her strange tale of life as the wife of a soldier fighting a war so far away from home, in surroundings totally alien to him, a war that had nothing romantic about it, as had those battles fought in the arena of the Second World war.
Evita, full of love and hope as any young bride should be, travels to Mozambique to marry her college sweetheart Luis, now a soldier posted in Mozambique fighting the Colonial War.
The wedding held at the Stella Maris hotel, where the Officers are billeted, is very good, all the guests have a lovely time, food and champagne flow; the highlight of the evening is when the Commandant graces the occasion and as a mark of respect to Luis dances with the bride. As on any honeymoon, things are good, lots of laughter, lots of sex. But although Evita does not want to admit it even to herself, she does notice subtle changes in her Luis, why does he worship the Commandant, who struts around in fine muslin shirts, a scar on his chest to be seen and envied? Or why does Luis get so angry when reminded of his days at the University which she, Evita, had shared with him with so much joy? Why does he act so strange in their bedroom recreating ambushes, jumping out of the cupboard, playing cat and mouse games? So amusing really. But the worst thing, something that leaves her utterly bewildered and to some extent sad, is his utter disdain for his beloved Mathematics, small things no doubt, Evita the new bride ignores all this but…..come on now, no cause for alarm, it is their honeymoon and most importantly it is her beloved Luis that we are talking about.
There are other strange happenings too, in the place where they are billeted, some days ago huge numbers of Blacks had died of Methyl Alcohol poisoning, but everyone had said, ‘You know how these Blacks are, crazy, plain crazy for Alcohol, they will do anything for a drink’ ‘Did you see any Whites dying? Did you see any Whites dying of Methyl Alcohol poisoning’ ‘No chance, after all we are not like those Blacks, we have superior intelligence, animals they are, plain animals’. And truly so many Blacks had died, that they were carried away in dumpers and dumped in mass graves. The Officer’s wives at the Stella Maris crowded the railings watching the movement of the dumpers carrying the dead bodies of those stupid, animalesque, Blacks who will do anything for a drop of alcohol. Chattering, laughing, preening swinging their well ironed hair from shoulder to shoulder, the ladies truly a gay bunch of lovely women shared in the unusual excitement of dead people being carried away in dumpers, even if strictly speaking Blacks cannot be termed as people.
And then one fine day….. the brave Portuguese soldiers, prepare to vanquish those Blacks, rout them forever from their territory, from their Mozambique, a total decimation of Blacks, it would be an All-White Victory…..
The battalion moves to the front, after all since times immemorial men have fought battles to protect their territory, the women as always stay at home, are left alone at the Hotel Stella Maris. The women do what women are best equipped to do; they wait for their brave men to come home from War, of victory they have no doubt. Meanwhile there is always something to do, hair to be ironed and straightened, clothes to be given to the washerwoman, children if any, to be looked after. Gossip about distorted fragments of War, reaching very infrequently to strike the walls of the Hotel Stella Maris, but never fear, one thing they are very, very, sure about is that it will be an All-White Victory with total annihilation of the Blacks. They know it, they have heard it so often, there are no doubts about it at all, an All-White Victory it will be with total decimation of the Blacks.
And what does Evita do amongst this gaggle of ladies, Evita too waits, leads a serene life, walks on the seashore, swimming in the beautiful warm waters, conversation with the other ladies.
Waiting can be pleasant when you wait for your loved one…..
And then one fine day, whilst swimming lazily, she finds a bottle, a bottle in the ocean; could it have a message for her? Strangely it did, the bottle of wine encased in straw, tasted of Methyl Alcohol. It strikes Evita, sadly realization dawns, Evita now is sure, the blacks had not been drinking Methyl Alcohol, the wine they had been drinking had been poisoned.
A dash to the local newspaper yields no results, the reporters are tired, they have no time for controversial stories, or so it seems to Evita. It is then that Evita befriends the Commandant's wife, Helena, a lady she never really had time for, a lady who lives alone in a bungalow.
Their friendship progresses, and then Helena, shows Evita things which make her flesh crawl, her heart stop, her mind reel with disgust and disbelief, her beloved Luis, her mathematician husband whose only preoccupation had been Mathematics, is a man who kills Blacks for pleasure with no remorse, just sheer unadulterated pleasure. Pictures of Luis atop a straw hut, machamba, the head of a Black skewered on to a lance, Luis setting fire to straw huts with women and children inside, Luis shooting off the cloaca of hens with extreme accuracy. Isn’t he now called Luis Galex?
The photographs are proof of their loyalty to the White Regime; an All White Supremacy that would rule Mozambique after the Blacks had been decimated.
And then the battalion returns, their men return………..no, no, not victorious, not covered with laurels as imagined, but well and truly beaten.
Luis, the destroyer of the Blacks is a totally dejected, crushed, hollow figure who has nothing to live for, dreams of an All-White-Supremacy well and truly shattered.
Now for some cleaning up, mopping up of all the evidence, the Commandant and Luis, obliterate all evidence, burn their dreams and those incriminating photographs of their efforts to exterminate the Blacks, out with that desire and dream of an all White Supremacy.
Destroy those huge barrels of Methyl Alcohol, who will understand that the black scum were not people but vermin to be eliminated at any cost. Did anyone force those Blacks to drink that wine? Vermin that they were, they lapped it, brain dead illiterates, who could call such vermin humans, pity we could not wipe the entire population of scum, make it a white country
And then, Luis comes to know that Evita has taken up a lover, much like his beloved Commandant had behaved, when Helena had taken up a lover, Luis goes in search of the lover, he wants to crush this lover, salvage some pride, be a Man once again, retrieve some part of his lost soul, but the lover forewarned, escapes and the sad and empty thing that Luis has turned, commits suicide.
Eva or Evita, who had come to Mozambique in search of her beloved Luis, ready to live a life with him, finds nothing but disillusionment, terrible loneliness and wonderment at how things could have gone so wrong.
And Luis, when did he change from that intense Mathematician into a killing machine, when did he change into Luis Galex?
Yes, the Officers wives lead pathetic and lonely lives, with nothing to do, nowhere to go. In their little capsule, Stella Maris, they exist for the time that their husbands will return, and they will be a part of the White Supremacy. Of course, they deserve to be rewarded for their sacrifices; they deserve to benefit from the spoils of war.
Profile Image for Carolina.
166 reviews40 followers
July 8, 2015
É raro que aquilo a que somos obrigados nos encante da mesma forma que aquilo que encontramos no exercício pleno do nosso livre-arbítrio. Porém, nos meus anos de estudante universitária tive a oportunidade de ser encontrada por um conjunto considerável de textos que, com a orientação de excelentes professores, me mudaram a mim e às minhas matrizes de pensamento.

