Em reportagem consagrada, Daniela Arbex denuncia um dos maiores genocídios do Brasil, no hospital Colônia, em Minas Gerais
No Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, conhecido apenas por Colônia, ocorreu uma das maiores barbáries da história do Brasil. O centro recebia diariamente, além de pacientes com diagnóstico de doença mental, homossexuais, prostitutas, epiléticos, mães solteiras, meninas problemáticas, mulheres engravidadas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, mendigos, alcoólatras, melancólicos, tímidos e todo tipo de gente considerada fora dos padrões sociais.
Essas pessoas foram maltratadas e mortas com o consentimento do Estado, médicos, funcionários e sociedade. Apesar das denúncias feitas a partir da década de 1960, mais de 60 mil internos morreram e um número incontável de vidas foi marcado de maneira irreversível.
Daniela Arbex entrevistou ex-funcionários e sobreviventes para resgatar de maneira detalhada e emocionante as histórias de quem viveu de perto o horror perpetrado por uma instituição com um propósito de limpeza social comparável aos regimes mais abomináveis do século XX. Um relato essencial e um marco do jornalismo investigativo no país, relançado pela Intrínseca com novo projeto gráfico e posfácio inédito da autora.
Daniela Arbex trabalha há 22 anos como repórter especial do jornal Tribuna de Minas. Suas investigações resultaram em mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três Essos, o IPYS de melhor investigação da América Latina e o Knight Internacional. Estreou na literatura com Holocausto brasileiro e em seguida lançou Cova 312, com os quais ganhou dois prêmios Jabuti. Recentemente, virou documentarista e seu filme Holocausto brasileiro ganhou as telas da HBO em 40 países. Daniela mora em Minas Gerais.
Custa-me muito escrever estas palavras, tendo em conta o tema e a crueldade dos factos e a importância que a abordagem num livro destes acontecimentos representa numa sociedade que escondeu um holocausto brasileiro. Portanto, reconheço o trabalho da jornalista Daniela Arbex e valorizo muito que tenha havido alguém a procurar as vítimas, a falar com elas e dando-lhes voz, mostrando ao mundo os horrores que lhes fizeram. Contudo, não gostei da execução e da organização do livro. Vi opiniões acerca do livro na internet muito mais elucidativas e cativantes do que a escrita e a exposição dos temas neste livro. E o limite para mim foi quando vi dada importância (demasiada) a um jornalista que apenas fotografou o hospital psiquiátrico, e digo "apenas" porque se simplesmente esqueceu o que ele fotografou e tudo continuou igual. Foram-lhe, então, dedicadas inutilmente uma data de páginas, como se de uma biografia sua se tratasse, sem que isso acrescentasse algo à história real e macabra que o livro queria contar. Durante a leitura só me lembrava do excelente trabalho que Svetlana Alexievich fez com As Vozes de Chernobyl e que me tocou como nada neste mundo. Estava à espera de algo que pudesse ser alvo de comparação. Cinco estrelas para o trabalho jornalístico, mas 2 estrelas para o trabalho literário.
Tratado como propriedade do Estado, o menino hospitalizado apenas por ser tímido se separou da família sem diagnóstico de loucura, embora não tenha sido difícil arranjar uma doença para ele. Qualquer moléstia mental serviria, afinal, o rapaz era filho da pobreza como a maioria dos depositados nos manicómios do Estado.
Neste livro temos histórias de alguns dos sobreviventes do hospício de Colônia, fundado em 1900 e para onde iam todos aqueles que causavam incómodo. Fosse por serem, de facto, doentes mentais, fosse por não concordarem com o que outros queriam para a vida delas (mulheres que queriam salários iguais aos dos homens, meninas criadas que eram violadas pelos patrões e ficavam grávidas, esposas que eram infelizes no casamento), pessoas sem documentos, etc...
Lá, eram despojados de toda a humanidade, vivendo em condições piores que as de porcos. Despidos, a passar fome e frio, a beber água insalubre, caíam que nem tordos e até na morte eram fonte de rendimento para o hospital, pois vendiam os cadáveres às faculdades de medicina.
O livro foca-se mais nos sobreviventes e em algumas das pessoas que lá trabalharam, mas vale, sobretudo, pelas fotografias incluídas, que nem precisam de palavras para termos uma ideia do inferno que aquele espaço foi.
Em alguns pontos, a "narrativa" em si parece forçada, rígida, com escolhas de vocabulário que poderiam melhorar. Mas a história real -- a pesquisa, as fotos, os relatos obtidos da população em geral, de ex-"pacientes", de funcionário, até mesmo das escolas de medicina que compravam os corpos dos pacientes que morriam -- é incrível. Baita leitura, apesar do chute no estômago.
