Breve arrazoado sobre o livro “A Selva”, de Ferreira de Castro.
Felipe Barros Oquendo
16 de março de 2014
“A Selva” é o mais famoso livro do prolífico autor português Ferreira de Castro, e com justiça. Trata-se de um romance dotado de muitos elementos autobiográficos, tirados da passagem do autor pelo Brasil, mais precisamente os quatro anos que trabalhou no seringal “Paraíso”, às margens do Rio Madeira.
O livro - nos conta o próprio autor no prefácio - nasceu da necessidade de Ferreira de Castro enfrentar esse passado que preferia esquecer mas que, lançado ao olvido, acabaria por encrispar raízes à sua alma e, como o sem-número de plantas parasitas que descreve no romance, subjugá-la com neuroses:
“eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida.”
É então “A Selva”, mais que um livro, um processo de cura espiritual e um ritual pelo qual o escritor português prendeu com selo mágico, em folhas de papel, os demônios desses quatro anos passados na selva amazônica.
Ferreira de Castro transmutou seu eu adolescente – passou dos 12 aos 16 na selva - em Alberto, um português de vinte e poucos anos que vive em Belém do Pará, na casa de um tio comerciante, rico e mesquinho, chamado Tio Macedo. Alberto não está no Brasil por sua vontade, senão porque, tendo se alevantado contra o governo republicano em nome de ideais monarquistas, viu-se forçado a fugir de Portugal para não sofrer represálias, fuga esta que cortou pelo meio seus estudos de Direito.
Alberto é uma personalidade fleumática, de compleição magra, mas com um ego leonino, bastante inflado, que leva sua imaginação quase sempre a lançar julgamentos nietzcheanos sobre os outros e a pintar-lhe um quadro em que é um advogado bem sucedido, brilhando, como ator, no centro do palco judiciário, fonte de glórias e fama.
Incapaz de manter-se empregado no comércio, em razão da crise da borracha, Alberto passara a ser um peso para seu Tio Macedo, que por sua parte pouco fazia para esconder o fardo em que se lhe transformara o sobrinho. Num dia, ao dar pousada a Balbino, um capataz do seringal Paraíso, vê a chance ansiada de se livrar do sobrinho, vendendo-lhe como possibilidade de enriquecimento a ida ao seringal que, no fundo, sabia ser caminho perdição. Alberto, sem acreditar um minuto nas postiças boas intenções do tio, aceita de bom grado o convite para por fim àquela situação humilhante.
A partir daí, com o embarque no Justo Chermont, começa a florescer o estilo enxuto e inventivo de Ferreira de Castro. É que, surpreendentemente, o autor, ao contrário de todos os escritores brasileiros, não se ufana da floresta nem canta em poesia suas supostas glórias. Pelo contrário, Ferreira de Castro, sem usar de linguagem rebuscada e com estilo quase espartano, encontra metáforas inusitadas para o rio e a floresta, pondo-as nas reflexões de Alberto, apreendendo a Amazônia por meio de posia em prosa; poesia simbólica, por vezes, e metafísica:
“Os olhos inexperientes não encontravam referência nessas margens aparentemente sempre iguais, na vegetação que se repetia, senão na espécie, no entrançado, despersonalizando o indivíduo em prol do conjunto, único que ali se impunha. Cada curva se parecia com outra curva, cada recta com a recta antecedente; onde não existia barraca ou cidade, o espírito quedava-se, perplexo, a formular a pergunta íntima: ‘já passei aqui ou é a primeira vez que passo aqui?’”
Apesar de se demorar em descrições da floresta, dos rios, da terceira classe, da primeira, das pequenas cidades ribeirinhas, de Manaus e das clareiras abertas em luta contra a floresta viva, tais descrições, via de regra, não são cansativas, sempre sendo oportuna e equilibradamente cortadas por diálogos e mudanças de cena. Na verdade, a própria descrição é coalhada de belas e inventivas metáforas, expressando invariavelmente espanto e horror, contrariando aquela serenidade decorrente da suposta beleza cantada por poetas que nunca puseram seus pés em terra amazonense: a poesia em prosa de Ferreira de Castro vem a substituir essas descrições românticas e insinceras de escritores passados.