A Costa dos Murmúrios é um destes casos – até agora não o tinha lido na íntegra (porque há sempre tanto que nos ocupe nos anos de universidade), mas a memória da sua ironia mantinha-se palpável e quase com existência física no meu catálogo mental. Finalmente, tentando colmatar a falha de uma leitura incompleta, dirigi-me à biblioteca e trouxe este livro para casa.

É ainda melhor do que me lembrava. Se a linguagem de Lídia Jorge fosse um objeto, seria uma faca longa e fina, de traços delicados mas extremamente eficientes. E se a minha imagem é gasta (há dias assim), as de Lídia Jorge nunca o são. A simbologia estende-se sobre a narrativa como uma renda perfeita, por entre a qual sobressai um fundo escuro e sinistro que, na sua brutalidade, revela a verdade da Guerra Colonial, e também a verdade violenta de qualquer guerra.

O capítulo inicial “Os Gafanhotos” é tão descaradamente irónico que, com o que fica por dizer, constitui um dos textos mais memoráveis que já li. O ridículo pleno aí exposto vai marcar o compasso para o sobrante da narrativa. É a cifra a que vai ser dirigido o restante livro, sob a forma de lupa social implacável.

Apesar de o livro se debruçar sobre a guerra, esta permanece como um acontecimento à distância, mediado por relatos, fotografias, notícias e alterações comportamentais dos envolvidos. Esta não é a história dos soldados que regressam com as meias rotas até aos tornozelos – é a história das mulheres prisioneiras de uma espera, não Penélopes mas Evitas e Helenas de Tróia. Elas podem tornar-se uma ou outra, dependendo se se conseguem manter inteiras, donas de si, da sua voz e desejo sexual, ou se perdem na categoria de bem comercial, abandonando-se aos caprichos de um ego tornado ultra-masculino (conforme a normatividade social) pela guerra.

Deste modo, é nas leituras da sexualidade e violência enquanto elementos equiparáveis que este texto mais brilha. É na luz desta irmandade que as mulheres se tornam vítimas irrecuperáveis da guerra –