Nunca tinha me passado pela cabeça que o Brasil tivesse tido o seu "pequeno " holocausto. Em uma cidade do interior de Minas Gerais chamada Barbacena foi fundado em 1903 um hospital psiquiátrico chamado Colônia onde foram cometidos as maiores atrocidades possíveis a seus pacientes. Pra começo de conversa, 70% dos internados não tinham nenhum problema psicológico; eram pessoas excluídas da sociedade tais como os homossexuais , as prostitutas, vítimas de estrupos e por ai.Eles eram mandados pelos pais ou pelas autoridades e chegavam de trem(como no holocausto) de todas as partes do Brasil e eram despejados no colônia. Essas pessoas eram submetidas a eletrochoques, camisas de força, lobotomia. Dormiam sobre capins em meio a ratos e fezes, tomavam água do esgoto que era a céu aberto. A alimentação era triturada, jogadas em um cocho , como se fossem porcos! Todos os que entravam ali perdiam sua dignidade; tinham seus cabelos raspados e andavam nus. Isso sem contar que ali também existiam crianças que viviam junto com os adultos.
Nesse inferno chamado Colônia , estima se que tenha morrido mais de sessenta mil pessoas desde sua abertura em 1903 até o seu fechamento na década de 80. A jornalista Daniela Arbex conta a história desse pequeno inferninho bem como de empregados, médicos e algumas vitimas que viveram mais de 30 anos internadas nesse manicômio.
considero o livro muito importante pra história do nosso país, e é revoltante a existência do colônia. mas não gostei tanto da forma que a narrativa fluiu. parecia ir do ponto a para o b e de repente pro x, com pouca conexão.
teve muita "encheção de linguiça", com a autora escrevendo páginas e mais páginas da história de vida de um jornalista ou filósofo, em vez de focar 100% na história do colônia (no caso do fotógrafo, acho que foi requisito para poder usar as imagens, mas não foi só com ele que aconteceu)
eu senti também muita espetacularização do sofrimento, com várias "frases de efeito". e também algumas falas capacitistas como "naquele momento nem parecia que era deficiente", etc. sei que o livro foi escrito em 2011-13 mas não vejo como justificativa.
Uma leitura, por vezes, quase insustentável de tão dolorida. Chorei em diversos capítulos. A desumanização retratada é, infelizmente, uma memória fraca no nosso hall de memórias nacionais. Não deveria. O livro é um bom começo para entender sobre luta antimanicomial no país, sua importância, sua atualidade, e para pensar em possíveis paralelos com outras instituições que se sustentam por um sistema de "descarte de corpos". Leiam! Em muitos momentos vai doer, mas é uma ótima forma de não deixar esses erros e essas injustiças perdidas na memória coletiva. Avaliei em quatro estrelas por questões de organização e escrita do livro, não pelo tema e trabalho jornalístico.
Tema interessante, mas muito mal desenvolvido. Não fala muito sobre o que aconteceu no colonia, mas sim sobre a vida de algumas pessoas após o "internamento". A escrita é horrível e todos os diálogos parecem forçados/ficção. Aproveitam-se as fotografias.
"Olhar os erros do passado para não repetí-los no futuro".
Apesar de ter estudado um pouco sobre a reforma psiquiátrica no Brasil, devido ao meu TCC, realizado com pacientes esquizofrênicos e, de ter trabalhado no serviço de saúde mental aqui da minha cidade, nada me preparou para o que li em Holocausto Brasileiro. Choque, revolta, vergonha. 60 mil mortos, sem contar as milhares de desumanizações. É o ser humano, desde sempre, cometendo atrocidades contra outro ser humano por intolerância, pelo: eu sou o certo e qualquer um que desvie dos padrões que eu tenho como normal e aceitável, deve ser excluído e, por que não, eliminado.
Citando a própria autora: “Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será a reedição dos abusos sob a forma de política de saúde pública?"
O livro é um soco no estômago, mas um soco necessário para que os fatos não sejam esquecidos e tragédias como essa não se repitam.
O livro que conta a história do Colônia diz mais sobre a condição humana e como a sociedade historicamente aliena os "indesejáveis" do que sobre a "psiquiatria" propriamente dita. É um verdadeiro filme de terror, e ilustra bem a pior face da humanidade. Contudo, apesar do tema doloroso, ele nos força a encarar uma face da sociedade que nos assombra e que, de tempos em tempos, toma o poder neste equilibrio dinâmico que é a história.