Alberto é o protagonista, sem dúvida; mas não tem um antagonista definido, ao menos não um homem, servindo a selva, em sua atividade agressiva aos desígnios humanos, como um antagonista de fato, não só aos anseios de Alberto, como a de todas as pessoas ali presentes. E mesmo quando elas parecem integradas à floresta, já estão na verdade despersonalizadas pela opressão daquela natureza de gênesis:
“Atreito à vida sedentária, o caboclo não conhecia as ambições que agitavam os outros homens (...). A mata era sua. A terra enorme pertencia-lhe, senão de direito, por moral, por ancestralidade, da foz dos grandes rios às cabeceiras longínquas. Mas ele não a cultivava e quase desconhecia o sentimento da posse. Generoso na sua pobreza, magnífico na humildade, entregava esse solo fecundo, pletórico de riquezas, à voracidade dos estranhos - e deixava-se ficar pachorrento e sempre paupérrimo, a ver decorrer, indiferentemente, o friso dos séculos.”
Com efeito, carregado por estímulos externos até o seringal Paraíso, onde foi parar por uma indolência semelhante à do caboclo, Alberto passa a ter, finalmente, um objetivo claro em sua vida: sair de lá, custe o que custar.
Para Alberto, a selva amazônica tem sempre um caráter sombrio, ora depressivo, ora assustador. Quando o pânico de morrer por doença, picada de inseto ou de cobra, ou pelo ataque dos parintintins cessa na alma de Alberto, logo o espírito da floresta ameaça a integridade de sua alma, como na cena em que Ferreira de Castro dá à monotonia de um dia de chuva um caráter totalmente original:
“Nem cara colada à vidraça, em longas horas invernosas, sofreria a compacta monotonia da selva sob a chuva.
Sempre, sempre, os mesmos caules escorrentes, as mesmas frondes rumorejantes, o solo apardaçado, as gotas - milhões e, para além, o obstáculo multiforme que não deixava passar os olhos. Vinha de cima, de baixo, de todos os desvãos, de todos os rincões, a melancolia que a tudo traspassava. Agora, a selva não fabricava terror; não tinha expectativa, não se encontrava em suspensão; desvanecera-se, por momentos, o seu mistério e não se interceptavam já estranhos conciliábulos. Era um monstro que estava ali, pesado, inofensivo, a bramir um sofrimento que não despertava piedade. E, contudo, nunca, como então, sugeria a vontade de morrer.”
Para sobreviver a esse convite de sereia à entrega na morte, Alberto se apega às relações individuais que consegue formar naquela terra erma e hostil. Na única vez em que admite uma qualidade positiva na selva, esta não lhe serve para redimi-la:
“Sim, a selva era bela, majestosa, mesmo deslumbrante. E era rica - havia de ser fantasticamente rica também, mas um dia - um dia que vinha ainda longe. Entretanto, toda a sua grandeza esmagaria, toda a sua deslumbrância seria volúpia do primeiro contacto, logo desvanecida pela monotonia”.
Se por vezes a secura do estilo e a angústia que transpira do romance aproximam Ferreira de Castro de Graciliano Ramos, a sutileza das cenas humanas, sobretudo as que deixam vislumbrar qualidades superiores nas personagens, o aproxima mais de outro escritor com estilo limpo, sem bem que menos lacônico: José Geraldo Vieira.
Esta foi a impressão que tive ao ler algumas das passagens comoventes do livro, como a despedida de Alberto e Firmino, no último dia de seringueiro do protagonista, que dá azo a uma expressão primorosa daquela conversa muda e paralela que sempre povoa o constrangimento e tristeza das vésperas de despedidas dolorosas:
“A prendê-lo em aros sentimentais, só existia ali aquele Firmino de vulto esguio, rosto comprido, olhos e dentes brancos, o cabelo encaracolado e nos lábios um traço amargo de tristeza.
Acabaram por não aludir mais à nova situação que os separava agora. E falavam muito, muito, com receio de que o silêncio dissesse o que eles pretendiam calar. Firmino repetia, conscientemente, episódios já conhecidos de Alberto e ouvia, com risos exagerados, as anedotas que ele narrava do seu tempo de estudante.