Como de costume, temo que esta review não consiga cobrir sequer um ínfimo da infinidade contida nestas 260 páginas. Nunca haverá tinta que chegue para decifrar as grandes e pequenas violências despoletadas por uma guerra. Resta-nos ler e olhar mais longe. A vida existe para além d’"Os Gafanhotos". Desafio-vos a procurá-la.
Profile Image for Marta Clemente.
755 reviews19 followers
April 30, 2024
Não sei porque é que tinha desistido deste livro... Tentei lê-lo aqui há uns anos e achei que não se entendia nada, e agora peguei-lhe e gostei imenso!
Como passei parte do mês com a temática 25 de Abril / Estado Novo, apeteceu-me tentar novamente este "A Costa dos murmúrios".
Realmente não é o livro mais fácil de ler, assim à primeira vista, mas está tão bem escrito! Foi mesmo um gosto lê-lo!
Conta-nos uma visão menos conhecida da guerra colonial: a das mulheres dos oficiais. A nossa protagonista, Eva, vai para Moçambique para casar com Luís, o seu noivo matemático que agora é alferes.
Encontra um homem mudado e uma realidade muito diferente daquela que esperava e que estava habituada.
Já que estou de férias, e com tempo, complementei a leitura com o filme homónimo que tem umas paisagens belíssimas!
Foi uma excelente experiência!
Profile Image for Fotis Ips.
107 reviews23 followers
August 22, 2021
Η Λίντια Ζορζ σε αυτό το βιβλίο δίνει φωνή σε μία γυναίκα, που με φόντο τους πολέμους στις πορτογαλικές αποικίες της Αφρικής, μας δίνει μία ολοκληρωμένη εικόνα για τα περιστατικά και κυρίως για την ρατσιστική στάση των πορτογάλων.

Με μία μαγική και ευφάνταστη αφήγηση, γραφή λυρική, παρομοιώσεις που σχηματίζουν όλο εικόνες και συναισθήματα, το βιβλίο μας ταξιδεύει και μας συγκινεί ταυτοχρόνως με τις απόψεις των γυναικών των στρατιωτικών για τα γεγονότα. Όλα ξεκινούν όταν κατά την διάρκεια αρραβώνων σε ένα ξενοδοχείο που έχουν επιτάξει οι Πορτογάλοι, η θάλασσα αρχίζει να ξεβράζει σώματα μαύρων ανθρώπων.

Αν κάτι σε κερδίζει στο βιβλίο αυτό από την πρώτη στιγμή, είναι αναμφίβολα η γραφή και η αφήγηση. Παρότι απαιτητικές, η συγγραφέας είναι μια πραγματική λογοτέχνιδα, πού με σπουδαίους χειρισμούς, καταφέρνει και πλάθει χαρακτήρες που αντικατοπτρίζουν τη σημερινή κοινωνία, ο αναγνώστης γίνεται μέρος και κάπως έτσι η ανάγνωση γίνεται μεθυστική. Σε όλα αυτά προστίθεται και το πολεμικό κομμάτι, που αποτελεί προσωπικά αδυναμία στη λογοτεχνία λόγω περιεχομένου, με αποτέλεσμα οι φράσεις να καρφώνονται στο μυαλό.

Σπουδαίο βιβλίο!
Profile Image for Eric Piotrowski.
Author 10 books19 followers
July 29, 2007
This is one of the most difficult books I've ever read, but also one of the most fascinating. History, narrative deconstruction, time, violence, love -- the neuroses of the world encapsulated into a magnificent but woefully underappreciated novel.
Profile Image for António Conceição.
Author 3 books10 followers
June 10, 2018
No feminino, constitui aquele que, até agora, é provavelmente o melhor livro escrito sobre a guerra colonial. No feminino e no masculino.
Profile Image for tiago..
465 reviews135 followers
March 23, 2024
O problema é que em tempos me apaixonei por um rapaz inquieto à procura duma harmonia matemática, e hoje estou esperando por um homem que degola gente e a espeta num pau.

A Costa dos Murmúrios segue Evita, uma jovem mulher na Beira colonial, vivendo os fervorosos anos da guerra da independência moçambicana. Acomodada e confortável, filha predileta da alta sociedade portuguesa, Evita muda-se para África para casar com o marido, um alferes que combate na guerra - Luís. Evita, que os anos tornaram Eva, parte da leitura de um conto, todo dourado da aura gloriosa de um império colonial, para recordar os eventos do seu passado e o tempo que passou em Moçambique. Lentamente, o dourado vai descascando, revela-se como a propaganda que é. A história de Evita é a história de uma bolha e de como Evita progressivamente, quase inevitavelmente, a vai rebentando - e do que, nesse processo, descobre não só sobre o bem camuflado carácter do seu noivo, mas também sobre a verdade podre que esconde o verniz estalado da vida colonial.

É, portanto, uma história sobre racismo e colonialismo, ainda que desde a perspetiva do colonizador - mas também do machismo que tantas vezes vai de mão dada com eles. O seu marido, que conheceu como matemático aspirante a superar Évariste Galois, brutaliza-se pela guerra, faz-se um homem agressivo, violento, que idolatra o seu capitão Forza Leal. A relação que este mantém com a sua mulher, a intrigante Helena (de Tróia, assim a chamam), é uma de manipulação, de dominação para ele e de opressão para Helena, mulher idealizada mas melancólica, dada a uma vida solitária e infeliz. Evita rapidamente vê o seu futuro espelhado naquela relação, o seu marido feito à imagem do brutal capitão e Moçambique feito à imagem de Helena de Tróia: espezinhado, oprimido, submetido a um estranho feitiço em que a linguagem do opressor se fez carne e osso com que se auto-mutilar.