Como descrito no "holocausto brasileiro", uma boa parcela dos pacientes nem portadores de doenças mentais eram. Contudo, a sociedade se instrumentalizou do construto da "loucura" para lidar com os indesejáveis de uma forma esquiva, "técnica", fugindo da própria consciência. A psiquiatria sofre com os estigmas deste mau uso de suas atribuições até hoje.
Atualmente, com as prisões invisíveis da alienação, as grades do colônia são menos necessárias.
Quanto ao livro propriamente, há relatos e fotos incríveis. Me incomodou, em alguns momentos, o estilo literário excessivamente melodramático. Ele não é necessário, os fatos são dramáticos por si só.
Tive um mixed feelings com esse livro. Como sou apaixonada por psiquiatria e a história do hospital colônia sempre me deixou muito intrigada, comecei a ler esse livro. Realmente, a vivência dos pacientes é uma de tirar o fôlego (no mau sentido) - “animais” parece ser um eufemismo pelo modo que são tratados. No entanto, a leitura me passou a impressão que estava lendo uma reportagem. Em alguns momentos confesso que isso ficou interessante, mas as vezes fugiu da expectativa que eu tinha criado do livro. Não me arrependi de ler e descobrir que estamos muito longe ainda de uma psiquiatria humana (e espero poder contribuir pra essa mudança), mas em muitas partes fiquei entediada.
Te desafio a não lacrimejar em algumas passagens. Poderia ter sido escrito de forma que não apelasse tanto na emotividade em situações redentoras de ex-internos, mas mesmo assim você ia chorar porque a realidade do Colônia durante décadas era tragédia em seu estado mais puro.
“Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Cabdelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias. Será a reedição dos abusos sob a forma de política de saúde pública?” . Esse livro é como um memorial pra nunca esquecermos das injustiças cometidas contra os direitos básicos de cada cidadão. E mais do que isso, é servir como alerta, pois desumanizar uma pessoa, e naturalizar essa atitude em sociedade é mais fácil do que se imagina! . Edit: deixei de dar uma estrela pois achei que a autora foi prolixa em muitos momentos do texto, trazendo informações que não conversavam com o texto principal.
O termo Holocausto parece um exagero quando não aplicado ao assassinato sistemático de judeus, homessexuais e ciganos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Pois imagine um campo onde os prisioneiros ficam nus quase o tempo todo. Na tentativa de se aquecerem durante a noite, dormiam empilhados, sendo comum que os debaixo fossem encontrados mortos. Ou dormiam no chão ou sobre “camas” de capim cheias de baratas e ratos. Mulheres esfregavam fezes pelo corpo para tentarem evitar serem estupradas, misturadas em pavilhões com homens e crianças, indiscriminadamente. A água do esgoto no pátio é bebida corriqueiramente, a comida apodrecida é preparada no chão. Um lugar no qual por décadas dezenas morriam a cada dia – totalizando 60 mil mortos – e seus corpos não eram enterrados, mas movimentavam um comércio de “peças anatômicas” para faculdades de medicina.
Esse foi a realidade do maior hospício do Brasil, conhecido como Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. Onde 70% dos internados sequer tinha diagnóstico de doença mental; eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas. Uma mulher chegou a ser internada por “tristeza”. Boa parte das internações sequer foi assinada por médicos, mas por delegados. De alguns pacientes sequer se tinha registro sobre porque haviam sido internados, mas uma vez dentro dos muros de Barbacena era lá que passariam o resto de suas vidas. Um holocausto brasileiro perpetrado pelo governo e permitido pela omissão da sociedade.
Presídios e manicômicos são a parte de baixo do tapete de uma sociedade, é pra onde ela farre tudo o que ela não quer ver. Em poucos casos isso foi tão real como com Colônia, com pessoas esquecidas em internações sem motivo por 40, 50 anos. Foi um lugar onde os loucos acabam mostrando a loucura dos chamados normais.
O livro Holocausto Brasileiro é muito bem estruturado e pesquisado, com a jornalista Daniela Arbex mostrando os diversos aspectos de Colônia e o ponto de vista tanto de internos como de ex-funcionários através de perfis de toda a vida dos personagens, da infância até os dias de hoje. O tom às vezes é um pouco sentimentalista demais – acho que o drama dos fatos fala por si só – mas isso é uma minúcia do meu gosto pessoal. O livro é repleto de imagens, muitas que, fora de contexto, poderiam de fato facilmente ser confundidas com um campo de concentração.