Por fim, metido na mala o que andava à solta, apagaram o farol e deitaram-se. Fingiram adormecer logo, mas quer um, quer outro, sentia que o companheiro estava acordado e a pensar na mesma coisa. A mudez ia gritando todas as palavras do drama que eles tentavam subjugar.”.
Se Ferreira de Castro brilha nas descrições da selva, mais respondeu o meu gosto às cenas humanas, sobretudo as descrições que o narrador onisciente dá dos estados humanos mais deprimentes, como na febre de inveja, intriga e maledicência que toma conta da porca pessoa de Caetano, ao descobrir – fortuna das fortunas! – que Alberto não vinha fazendo um bom trabalho na rota de seringueiras de Todos-os-santos:
“Contente, tornou à barraca, montou e de novo se pôs a galopar, finalmente de regresso. No igarapé-assu, mais uma vez o compadre Nazário, ouvindo o rumor do cavalo, veio à porta, em oferta de comes e bebes, mas ele passou a toda a brida, acenando, de longe, escusas e agradecimentos. As murmurações de Balbino, que Binda lhe revelara, impeliam-no e picavam-no que nem serpentes, esvaziando muito a fundo o bolsilho venenoso.”
Outros tormentos mesquinhos são expostos em toda sua crueza pelas metáforas precisas de Ferreira de Castro, como o despeito de Juca Tristão com relação à estima que os seringueiros tinham pela grande figura de Guerreiro, o guarda-livros; o servilismo e perfídia de Elias; e, como não poderia deixar de ser, as duas cenas em que Alberto, picado fundo pela falta de mulher e de carinhos, vai espiar Dona Yayá tomando banho e, mais tarde, faz proposta indecente a Nhá Vitória. Em todos estes momentos, Ferreira de Castro coloca-se entre a ironia fina e blasé de Machado de Assis e a angústia nitscheana de Gracilano Ramos, demonstrando-se, em todo caso, um arguto observador da psiquê humana.
Como já dito, “A Selva” é um livro que resultou de um processo quase mágico de libertação de neuroses e demônios que pertubavam a mente do autor desde sua saída, a bordo do Sapucaia, daquele seringal ironicamente chamado de “Paraíso”.
Em consequência desse procedimento, colaboraram, intensamente, a memória e a imaginação do autor, mesclando-se de forma a se confundirem no produto final. Assim, a força das personagens e das situações advém, de um lado, da verdade daquelas memórias, fixadas pela observação de um adolescente sensível e inteligente, e, de outro, do encaixe de algumas personagens e cenas na moldura de grandes obras da literatura universal.
A viagem de subida do rio Madeira, as impressões da floresta, o grotesco do “brabo” morto por decapitação, a ameaça constante dos índios hostis e sempre camuflados na selva, são como páginas perdidas do livro “No Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. A melancolia da selva, que enerva e neurotiza, levando à quasi-loucura o Agostinho, é a mesma que, no seio da África, levou o Coronel Kurtz a tornar-se um cacique apocalíptico de uma tribo que não conhecia a civilização, rebelando-se contra a Marinha Britânica. O negro Tiago, que ao cabo de contas, superando totalmente as expectativas, tem função primordial no desfecho do livro, é uma figura calibanesca, disforme e consciente de sua própria disformidade, submissa; mas que, ao contrário do servo de Próspero, é livre – liberdade esta que amou a ponto de, livrando-se do arcano literário que o regia, matar, e por defesa de princípio abstrato, o seu Próspero, Juca Tristão, amo e senhor da máquina infernal que, incrementando dívidas com preços monopolistas sobre artigos comestíveis e de primeira necessidade, aumentava cada vez mais os laços de servidão de cada um daqueles seringueiros que vieram alimentar com grandes esperanças a garganta sôfrega da floresta.