Lídia Jorge tem uma escrita densa mas longe de ser entediante, combinando uma trama de mistério intrigante e cativante com uma linguagem metafórica e críptica, que se sente como um mistério. Combine-se isto com um tema interessante e uma ideia bem executada, e tem-se um livro que poucos autores contemporâneos portugueses conseguiriam escrever.
Profile Image for Marisa Martins.
329 reviews9 followers
March 13, 2013
Estamos em África, nos princípios dos anos 70 e com a guerra colonial como pano de fundo. No centro da trama, estão dois casais, Eva Lopo e o alferes Luís Alex, e Helena de Tróia e marido Capitão Forza Leal. Cabe à primeira a responsabilidade de narrar as suas histórias. Quando os maridos eram destacados para partir em missões que os obrigavam a deslocar-se para o mato, o Hotel Stella Maris tornava-se na residência temporária das esposas. E é aí que Lídia Jorge tece a vida de um grupo de pessoas peculiares que tentam sobreviver num continente em guerra e, acima de tudo, num continente onde reina a incerteza no amanhã.

"África é amarela, minha senhora – disse o comandante, apertando pelo carpo a mão de Evita – "As pessoas têm de África ideias loucas. As pessoas pensam, minha senhora, que África é uma floresta virgem, impenetrável, onde um leão come um preto, um preto come um rato assado, o rato come as colheitas verdes, e tudo é verde e preto. Mas é falso, minha senhora, África, como terá oportunidade de ver, é amarela. Amarela-clara, da cor do whisky!"

Enquanto escrevo esta review, tento decidir se gostei ou não da leitura. Ainda não sei e está cada vez mais complicado. A história é estranha ou pelo menos eu achei-a estranha.
Gosto de ler sobre África e gosto ainda mais de ler sobre a África doutros tempos. O choque cultural e a forma de vida fascinam-me.

A escrita é, sem dúvida, a mais valia do livro. O enredo dos personagens não cativou-me e talvez seja essa a razão que faz com que seja complicado ter uma opinião sobre este livro. Terei de ler outro livro da Lídia, antes de colocá-la totalmente de lado.
Profile Image for Joana.
120 reviews9 followers
March 13, 2013
Sendo uma autora tão apreciada e tratando de um tema que me agrada (Guerra Colonial), estava com bastantes expectativas. Só que o livro é estranho, não que a escrita seja complicada ou o enredo demasiado confuso, mas é simplesmente estranho, acho que não tenho outra palavra para o descrever. De resto, lê-se bem, a escrita é boa, simpatizei com a personagem principal, as coisas resolveram-se, não ficaram muitas pontas soltas. Enfim, não consigo decidir se gostei ou não, pois, por um motivo que não consigo explicar, o livro é esquisito, sem ser mau.
Profile Image for Colin.
1,693 reviews1 follower
November 4, 2017
Este texto era para ser uma opinião sobre um livro mas acabou por se tornar uma dupla-opinião, sobre um livro e um filme. A razão para esta decisão vai se revelar em breve.

Comecei a ler “A Costa Dos Murmúrios” de Lídia Jorge no inicio de Outubro, mas custou-me muito entender o enredo. O livro desenrola-se em Moçambique, no principio dos anos setenta, durante a guerra colonial e tem a ver com o horror inerente a um sistema daquele género, baseado em violência e arrogância que envenena as vidas das pessoas assim como o álcool metílico envenenou as pessoas que beberam o vinho logo do início do livro.

Entendi cenas, sim, diálogos e parágrafos, mas é escrito num estilo muito literário que me faz lembrar os romances de Graham Greene e de Joseph Conrad. Por isso, não consegui entender o enredo inteiro. Ainda por cima, Lídia Jorge utiliza muitas palavras desconhecidas. O meu dicionário ficou sempre perto de mim. Porém, às vezes, até o dicionário não chegou. Por exemplo, havia uma palavra “mainata” que não conhecia. Não a encontrei no dicionário, e a minha mulher não sabia o significado. Hum, uma mulher deu nomes às mainatas e mainatos. Os nomes eram nomes de vinhos. Um deles, Mateus Rosé, morreu. Perguntei ao Google.

Exmo Google

O que é que é uma mainata por favor?

Obrigadissimo

Colin

O Google respondeu com imagens de pássaros pretos que se chamam “mynah” em inglês. Falam ainda melhor do que os papagaios. Boa. Durante o resto do livro, imaginei estes pássaros de estimação lá em casa.

Quando cheguei ao fim, decidi ver o filme para que pudesse ter certeza do que é que tinha acabado de ler. Imediatamente, vi o meu erro. Um(a) mainato/a não é um pássaro, mas sim um empregado doméstico. Talvez seja uma palavra especifica do ultramar, e só significa um empregado negro. Não sei. Senti-me ridículo por ter feito um erro tão estúpido!