Eu confesso que fiquei envergonhado de não conhecer a história de Colônia, ainda mais pelo fato de ter estudado psicologia. Temos essa imagem que o Brasil é um país alegre, que não comete atrocidades como outros povos. Eu acho que livros como Holocausto Brasileiro mostram que na verdade somos um povo que muitas vezes escolhe não querer nem saber das atrocidades que comete.
O livro traça a história de um dos maiores hospitais psiquiátricos que já existiram no Brasil e como este era utilizado como uma espécie de "aterro" dos indesejados. A leitura é fácil e atraente nos primeiros capítulos. Após a metade do livro a chatice começa. O livro se torna repetitivo, enviesado e a autora tenta dar depoimentos como se estivesse dentro da cabeça dos personagens que viveram lá... Desnecessário do meu ponto de vista. Tive a sensação de que em algumas passagens existe apologia política a certos partidos e nomes públicos (por que eu não sei). Em vários momentos tive a impressão de haver enchimento de linguiça, o que é uma pena e só diminui o livro. 3 estrelas porque a história é interessante e merece ser contada. As 2 a menos são pelos motivos citados anteriormente.
Holocausto Brasileiro é um livro que incomoda, fazendo uma junção de histórias reais inacreditáveis e imagens assustadoras que dão forma ao terror que foi e de certa forma ainda é a realidade de diversos brasileiros que não se encaixam nos padrões impostos pela sociedade (Seja em hospitais, presídios ou comunidades). O livro não se limita a expor atrocidades cometidas por décadas dentro Hospital Colônia de Barbacena, mostra como há todo um sistema moldado através de preconceitos que garante a execução em massa de milhões de brasileiros, matando-os, prendendo-os e privando-os de direitos essenciais. Leitura obrigatória.
eu nem sei direito oq dizer sobre esse livro, só que é medonho onde o ser humano consegue chegar, essa estrela foi para alguns momentos em que assuntos irrelevantes ao meu ver tiveram foco sem necessidade, esse "tempo perdido" poderia ter sido usado pra falar mais sobre o colonia e seus sobreviventes
"Nada se perdia, excepto a vida." Barbacena é uma cidade situada no estado de Minas Gerais. Mas também foi guarida do maior hospício do Brasil. O campo de concentração como assim foi designado, estava situado em Colônia, e roubou a dignidade a mais de 60 mil pessoas, a maior parte delas morrendo por lá.
Daniela Arbex faz um relato impressionante sobre a vida degradante dos "prisioneiros" do Colônia. Desde à falta de higiene e comida, passando por terem de beber água do esgoto por não lhe darem água potável, comerem ratos e serem sujeitos a electrochoques e a lobotomias...
É inaceitável que nos compadeçamos das vítimas dos campos de concentração nazistas de Treblinka e Auschwitz e desconheçamos a tragédia humanitária que aconteceu nos quintais de onde moramos. Mais e mais pessoas precisam conhecer a realidade tenebrosa dos manicômios brasileiros, especialmente do Colônia, em Barbacena-MG.
Mesmo vivendo em um mundo tão repleto de abusos e absurdos, de naturalização e fetichização da violência, confesso que ainda estou paralisado após a leitura desse livro. Em ‘Holocausto Brasileiro’ brasileiro, Daniela Arbex dá voz àqueles chamados de “loucos”, para que estes denunciem a loucura daqueles chamados de “normais”.
Minha primeira inquietação quanto à leitura foi com o título mas, ainda no prefácio (magistral) de Eliane Brum, compreendi que o termo “holocausto” não era uma hipérbole. Franco Basaglia, psiquiatra italiano e pioneiro da luta antimanicomial, disse numa coletiva de imprensa quando esteve no Brasil, em 1979: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”.
Ao menos 60 mil morreram no Hospital Colônia, em Barbacena (MG). Grande parte chegou lá de trem – o “trem de doido”, conforme fora batizado por Guimarães Rosa –, teve sua cabeça raspada e suas roupas, arrancadas. Perderam documentos, família, o passado. O próprio nome. Algumas prisioneiras (não consigo usar o termo “pacientes”) perderam os próprios filhos. Tampouco na morte encontravam paz. Quase 2 mil cadáveres do manicômio foram vendidos (por quantias que hoje girariam na casa de R$ 200 a R$ 300) a diversas faculdades de medicina do país.
Estima-se, também, que 70% dos internados não sofressem de doença mental. O Colônia foi, efetivamente, uma prisão para a qual eram destinados “desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres […]”, meninas grávidas (violentadas pelos patrôes), esposas abandonadas para que os maridos pudessem viver com suas respectivas amantes. Uma prisão que não necessitava de lei, polícia, júri ou juiz.