Não só alusões literárias exsurgem na obra. A demoníaca cena do baile no barracão do caboclo Lourenço é, praticamente, uma descrição narrativa de um “capricho” de Goya, daqueles mais tenebrosos:
“Ora a um, ora a outro, as cinco mulheres davam um pouco do seu contacto e do seu calor perturbante. Dilatavam-se os olhos masculinos, os lábios entumesciam-se, a lascívia ia, em onda alta, abrangendo todos os elementos e emprestando a alguns dos rostos súbita espressão de loucura. De quando em quando, uma sombra deslizava na grande sombra da noite, despia-se à beira do lago e atirava-se à água. O banho era o poder moderador. Voltavam com o cabelo a escorrer, gotas nas orelhas, as pestanas molhadas, e enfiavam de novo para a alpendrada – para a tentação, para o abismo. Várias monstruosidades estavam ali em hipótese, em íntima admissão, e seriam imediatas realidades se a frouxa luz do farol se apagasse de vez.
(...)
A fumarada do pavio enegrecera a chaminé do farol, tornando a luz ainda mais débil e mais lúgubre. Era um baile de misteriosos vultos que se efectuava agora na vasta alpendrada. Os homens que dançavam, adivinhavam-se mais pelo lume do cigarro, queimando a obscuridade, do que se viam.”.
Desde que tomou o navio “Justo Chermont”, Alberto deparou-se, o tempo todo, com tentações à descenção de padrões morais e espirituais. Temeu ficar como Firmino que, apesar de essencialmente bom, havia gastado ali todas as suas esperanças; temeu acabar como Agostinho, entregando-se à bestialidade e enfermo pela carência de um contato com mulher; repudiou também a subserviência do negro Tiago e as pequenas mesquinharias de cada um dos habitantes do seringal, com louvável exceção do Sr. Guerreiro, de quem se aproximou como o beduíno de um oásis.
Ferreira de Castro, não tendo encontrado nada de positivo na memória, tampouco conseguiu fazer sua imaginação vislumbrar qualquer situação em que Alberto poderia ter se salvado naquela selva hostil: a única salvação veio de fora, inesperadamente, com a notícia da anistia dada pelo governo republicano de Portugal e a posterior ajuda vinda de sua mãe. De fato, Alberto só começa a melhorar quando a prisão verde é subitamente partida por um raio de esperança vindo do mundo que, naquela altura, se lhe tornara totalmente esquecido. A aproximação da redenção final e a certeza que a acompanhava fez Alberto sintetizar em sua alma os muitos elementos contraditórios que nela se agitavam quando saiu de Belém. A arrogância pueril e o ódio à igualdade foram substituídos por um senso da igualdade radical de todos os homens, da possibilidade de cada destino infeliz ter sido o seu e pelo senso de caridade que tal reflexão acompanha, sem que Alberto se entregasse com isso a igualitarismos fúteis: apenas, o senso de hierarquia material e política que o monarquismo lhe havia insuflado se transmuta em sensibilidade moral para identificar, no cipoal de emoções que regem o convívio humano, os melhores caráteres e, dentre os piores, seus momentos de luminosidade.
Alberto, como poucos personagens da literatura luso-brasileira, passa por efetiva transformação de um estado pueril para uma madureza de homem feito. O processo de iniciação e sua conclusão exitosa deve-o Ferreira de Castro à selva, donde caracterizar este livro como um tributo à “majestade verde, soberba e enigmática” que, se muito o assombrou, também lhe deu forças e coragem para o resto da vida.
Por fim, não se pode deixar de comentar o final, com o incêndio que a tudo consome e mata o amo, engolfando a Ilha e Próspero num só ato rebelde de Calibã. Ao contrário do que ocorre no livro “O Ateneu”, o incêndio não surge como um deus ex machina para pôr um fecho abrutpo à estória. Pelo contrário, a rebeldia de Tiago, embora, confesso, um tanto surpreendente pela motivação idealista, não carece de verossimilhança e decorre das ações empreendidas por Juca Tristão contra os seringueiros evadidos. Mas a cena passa a ter todo o seu sentido quando, fechando o círculo, voltamos ao prefácio: o livro que lemos é um livro mágico, e o fogo que o consome ao fim é o símbolo da purificação do autor com relação a seus demônios passados. Ferreira de Castro é, então, ao mesmo tempo, Guerreiro, condenando a fúria assassina, e Tiago, o agente irracional que destroi tudo em nome da liberdade – a liberdade que o autor finalmente encontrou ao selar, com mágica, o livro “A Selva”.