Há outros aspectos do filme e do livro que me deixaram confuso. Por exemplo, ainda não entendo o relacionamento entre a escritora e a protagonista, Evita. A Autora escreveu o papel dela no primeiro capitulo do livro mas não percebi exactamente o que é que ela queria dizer. Gostei do livro mas estou muito contente por ter visto o filme também porque ajudou-me muito a entender a história.
Profile Image for Laura F. Madeira.
75 reviews
March 19, 2025
O cenário é Moçambique, Moçambique colonial da década de 70, apresentando um retrato feminino dos derradeiros anos da guerra colonial, das incongruências, da desolação, das desigualdades, da violência e do silêncio, ou deverei dizer antes, dos murmúrios? A guerra, em si, é apenas o pano de fundo, não a ação do enredo. No enredo, são as consequências quotidianas da guerra que se exploram e que se ironizam.

Queria muito escrever que este livro me arrebatou a alma, mas não consigo. Não consigo, apesar de me ter deliciado com a poesia narrativa de Lídia Jorge. No entanto, perdi-me na cronologia, perdi-me entre a realidade da ficção e a ficção da ficção, perdi-me e perdi o fio condutor do romance.

Opinião completa:
https://queirosiana.blogs.sapo.pt/a-c...
Profile Image for Inês  Fonseca.
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August 1, 2024
Parece uma história escrita num acanac escutista, em que o chefe mandou os lobitos jogarem aquele jogo de adicionar frases aleatórias até se obter uma narrativa.
Quando eu me sentia vibrar, e estava realmente interessada, vinha um parágrafo novo. Fiquei sem perceber quem era o narrador; que relação mantinha com as personagens; qual era a importância dos noivos e de Evita (quem caralhos afinal era Evita?).
Único ponto positivo: de vez em quando um lobito mandou um bitaite de jeito e formou frases bem concebidas. O resto, foi montado a cola e cuspo, como metade das tendas escutistas.
Profile Image for José.
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April 16, 2024
Um bonito livro que demora a entranhar. O formato é algo estonteante - a seguir á curta entrada d"Os Gafanhotos" segue-se a explicação de uma das personagens desse conto - Evita, que era Eva Lopo. Ao longo das páginas, temos em exposição a guerra colonial, as opressões do cotidiano, a mais plena banalidade do mal, que teimava em explicitar-se ou sublimar-se consoante a necessidade. Evita era casada com um alferes, antigo estudante de matemática que parte para uma ação de terreno no norte moçambicano, e Evita fica; é daí que parte toda a história, mas não é por aí que a história se fica. Não achei fantasticamente bem escrito mas a história é viciante e o enredo e cenários montados por Lídia Jorge são difíceis de largar.
Profile Image for Helena.
20 reviews6 followers
January 28, 2019
Mestria.
Não há muito mais que consiga dizer para me referir a este livro.
Emocionante, repleto de crítica social, com empatia pelas idiossincrasias de determinadas personagens, oferece um retrato brilhante sobre o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique.
Vi descrições da minha avó, do meu avô, dos seus amigos e amigas, do que eles próprios me descreveram que era a realidade vivida. No caso deles, sem o olhar sagaz e crítico que a distância e o espírito de Lídia Jorge nos apresentam.

A forma narrativa incomum em que está escrito é uma das suas maiores riquezas. Remete-nos para a eterna questão da escrita da história: o que se conta e o que não se conta, como se conta, o que se omite, o que se reformula, o que se nega. Quem decide o que se conta e como. E aqui, além de tudo o mais, é uma mulher que assume o lugar de fala, a (anti-)heroína Eva Lopo.
4 reviews1 follower
April 30, 2013
Li este livro num fim-de-semana, sem pressas, para apreciar o estilo, por vezes, quase poético. Gostei do retrato do colonialismo, da descrição de África dos anos setenta, da maneira como Lídia Jorge descreve a guerra, cruel para com os colonizadores e os colonizados. Mas, o que me atraiu mais foi a personagem de Eva Lopo e a forma de ela lidar com as memórias. Vale a pena ler este retrato de uma fase conturbada da história Portugal e das, então, colónias.
Profile Image for Ana Marinho.
603 reviews31 followers
August 18, 2025
Para mim, este foi dos livros mais difíceis de ler. Até hoje, foram raras as vezes em que me senti assim a ler um livro: incomodada, desconfortável e perdida. Senti mesmo dificuldade em conseguir perceber todas as metáforas e todas as mensagens.

Não nego que é um bom livro de uma grande autora, mas sinto que ou se adora ou se detesta. Infelizmente, não resultou comigo. Com mais de metade do livro lido, fui perdendo o ritmo e a vontade de pegar nele e sinto que isso fez com que perdesse a minha ligação e compreensão com a narrativa.