A autora não exagera nada. Arbex desabafa: “A dor só vira palavra escrita depois de respirar dentro de cada um como pesadelo.” E aponta também, por meios das muitas histórias a que se deu o trabalho de resgatar e registrar, que o que nos acorda desse pesadelo e nos salva da barbarie é sermos “gente que se mostrou capaz de gostar de gente.” ‘Holocausto Brasileiro’ é um livro fundamental em nossos tempos brutos, nos quais nossa capacidade de gostar de gente é posta em xeque.
Gostei bastante da leitura apesar sentir que os tempos do Colônia poderiam ter sido mais explorados. Me incomodou profundamente um capítulo destinado a biografia de um dos fotógrafos que visitou o hospital - não havia necessidade, pareceu capítulo patrocinado ou algo assim. Contudo, a leitura é muito boa e faz refletir sobre as maldades que o ser humano é capaz de fazer com grupos que não conseguem ter voz.
"Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio. Ontem foram os judeus e os loucos, hoje são os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias."
Esse excelente livro de autoria da respeitada e premiada jornalista Daniela Arbex já vendeu mais de 300.000 mil exemplares desde que foi lançado originalmente em 2013. E sua fama é mais do que justificada e todos que o leram não saíram incólumes em função da contundência do relato. O foco da escritora é o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena” conhecido tradicionalmente apenas como “Colônia”. Segundo as rigorosas apurações da autora o “Colônia” foi, desde o início do século XX, um verdadeiro “depósito de gente” e um verdadeiro campo de concentração onde eram isolados e esquecidos os “loucos” e “loucas” assim como epiléticos, homossexuais, prostitutas, mães solteiras, mulheres engravidadas pelos patrões, mendigos, alcoólatras, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, tímidos, melancólicos, mulheres rejeitadas por maridos em prol de amantes e “indesejáveis” de uma maneira geral. Essas pessoas, muitas vezes, não sabiam por que estavam internadas e não recebiam tratamentos ou esclarecimentos de espécie alguma. A higiene não existia, a alimentação era repugnante e nem roupas recebiam com regularidade. Milhares permaneciam nus o tempo inteiro. O livro serviu de caixa de ressonância para as denúncias acerca das barbaridades do “Colônia” e avivou as discussões acerca da modernização e da humanização dos tratamentos psiquiátricos. Confesso que senti falta de um maior aprofundamento acerca do debate em torno da questão dos tratamentos psiquiátricos e dos argumentos tanto daqueles que defendem as internações como daqueles que defendem tratamentos mais humanos e que isolem menos os pacientes mas entendo que o foco da autora era a denúncia de um verdadeiro e silencioso holocausto que vitimou milhares de brasileiros e brasileiras vítimas da brutalidade de um poder público insensível e da indiferença da sociedade como um todo. Hoje o “Colônia” já não é mais um campo de concentração mas a lembrança de tudo o que aconteceu deve ser preservada para que tais absurdos não mais aconteçam e esse livro é peça vital nesse trabalho de preservação de um passado brutal que vitimou milhares de seres humanos. Livro vital principalmente nestes dias tão complicados em que vivemos e em que pessoas, para lá de mal intencionadas, pretendem enterrar, por conveniências ideológicas e políticas, os absurdos de nosso passado recente. Leia com atenção, divulgue, comente, reflita!
“Não encontramos os loucos terríveis que supúnhamos. Seres humanos como nós. Pessoas que, fora das crises, vivem lúcidas o tempo todo. Sabem quem são e o que fazem ali. […] Pessoas que pedem para ser fotografadas, pedem a publicação de seus nomes. Insistem em voltar à sociedade, à família, ao afeto, à liberdade. […] a maioria insiste em ter esperança de ser tratada como ser humano. Ainda há tempo.”
Li mais rápido do que esperava e chorei em vários momentos diante da ausência de humanidade nos relatos, Daniela Arbex, assim como todos os envolvidos no processo da luta antimanicomial prestam um serviço impecável em não deixar esquecida a memória de tantos brasileiros que quase foram apagados da história por simplesmente quererem existir
Nunca tinha lido um livro que me abalou tanto! Porém é um livro necessário para todos os brasileiros, tenho certeza que muitos também desconheciam essa história do nosso país, e ela deve ser sempre lembrada!
Esperava mais informação sobre o que de fato aconteceu no Colônia e menos narrativas sobre ex-pacientes do local. Há trechos que, para mim, pareceram fora de contexto e outros repetitivos que tornaram o livro um pouco cansativo da metade para o final. As fotografias são fortes e chocantes.