"A Costa dos Murmúrios" centra-se na história de Eva Lopo, uma jovem que, nos últimos anos da guerra colonial em Moçambique, viaja para a cidade de Lourenço Marques (atual Maputo) para se casar com um oficial do exército português, Luís. No entanto, o que deveria ser um casamento idílico transforma-se numa experiência de crescente desilusão e choque com a realidade brutal da guerra e da sociedade colonial.

Tenho consciência de que este não é apenas um romance sobre a guerra colonial portuguesa; é uma obra que disseca a complexidade da condição humana face a um cenário de violência, alienação e desintegração moral.

Lídia Jorge constrói uma narrativa poderosa, usando a história de Eva Lopo como uma lente através da qual somos forçados a confrontar as feridas abertas do passado colonial de Portugal.

A autora tem a admirável capacidade de capturar a atmosfera de "fim de império", onde a aparente normalidade da vida social esconde uma podridão profunda e crescente.

Num ambiente junto ao mar, com uma costa à qual deveríamos associar a tranquilidade das ondas, surgem os "murmúrios". Estes são os segredos, os tabus e as verdades inconvenientes que a sociedade colonial tenta silenciar, mas que ecoam persistentemente, assombrando as personagens e o leitor.

A personagem de Eva tem um enorme crescimento. Inicialmente ingénua e cheia de expectativas românticas, ela é gradualmente transformada pelo que vê e vive. O reflexo de uma geração traumatizada e forçada a crescer pela guerra colonial.

A sua jornada é uma dolorosa tomada de consciência, uma desconstrução do mito da "guerra justa" e do papel do "herói" colonial.

O seu casamento com Luís, que deveria ser um porto seguro, torna-se uma metáfora para a falência da própria relação de Portugal com as suas colónias: uma união que se desintegra sob o peso da mentira e da violência.

Já na segunda parte do livro, ao apresentar diferentes perspetivas e "vozes" que se sobrepõem e contradizem a de Eva, Lídia Jorge questiona a própria natureza da verdade e da memória.

A realidade torna-se fragmentada, e o leitor é convidado a ser um detetive, montando as peças de um puzzle moral e histórico. Acreditem, não é fácil.

Honestamente, acho que "A Costa dos Murmúrios" é um livro corajoso, mas muito complexo.

É um livro que, não só pelo tema, mas mesmo pelo estilo de escrita, nos incomoda profundamente.

Acredito que para a autora tenha sido extremamente difícil escrever sobre um período histórico tão complexo e doloroso.

É um testemunho do poder da literatura para iluminar o que a história oficial tantas vezes tenta esconder.
Profile Image for Andrea Neves António.
249 reviews1 follower
July 10, 2023
A narrativa, que decorre na primeira e terceira pessoa, passa pela guerra colonial, pelas pessoas que compartilham esse espaço e tempo e mesmo essa memória, a memória de Eva Lopo. Como ela refere: "Evita era eu".
Seguindo a natureza das recordações, o relato é fragmentado, emotivo, prende-se a pormenores e é frequentemente confuso.
A desesperança da guerra, a degradação que causa aos que dela não podem escapar, a violência as relações entre os militares, as suas famílias e a população fazem parte desta partilha, baseada também em factos verídicos.
Esta escrita não linear, cheia de simbolismo, metáforas, reflexões e acções enlaçadas tanto me faz ficar suspensa na beleza da narrativa, transportada para esse mundo ficcional, como me angustia no receio de não compreender as subtilezas da história, de não apreender a mensagem...
Profile Image for Bruno Durão.
15 reviews
January 27, 2022
“Os cometas com os seus rabos sinistros, amarelos passavam e passavam, murmurando. Quando passavam mais de perto, parávamos para os ouvirmos fazendo as nossas verdes figas. Assim, libertados à luz das esmeraldas…”
Profile Image for clara.
105 reviews1 follower
October 3, 2022
3,5. (Je l’ai lu pour mon cours de litté lusophone) Il sera sûrement intéressant à étudier, car il est très dense, beaucoup de sous-textes, de moments qui se répondent en écho dans le texte.. une construction néanmoins intéressante malgré une plume parfois lourde!! le contenu n’en reste pas moins très bouleversant, j’ai versé plusieurs larmes, certains passages sont très violents. Hâte d’en apprendre et de comprendre davantage sur le bouquin.
Profile Image for Adriana Manita.
5 reviews
August 4, 2025
meu deus, demorou demasiado tempo para ler pelo estilo ser tao não coerente e os times skips às vezes confusos. vê-se claramente que foi uma das primeiras obras dela e ainda está a tentar encontrar o seu estilo, MAS shout out Lídia Jorge, feminista anti-fascista e anti-racista!!!!!!
Profile Image for Wenjing Fan.
774 reviews7 followers
August 29, 2025
#全球作家阅读计划# 之葡萄牙。有一定阅读门槛的一本书,故事背景是葡萄牙殖民莫桑比克,在殖民地发生的故事。由仿照男性作家笔调的短篇《蝗虫》和二十年后女主的自述构成。《蝗虫》既是后人解读历史时候创造的单一叙事,又是男性视角下以胜利者的角度对战争的叙述;而《绿蝗》则是女性亲历者带着女性视角的解读,复杂、纠缠、真相不明。黑人是怎么死的?新郎是怎么死的?海伦娜有什么故事?这些未定的真相、可能的真相,和真相背后复杂的真实,都让追求确定性的我读起来不那么习惯,也希望再读一遍。也许需要避雷:文中有一些性描写,但个人认为作者努力地艺术处理了,非猎奇描写。
Profile Image for Nanou.
241 reviews5 followers
November 26, 2013
Le rivage des murmures, c’est une même histoire racontée de deux façons différentes. D’abord, une nouvelle de quelques dizaines de pages, Les sauterelles, qui met en scène une jeune femme, Evita, fraîchement arrivée au Mozambique, encore colonie portugaise, pour épouser Luis Alex, sous-lieutenant qui effectue son service militaire. C’est la soirée de leur mariage qui se déroule sur la terrasse de l’hôtel Stella Maria, au milieu de la bonne société locale, représentée par les colons et les militaires. Ces derniers doivent bientôt rejoindre une zone de combats près de Mueda et Luis Alex fera partie de l’expédition. Au matin qui suit leur nuit de noce, Evita et Luis sont réveillés par le manège incessant de camions-bennes venus récupérer des corps, charriés par le fleuve et qui viennent s’échouer sur la côte de l’Océan Indien. Au début, nul ne comprend ce qui se passe et les esprits s’agitent. Puis, on apprend qu’un stock de bidons d’éthanol a été dérobé sur un bateau et que les locaux ont bu cet alcool, s’empoisonnant en masse. L’intérêt des occidentaux retombe alors comme un soufflé, jusqu’à ce que le cadavre d’un homme blanc apparaisse au milieu des noirs. Un reporter photographe, certain de dénicher un sujet qui intéressera ses lecteurs, veut prendre des photos de cet homme blanc et Luis Alex est chargé de l’en empêcher. Il part à sa poursuite, alors qu’un banc de sauterelles s’abat sur la ville, noyant tout sous une nuée verte. Un coup de feu retentit, le jeune sous-lieutenant ne revient pas, son corps est retrouvé quelques heures plus tard, un trou au milieu du front. L’enquête rapide de l’armée conclura à un suicide.

Vingt ans plus tard, Eva Lopo, qui ne se fait plus appeler Evita, lit la nouvelle, fait part de ses commentaires à l’auteur et explique ce qui s’est réellement passé. Elle raconte l’ambiance lourde et poisseuse de la ville, le changement de caractère que la vie militaire a provoqué chez Luis Alex. Dans la vie civile, Luis était un jeune mathématicien, rêvant uniquement de résoudre des équations à plusieurs inconnues qui avaient mis en échec Evariste Gallois. Au retour des missions auxquelles il participe, il n’est plus le même. Evita, qui s’est liée avec la jeune femme du capitaine, découvre des photos qui montrent les exactions pratiquées par les soldats sur les autochtones, mettant à jour les réalités du conflit entre les autorités militaires portugaises et les populations locales, les enjeux de cette guerre coloniale qui ne s’avoue pas.

J’ai bien aimé la construction de ce roman, très originale. La succession de deux visions des évènements, et la présence de la même femme, à deux âges de sa vie, apportent une perspective très intéressante. Dans la nouvelle, c’est la vision des Portugais colonisateurs qui s’exprime, en parallèle à la découverte d’un pays par une jeune femme sensible et naïve. Dans la suite du roman, à côté de la révélation d’épisodes terribles, c’est aussi la vie des femmes de soldats qui est évoquée, elles qui attendent leurs hommes pendant qu’ils sont en mission, et qui doivent s’adapter à leurs changements d’humeur et aux conséquences des horreurs qu’ils ont vécues.
La langue de Lídia Jorge est très évocatrice, décrivant aussi bien les sensations et les sentiments de ses personnages que les couleurs et les odeurs du Mozambique.
Profile Image for Leonardo.
781 reviews45 followers
April 15, 2024
La historia del colonialismo portugués en África es un referente poco conocido en la América Latina hispanoparlante (algo sabemos, pero no lo suficiente, del colonialismo portugués en Brasil). La publicación de una nueva traducción de este clásico contemporáneo de la literatura portuguesa por parte de Elefanta del Sur es una excelente introducción a un panorama literario y cultural con el que no solemos estar familiarizados. La costa de los murmullos nos recuerda que el imperialismo y el colonialismo no son fenómenos relegados a un pasado épico y distante y que, aún en la década de 1960, los colonos portugueses en Mozambique soñaban con instaurar un "país de blancos", inspirado por el régimen del apartheid sudafricano. La inteligencia y contribución del la novela de Jorge es que recrea los conflictos y la brutalidad de los últimos años antes de la independencia de Mozambique, no a través de la recreación de los conflictos entre los militares portugueses y los guerrilleros africanos, sino a través de las esposas de dichos militares y como la guerra y la opresión en contra de los mozambiqueños se ven reflejadas en la represión y violencia doméstica que estás experimentan. Más aún, la estructura misma de la novela cuestiona la memoria histórica y socava la idea de un relato único. El libro abre con "Los saltamontes", un cuento con una estructura lineal y un aire romántico sobre la noche de bodas de una joven pareja. Sin embargo, a partir del siguiente capítulo, la novia del cuento establece un diálogo con el autor del cuento, deconstruyendo su narrativa, paulatinamente revelando detalles (cada vez más angustiantes y escabrosos) y ofreciendo un panorama polifónico de una realidad brutal que el cuento ha intentado sublimar o pasar por alto. En suma, La costa de los murmullos es una novela que combina de manera magistral una trama apasionante con una estructura compleja y un trasfondo apabullante.
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Profile Image for Fatima Noronha.
57 reviews2 followers
September 27, 2024
Não sei o que aconteceu, mas a minha avaliação anterior desapareceu misteriosamente. Por isso, vou tentar de novo.
Perdoem-me a heresia, mas não consigo dar mais de 3 a este livro que está para mim como os filmes de Manuel de Oliveira...zzzzzz. E tal como Manuel de Oliveira sabe do seu ofício, que é filmar, também Lídia Jorge sabe e muito bem do seu, que é escrever, apresentando, sem qualquer dúvida, uma grande mestria da língua. O problema é que nos coloca perante uma prosa cheia de introspeções, deambulações intercortadas na memória de uma África de um tempo distante, mas que afinal corresponde a um período bastante curto no passado. No meio de tanta reflexão e meditação da Eva (Evita ou sei lá quem) perdi constantemente o sentido da narrativa, do rumo dos personagens e nem sempre senti que tivesse retomado o fio da história. Compreendo que a autora queira emular precisamente uma memória que reteve dos acontecimentos dramáticos (memórias que normalmente são esfarrapadas, difusas e descontínuas), mas a mim não me convenceu. Senti-me como no tempo em que tive de ler as Viagens na Minha Terra do Almeida Garret e que quase dormia nas partes em que o escritor descrevia à exaustão lugares, pessoas, sensações, acontecimentos e nada mais acontecia na narrativa, era só escrever para mostrar que sabia escrever e foi uma seca ler aquilo. Infelizmente tive uma sensação parecida com a Costa dos Murmúrios e com tanta interiorização, revisitação da memória, e introspeção. No meio disto tudo, o horror da guerra colonial ficou também ele meio perdido. Penitenciei-me para acabar este livro, mas ainda bem que o fiz porque o melhor resumo possível veio no último capítulo pela voz dos soldados acabados de regressar de uma ignóbil missão em Cabo Delgado: «Tanta merda por uma história de cornos»!
Profile Image for R.
201 reviews
June 22, 2014
Set in one of Portugal's old colonies, and during the rebelions which led to its independence, this book starts with the depiction of an event for which at first we aren't able to understand are its origins.
In the next chapters, we discover that the first chapter is in fact a book which describes that event in a metaphorical way.
Troughout the book the main character explains the full context, motives and characters associated with the event and with its conclusion.
A powerfull story which didn't grasp me quite as much as I'd expect mostly because of the way it's structured.
Altough the language and story aren't complex, the narrative structure made me feel lost at some times, thus breaking (for me at least) the flow of the reading and that is mainly the reason of my two-star rating.
Profile Image for Rodrigo.
29 reviews
May 10, 2013
Eu gostei até gostei mas, na minha singela opinião, tem um valor lúdico muitíssimo maior que o seu valor literário. Com uma escrita bonita e um sentido narrativo bastante coerente, tem a capacidade de nos ensinar mais (e de uma forma bastante descontraída) sobre as Guerras Coloniais, proporcionando uns momentos interessantes ao leitor. No entanto, e não desfazendo das suas qualidades, não foi um livro de que gostasse particularmente, talvez pelo tema que estava a ser a descrito não ser, de todo, dos meus temas de eleição. Foi, mesmo assim, uma boa e descontraída leitura, que recomendo, em especial a quem esteja interessado no tema! 2.5*.
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